Para Igreja russa, Evangelho de Judas não afeta a doutrina cristã

07 de abril de 2006 • 13h52 • atualizado às 15h06

O Patriarcado ortodoxo de Moscou afirmou hoje que a descoberta do "Evangelho de Judas", cujo texto foi publicado ontem por cientistas americanos e suíços, não afeta a doutrina cristã e só tem interesse histórico. "Não podemos imaginar que a descoberta de um texto atribuído a um personagem do início do cristianismo ou mesmo de um dos discípulos de Cristo mude a composição da Sagrada Escritura", declarou o porta-voz do departamento de Relações Exteriores do Patriarcado de Moscou, o padre Mikhail Dudkó.

A revista National Geographic divulgou ontem o original e a tradução para o inglês do texto de um papiro encontrado no Egito em 1978. É a única cópia existente do "Evangelho de Judas", traduzido para o copta a partir do original em grego.

Segundo o texto, Judas não foi o traidor que vendeu Jesus por 30 moedas de prata, mas um discípulo privilegiado, encarregado da missão mais difícil: sacrificá-lo para ajudar a sua essência divina a escapar da prisão do corpo e subir ao céu.

O porta-voz da Igreja Ortodoxa Russa disse que textos relativos ao período inicial do cristianismo já foram encontrados outras vezes e continuarão sendo. Por isso, "o interesse no 'Evangelho de Judas' é acima de tudo, histórico".

"Não há possibilidade alguma de incorporar o livro à Sagrada Escritura. Mas ele pode revelar novos detalhes históricos", explicou Dudkó. Ele acrescentou que será necessário um minucioso estudo para determinar o verdadeiro valor histórico do documento.

O diácono Andrei Kuráyev, conhecido teólogo ortodoxo russo e professor da Academia Espiritual de Moscou, opinou que o "Evangelho de Judas" tem pouco a acrescentar aos conhecimentos sobre a vida de Jesus Cristo e dos apóstolos.

"Não pode ser obra de Judas Iscariotes pela simples razão que Judas se enforcou no mesmo dia em que Cristo foi crucificado.

Portanto, não pode haver nenhum ''Evangelho de Judas'', e o texto, provavelmente, foi criado por alguma das seitas gnósticas dos séculos III e IV", afirmou.

Kuráyev lembrou que na época, principalmente no Egito, surgiram várias correntes ocultistas pseudocristãs. Algumas delas cultuavam os personagens bíblicos mais detestados, como os cainitas, que prestavam culto a Caim, o primeiro assassino, e os ofitas, que veneravam a Serpente que tentou Adão e Eva.

"O chamado 'Evangelho de Judas' pode ampliar nosso conhecimento sobre as crenças gnósticas daqueles tempos. Mas dificilmente mudará ou aumentará nosso conhecimento sobre a vida de Cristo e da primeira comunidade apostólica", opinou.

O teólogo russo apontou ainda a diferença entre uma divulgação na imprensa e uma publicação científica, que deve descrever a história da descoberta, o estado físico do manuscrito, o grau de conservação, uma análise da escrita e do contexto cultural.

"Enquanto não forem cumpridas estas condições, não pode haver um comentário sério sobre o 'Evangelho de Judas'", disse Kuráyev.

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