Investir em meio ambiente traz lucros enormes, diz relatório

14 de setembro de 2005 • 13h23 • atualizado às 13h23

Alister Doyle

Oslo


Gastos para proteger o meio ambiente, sejam em recifes de corais ou florestas, podem gerar enormes dividendos para auxiliar a campanha mundial contra a pobreza, disse um relatório patrocinado pela ONU na quarta-feira.

O estudo, cuja divulgação coincide com a cúpula mundial dos 60 anos da ONU em Nova York, sugere que as florestas podem ser mais valiosas de pé do que sendo devastadas para dar espaço a plantações, porque as árvores absorvem os gases do efeito estufa, responsáveis pelo aquecimento global.

"O meio ambiente não é um bem de luxo, só acessível quando todos os outros problemas tenham sido resolvidos", disse Klaus Toepfer, diretor do Programa Ambiental da ONU, que estava entre os 30 grupos internacionais por trás do relatório.

O texto estima serem necessários investimentos anuais de 60 a 90 bilhões de dólares nos próximos 10 a 15 anos, a fim de atingir a meta global de reduzir pela metade a proporção de seres humanos que vivem com menos de um dólar por dia — atualmente, mais de 1 bilhão de pessoas.

Outros 80 bilhões de dólares anuais seriam necessários para limitar o aquecimento global, muito ligado à queima de combustíveis em carros, usinas e fábricas, nos próximos 50 anos.

Uma vez que o investimento seja feito, afirma o relatório, cada dólar gasto em água e saneamento no Terceiro Mundo, por exemplo, poderia gerar 14 dólares em benefícios como menores gastos com saúde, maior produtividade e mais escolarização.

"A conservação de hábitats e ecossistemas também são eficientes em termos de custos quando se compara aos lucros de curto prazo de atividades ambientalmente nocivas", diz o texto, citando entre elas a pesca com dinamite, a mineração e o desmatamento.

Cada dólar investido no combate à degradação da terra e à desertificação, como a construção de terraços para conter a erosão, pode gerar pelo menos três dólares em benefícios, segundo o relatório da Parceria Pobreza-Meio Ambiente.

E cada dólar gasto na proteção dos recifes de corais pode gerar cinco dólares, advindos do turismo de mergulho e da renovação dos estoques de pesca.

As florestas poderiam ter um importante papel na redução do aquecimento, porque as árvores absorvem o dióxido de carbono, principal gás do efeito estufa.

"O potencial de armazenamento ou 'sequestro' de carbono das florestas varia de 360 dólares a 2.200 dólares por hectare, o que faz com que valham muito mais do que se convertidas em pastos ou lavouras", disse o Programa Ambiental da ONU.

De acordo com o estudo, será muito mais econômico conservar as florestas do que devastá-las quando o preço do carbono superar os 30 dólares por tonelada.

A ONU tem um mecanismo de compensação de emissões de carbono, pelo qual países que absorvem-no podem vender aos industrializados o direito de poluir. Esse tipo de transação foi iniciado neste ano na União Européia, e a tonelada de carbono está sendo vendida a cerca de 22 euros (27 dólares).

O relatório também aponta outras formas de explorar comercialmente o meio ambiente sem devastá-lo. Cita a experiência de agricultores brasileiros na Amazônia que recorrem a castanhas e frutos da mata quando há problemas na lavoura, o que faz das florestas "uma política de seguros baseada na natureza".

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