O médico responsável pela infusão, Marcos Mauad, onco-hematologista do hospital Hospital Amaral Carvalho (HAC), disse que a utilização de células-tronco de cordões umbilicais para pacientes com esse perfil é bastante ampla, mas nunca havia sido utilizado material brasileiro para o procedimento. "O Brasil paga caro para trazer esse material do exterior", disse o médico à Agência Interior.
A iniciativa decorreu de uma coincidência, disse o médico, já que, entre os apenas 900 cordões armazenados no Instituto Nacional de Câncer (Inca), no Rio de Janeiro, foi encontrado um geneticamente compatível para a paciente, que sofre de leucemia.
"É um misto de felicidade e ansiedade o que nós estamos sentindo hoje", disse a mãe da menina submetida ao transplante, Mary Canal. "Estamos buscando um otimismo sempre, de que vai dar tudo certo". Um pouco antes do início da operação, Mary disse que a garota está bastante lúcida e feliz com a possibilidade de ter sua vida salva.
Ao lado dos pais, da irmã, dos enfermeiros e dos médicos da equipe, Vanessa estava tranqüila e mostrava-se bem disposta. Queixava-se apenas de ter que usar a máscara de proteção. A menina começou o tratamento da leucemia com apenas 3 anos de idade, e já foi submetida a sessões de quimioterapia e radioterapia. Há um ano, o problema voltou, e só restava a esperança do transplante.
Banco de dados
Estima-se que seja necessária uma amostra de pelo menos 20 mil cordões umbilicais para que haja uma probabilidade razoável de se encontrar doadores compatíveis entre pessoas que não sejam parentes. O Brasil possui, atualmente, um banco de apenas 900 cordões. Segundo o Ministério da Saúde, o Brasil tem 2,5 mil indicações anuais para transplante de medula óssea. A chance de que essas pessoas encontrem doadores na própria família (geralmente entre irmãos) está entre de 25 e 30 por cento.
"Isso significa que 70 por cento dos pacientes com esta indicação terão de buscar doadores não relacionados (que não são parentes)", afirma o médico.
Com investimentos de 18 milhões de reais até 2006, o governo quer estimular a doação dos cordões para aumentar a disponibilidade desse material para pacientes que precisam de transplante. "A coleta de cordão umbilical no Brasil dá certo, e essa feliz coincidência de acharmos o material no Inca prova isso", diz o médico. "Além de uma taxa de natalidade alta, temos uma forte miscigenação genética que poderá salvar vidas", continuou.
Mauad lembra que esse material costuma ser inutilizado e jogado fora após o parto. Para que ele seja aproveitado, basta o armazenamento em tambores de nitrogênio, congelados por freezers a temperaturas de 135 a 196 graus negativos. Qualquer pessoa pode ser um potencial doador.
Armazenagem no interior
Alguns centros hospitalares no interior paulista deverão ser transformados em bancos de armazenamento com o incentivo às doações, como o Hemocentro de Ribeirão Preto e o da Universidade de Campinas (Unicamp), além do Hospital das Clínicas de Curitiba (PR), e o Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo. Eles terão seus estoques de cordões catalogados no Registro Nacional de Doadores de Medula Óssea (Redome), do Inca, único armazenador de cordões umbilicais do Brasil atualmente.
Hoje, apenas cinco instituições hospitalares no Brasil estão autorizadas a fazer o transplante entre não-aparentados pelo Sistema Único de Saúde (SUS).
Segundo o onco-hematologista do hospital de Jaú, uma "boa parcela" dos doadores voluntários de medula óssea acaba recuando da iniciativa no momento em que são chamados para fazer a doação a pessoas que não são relacionadas diretamente a eles. "A pessoa precisa se submeter a uma cirurgia, receber anestesia. Sempre há um risco", explica Mauad. "Muitos acabam desistindo". No Brasil, existem atualmente 72 mil nomes na lista de doadores. O ideal, segundo as estatísticas, seria uma amostra de 2 milhões de pessoas.
Segundo o médico, o efeito do transplante para o paciente com o cordão é o mesmo daquele realizado com a própria amostra de medula. Há apenas um limite de peso do paciente. Por isso, até agora, os transplantes com cordões têm sido realizados preferencialmente em crianças.
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