Brasileiros criam tratamento para enfisema com células-tronco

08 de setembro de 2009 • 19h47 • atualizado às 19h53

Chico Siqueira

Direto de Araçatuba

Pesquisadores do IMC (Instituto de Moléstias Cardiovasculares), de São José do Rio Preto, no interior de São Paulo, e da Universidade Estadual Paulista (Unesp) - campus de Assis - anunciaram nesta terça-feira a realização de uma terapia com a aplicação de células-tronco adultas para tratamento da Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica (DPOC), o enfisema pulmonar, em pacientes que adquiriram a doença com o cigarro. A terapia, que é totalmente financiada pelo IMC, é inédita no País e no mundo, algo semelhante, com outros tipos de cultura de células e outros grupos de pacientes, está sendo feito nos Estados Unidos e no Rio.

O objetivo dos pesquisadores é restaurar o tecido pulmonar dos pacientes que perderam a capacidade respiratória por causa da doença. Estima-se que o enfisema, que é incurável em 90% dos casos, atinja de 6% a 7% da população com mais de 40 anos. Causada pelo cigarro, a doença gera inflamação nos brônquios e destrói os alvéolos e o tecido pulmonar. Com o tempo, o paciente não consegue fazer a troca gasosa, ou seja, reter oxigênio e eliminar gás carbônico e por isso sente dificuldade para respirar.

Quatro pacientes foram submetidos à terapia. Eles receberam nos últimos meses aplicação de 30 ml (mililitros) cada um de células-tronco adultas, extraídas da medula e os resultados verificados nas avaliações clínicas em três deles animaram a equipe. As aplicações foram feitas nos dias 11 de maio, 7 de julho e 13 de agosto e as avaliações clínicas em 30 e 60 dias após as aplicações.

"Pacientes que viviam com ajuda de aparelhos de oxigênio e não podiam caminhar sem eles, hoje o fazem sem o equipamento. Um deles voltou a dirigir sem o aparelho e outro, a ter forças e ar para acompanhar o cão na caminhada", contou o cirurgião torácico Aldemir Bilacchi, responsável pelas aplicações, feitas em bombeamentos individuais, por meio de veias periféricas, durante quatro horas.

Bilacchi alertou que a constatação clínica "serve apenas para abrir ótimas expectativas sobre a aplicação das células-tronco". Segundo ele, somente daqui a quatro meses, quando será feita a avaliação das funções pulmonares (esperiometria) é que será possível dimensionar cientificamente os avanços da terapia nos pacientes. "Trata-se de uma aplicação experimental, mas que já nos trouxe grandes expectativas para nós e para os pacientes", disse.

De acordo com Bilacchi, o protocolo da pesquisa, autorizado pelo Conselho Nacional de Ética em Pesquisa (Conep), estabeleceu a escolha de quatro pacientes com a exigência de que eles não tivessem possibilidade de tratamento. "Esses pacientes aceitaram voluntariamente participar do estudo, assinando um termo de consentimento", disse Bilacchi. Em quatro meses, os pesquisadores esperam conseguir provar a ausência de risco para os pacientes e conseguir autorização para submeter mais seis à terapia. Os pacientes serão acompanhados por um ano pelos pesquisadores do IMC e da Unesp.

Antes de receber a aplicação, os quatro pacientes receberam medicamentos por três dias para estimular a produção de células-tronco na medula. Depois, em procedimento cirúrgico, com anestesia local, cerca de 150 mil células (200 ml) da medula foram colhidas através de punção na altura da bacia. As células foram processadas em laboratório e injetadas na veia periférica do braço. "Por um mecanismo ainda não explicado pela medicina, essas células migram para o tecido lesado. Imaginamos que o tecido doente libere alguma substância química que atraia as células-tronco", explica o geneticista João Tadeu Ribeiro Paes, da Unesp.

Foi por meio de pesquisa feita por Paes com camundongos que a nova terapia pôde ser feita em humanos. Na pesquisa, Paes observou que um grupo de camundongos, que recebeu um tratamento experimental com células-tronco, apresentou regeneração do tecido pulmonar e melhoria na capacidade respiratória. O estudo embasou o pedido de autorização feito ao Conep para realização da terapia celular experimental em humanos. Paes é reticente: "Existe ainda uma longa caminhada a ser percorrida, com mais perguntas que respostas, mas é preciso que alguém dê o primeiro passo e é isto que estamos fazendo", disse Paes.

O diretor do IMC Oswaldo Grecco, responsável pelas atividades de terapia celular, disse que foram necessários de quatro a cinco anos para que o Instituto pudesse estar preparado para outras áreas. "Precisamos desenvolver toda uma parte técnica para que nossas instalações pudessem estar preparadas para realizar mais este tipo de terapia", disse. O IMC é conhecido nacionalmente por realizar terapias com células-tronco nas áreas de cardiologia e sistema vascular. Segundo Grecco, pesquisas feitas constataram que a terapia realizada em Rio Preto é inédita no mundo. "Não há nenhum trabalho como esse relatado na literatura médica", afirmou.

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