Baço tem papel mais importante do que se pensava, diz estudo

07 de agosto de 2009 • 13h37 • atualizado às 13h42

Natalie Angier

Já que sou uma notória ranzinza, com um gênio muitas vezes comparado ao da furiosa Lucy Van Pelt, nos quadrinhos da série "Peanuts", fiquei gratificada ao descobrir que, caso meu baço decida entrar em erupção causada por raiva, qualquer dia, é possível que isso salve a minha vida.

Os cientistas descobriram que o baço, por muito tempo relegado à posição de celebridade menor entre os órgãos abdominais e não muito respeitado por seu valor fisiológico, na verdade desempenha papel mais importante do que costumávamos suspeitar no sistema de defesa do organismo.

Em relatório publicado na mais recente edição da revista Science, pesquisadores do Hospital Geral de Massachusetts e da escola de medicina da Universidade Harvard descrevem estudos segundo os quais o baço serve de reservatório a grande número de células imunológicas conhecidas como monócitos e que, em caso de sério trauma corporal, por exemplo um ataque cardíaco, ferimento profundo ou invasão microbiana, o órgão enviará multidões desses monócitos pela corrente sanguínea, com a missão de enfrentar a crise.

"O paralelo militar seria o de um exército permanente", diz Matthias Nahrendorf, um dos autores do relatório. "Nenhum governo desejaria começar a recrutar toda uma força militar do zero quando ela se torna necessária". Que os pesquisadores estejam apenas agora descobrindo uma característica importante de um órgão consideravelmente importante que está em estudo há pelo menos dois mil anos demonstra uma vez mais que não existe nada de tão desconhecido quanto o lugar a que chamamos casa.

"Muitas vezes, se você identifica alguma coisa que parece muito importante no corpo humano, a primeira reação é imaginar por que ninguém havia descoberto aquilo antes", disse Nahrendorf. "Mas, quanto mais aprendemos, mais percebemos que estamos apenas arranhando a superfície no que tange ao conhecimento da vida. Ainda não sabemos da história completa sobre coisa alguma".

Nahrendorf, em colaboração com Filip K. Swirski, Mikael J. Pittet e uma dezena de outros colegas, executou os estudos iniciais, em ratos de laboratório, mas os cientistas suspeitam que os resultados se provarão igualmente aplicáveis aos seres humanos.

Ulrich H. von Andrian, imunologista da escola de medicina de Harvard que não esteve envolvido nas pesquisas, concorda em que as descobertas representam uma surpresa. "Se fosse preciso adivinhar a origem dessas células, o mais provável seria imaginar que sejam mobilizadas pela medula óssea, e não pelo baço", disse. "A descoberta revela uma camada adicional de complexidade que não costumávamos associar ao órgão anteriormente".

As pesquisas mais recentes também representam uma nota cautelar contra qualquer subestimativa com relação às funções de uma determinada parte do corpo, e contra descartá-la como vestigial, dispensável ou obsoleta. Em um ensaio que acompanha o relatório, Ting Jias e Eric Palmer, do Centro do Câncer Memorial Sloan-Kettering, admite que "falta ao baço a imponência dos órgãos vizinhos", como o estômago ou o fígado, "porque os seres humanos são capazes de sobreviver sem ele".

Baços podem ser rompidos como resultado de esportes de contato, por exemplo, ou em uma queda de motocicleta, e quando isso acontece os médicos não têm outra solução a não ser remover o órgão. "É uma parte muito vascularizada do corpo, e o risco de uma grande hemorragia é imenso; quando um baço se rompe, você está diante de uma emergência cirúrgica", disse James George, hematologista do Centro de Ciências da Saúde da Universidade do Oklahoma. "É preciso removê-lo".

As novas descobertas não contrariam de forma alguma a necessidade de remover um baço rompido, dizem os pesquisadores, mas sugerem que a perda do órgão representa mais que uma simples "inconveniência", como a situação costumava ser muitas vezes retratada. O fato pode ajudar a explicar pesquisas anteriores, cujos resultados apontaram para um risco aumentado de morte prematura entre as pessoas que tenham passado por esplenectomias ou cirurgias de remoção do baço.

Em um estudo publicado em 1977 pela revista Lancet, por exemplo, os pesquisadores compararam um grupo de 740 veteranos norte-americanos da Segunda Guerra Mundial que tiveram seus baços removidos como resultado de ferimentos sofridos em combate a uma amostra semelhante de veteranos que também haviam sofrido ferimentos de guerra mas não haviam perdido seus baços.

Os homens que passaram pela esplenectomia, afirma o estudo, tinham probabilidade duas vezes mais alta de morrer de doenças cardiovasculares do que os veteranos do grupo de controle. E tudo isso significa que remoções de baço deveriam ser evitadas sempre que possível, especialmente entre os nossos pequenos guerreiros dos esportes - talvez por meio do uso de equipamentos apropriados de proteção.

Os pesquisadores mencionam outros casos nos quais determinados órgãos eram considerados tão supostamente dispensáveis que costumavam ser removidos "profilaticamente" - em muitos casos, com resultados infelizes. Nos últimos anos, por exemplo, muitas mulheres mais velhas que tiveram de passar por histerectomias (cirurgias de remoção de útero) receberam a recomendação de aproveitar a cirurgia para terem removidos também os seus ovários, mesmo que saudáveis.

O arrazoado era o de que, se elas já não estavam mais em idade fértil, por que manter órgãos reprodutores que poderiam desenvolver cânceres fatais? Mas pesquisas posteriores vieram a demonstrar que as mulheres que optam por remoções de ovários eletivas apresentavam maior incidência de fatalidades em cada período de estudo dado, e maior suscetibilidade a doenças cardíacas e câncer de pulmão, bem como probabilidade duas vezes mais alta de desenvolver o Mal de Parkinson, se comparadas às mulheres que mantiveram seus ovários.

"A evolução está em vantagem diante de nós", diz Nahrendorf. "Eu seria muito cuidadoso para dizer que as pessoas não precisam de um determinado órgão e deveriam se livrar dele".

Outra razão para estimar o baço - um órgão de cor púrpura, de tamanho semelhante a um punho e peso de cerca de 150 g, localizado no quadrante superior esquerdo da cavidade abdominal, logo atrás do estômago e sob o diafragma - é sua ilustre história médica e poética. Galeno, o renomado médico romano do século II, considerava que o baço fosse a origem de um dos quatro "humores" do corpo, especificamente a bílis negra associada às pessoas ranzinzas, irritáveis ou melancólicas.

Em seu poema "Spleen" (a palavra inglesa que designa tanto o baço quanto o humor melancólico a ele atribuído), o poeta francês Charles Baudelaire descreve um jovem narrador tão fatigado e deprimido, tão insensível à beleza das mulheres e às brincadeiras dos homens, que era como "se as águas verdes do Lete" (na mitologia grega, o rio do esquecimento) ocupassem suas veias.

Mais recentemente, os pesquisadores descobriram que o baço na verdade é como um sistema elaborado de área alagadiça, uma espécie de pântano que filtra e refresca o sangue do corpo. Nos demais órgãos, o sangue flui por uma rede interconetada de artérias, veias e capilares progressivamente mais estreitas. No baço, em contraste, existe um sistema circulatório não capilar. O sangue entra no órgão e se despeja nos chamados "sinusóides", semelhantes a poças; para sair do órgão, o sangue precisa se comprimir pelos intervalos entre as células.

Esse processo de despejo e compressão ajuda a filtrar os parasitas carregados pelo sangue, as células sanguíneas envelhecidas quebradiças demais para suportar compressão e os pequenos grânulos oxidados que muitas vezes são portados pelos glóbulos vermelhos. O baço costuma ser definido como um cemitério para glóbulos vermelhos, mas na verdade representa uma central de reciclagem, para o ferro e demais componentes que são extraídos das células e utilizados para formar novas jaulas de hemoglobina.

Filtragem, canibalização e, agora, cultivo sério de monócitos. No novo estudo, os pesquisadores começaram pelos monócitos, que são os maiores entre os glóbulos brancos do organismo. "Foi reconhecido que essas células executam as principais funções de reparo depois de ataques cardíacos", disse Nahrendorf. "Removem as células musculares mortas, começam a reconstruir tecido cicatrizado estável e estimulam a geração de novos vasos sanguíneos".

As células se apressam nesses reparos. "Apenas 24 horas depois de uma infecção miocárdica", diz Nahrendorf, "já há milhões de monócitos" reunidos em torno do coração danificado. Tudo isso pareceria sensato, desejável e uma excelente exibição de prontidão para emergência - não fosse o fato de que uma grande incógnita continuava a intrigar Nahrendorf e seus colegas: de onde vinha essa equipe de resgate rápido?

O número dessas células em circulação no sangue era simplesmente baixo demais. Os pesquisadores decidiram estudar órgão a órgão, até que chegaram ao baço e descobriram lá a jazida de monócitos. "Os números eram imensos, 10 vezes maiores que os da corrente sanguínea", disse Nahrendorf.

Pelo cálculo dos pesquisadores, os monócitos, como as demais células sanguíneas, nascem na medula óssea e em dado momento migram para o baço, atraídos por indicadores ainda desconhecidos.

Lá, ficam indolentes à espera de chamados mas, quando despertadas por assinaturas químicas de danos como a angiotensina, as células saem ao trabalho sem hesitar, uma reação que os pesquisadores esperam um dia compreender bem o suficiente para reproduzir sempre que desejem. Viva o presidente, viva a rainha no paço, e viva os monócitos que residem em meu baço.

Tradução: Paulo Migliacci ME

The New York Times
 
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