Exploração de urânio contaminou terras de navajos nos EUA

28 de julho de 2009 • 09h08 • atualizado às 09h19
Casa de Fred Slowman e da mulher, Clara, foi contaminada por níveis potencialmente perigosos de urânio, um legado da era da guerra fria Foto: The New York Times
Casa de Fred Slowman e da mulher, Clara, foi contaminada por níveis potencialmente perigosos de urânio, um legado da era da guerra fria
28 de julho de 2009
Foto: The New York Times

Dan Frosch

Em Teec Nos Pos, Arizona


Foi há cerca de um ano que um cientista ambiental bateu à porta de Fred Slowman, no coração do território navajo para alertá-lo de que viver lá não era seguro. A casa de Slowman, uma estrutura térrea construída com blocos de concreto na qual sua família vive há quase meio século, estava contaminada por níveis potencialmente perigosos de urânio, um legado da era da guerra fria, quando centenas de minas de urânio pontuavam o vasto território tribal conhecido como "Navajo Nation".

O cientista aconselhou Slowman, sua mulher seus dois filhos a se mudarem, para que a casa pudesse ser reconstruída. "Fiquei zangado", conta Slowman. "Pensei que aquilo existia em minha casa por todo aquele tempo, e nós nunca havíamos sabido".

O legado gerado por décadas de mineração de urânio é longo e doloroso na extensa reserva de Teec Nos Pos. Ao longo dos anos, mineiros navajos extraíram cerca de quatro milhões de toneladas de minério de urânio em suas terras, e boa parte do material foi utilizado pelo governo dos Estados Unidos para a produção de armas.

Muitos mineiros morreram de doenças relacionadas à radiação. Alguns, desconhecedores dos efeitos negativos que o urânio exercia sobre a saúde, utilizaram rochas e resíduos contaminados das minas e usinas locais a fim de construir casas para suas famílias.

Agora, essas casas estão sendo demolidas e reconstruídas, sob um novo programa do governo que procura identificar as possíveis dezenas de estruturas contaminadas por urânio que ainda existem em terras navajo, e transferir temporariamente os seus ocupantes para que elas possam ser demolidas e reconstruídas.

Stephen Etsitty, diretor executivo da Agência de Proteção Ambiental da Nação Navajo, e outros dirigentes tribais estão enfrentando há anos as consequências da mineração de urânio no território. "Há muita coisa sobre o que as pessoas não foram informadas, no que tange aos problemas dos navajos com a mineração de urânio", diz Etsitty. "Essas questões legadas do passado afetam novas gerações. Mas chega a hora em que é preciso dizer que isso tem de parar".

Em audiências perante o Congresso dos Estados Unidos, em 2007, foi formado um grupo de trabalho de agências federais que têm a missão de tratar do impacto ambiental e de saúde da mineração de urânio na reserva. Como parte desse trabalho, a Agência de Proteção Ambiental (EPA) federal e a Nação Navajo começaram a trabalhar juntas para avaliar os teores de urânio em 500 estruturas, por meio de um plano quinquenal que deve ser concluído em 2012.

Utilizando antigas listas de estruturas potencialmente contaminadas, cientistas federais e navajos se espalharam pelas áreas rurais da reserva de 69 mil km², que abarca porções dos Estados do Arizona, Novo México e Utah, a fim de medir os níveis de rádio, um produto da decomposição do urânio, capaz de causar câncer de pulmão. Das 113 estruturas avaliadas até o momento, 27 continham níveis de radiação bem superiores ao normal.

"Nessas situações, pode haver contaminação na casa ou no quintal de alguém", disse Harry Allen, diretor de resposta de emergência da EPA em San Francisco, que está ajudando a coordenar os esforços do governo. "Para nós, isso é um tanto urgente". Muitas das estruturas que demonstravam níveis elevados de radiação estavam abandonadas; algumas famílias já se haviam mudado depois de ouvir histórias de contaminação em suas casas. Mas oito das casas ainda estavam ocupadas, e funcionários da EPA e do governo navajo trabalharam para convencer os moradores de que ficar seria um risco.

"As pessoas foram informadas de que estavam vivendo em estruturas contaminadas, mas ninguém agiu a respeito", disse Will Duncan, cientista ambiental que vem servindo como principal representante da EPA na reserva. "Elas nos diziam que não acreditavam que fôssemos fazer o trabalho necessário até o fim".

Mas, com uma verba de US$ 8 milhões, a EPA demoliu as 27 estruturas contaminadas e começou a construir novas edificações que substituirão aquelas que estavam ocupadas. Tipicamente, a agência paga a uma empresa pela construção de uma casa de madeira ou de uma cabana do tradicional modelo navajo para substituir a casa demolida, a depender da preferência dos moradores. Allen disse que o custo, incluindo o da hospedagem temporária de moradores durante o processo, ficou em cerca de US$ 260 mil por moradia, e que o trabalho demorou oito meses.

A agência também oferece um crédito de US$ 50 mil às famílias que optem por não terem reconstruídas as suas antigas casas; Lillie Lane, assessora de imprensa na agência ambiental navajo e encarregada da coordenação entre o governo federal e os representantes da tribo, afirmou que o programa tinha importância tanto prática quanto simbólica, dado o retrospecto da mineração de urânio na região.

Lane descreveu a dificuldade de assistir à partida de famílias, especialmente as formadas por pessoas mais idosas, das casas em que viveram por anos. Ela contou sobre um encontro com dois antigos mineiros, que vieram a morrer antes que suas casas pudessem ser reconstruídas. "Para os navajos, uma casa é considerada sagrada", disse. "Mas caso a fundação ou as pedras não sejam seguras, precisamos fazer esse trabalho".

Algumas das famílias, afirma Lane, se queixaram de que suas crianças estavam sofrendo problemas de saúde, e inventaram a hipótese de que a culpa fosse da radiação. A EPA começou a vasculhar os registros e a entrevistar membros de famílias para determinar se as mineradoras que operaram na reserva no passado devem ser consideradas responsáveis por quaisquer danos, segundo Allen.

Em um dia recente de verão, Clara e Fred Snowman estavam contemplando orgulhosamente a sua casa nova, uma cabana de madeira de um pavimento acomodada à silenciosa sombra de Black Rock Point, a quilômetros de distância da movimentada Farmington, Novo México, onde a família passou alguns meses acomodada em um hotel. Fred disse suspeitar que os resíduos de uma mina abandonada nas cercanias tivessem contaminado sua antiga casa. A família planeja solicitar que um curandeiro tradicional dos navajos abençoe sua casa antes da mudança.

"Em nossa cultura tradicional, uma casa é como uma mãe", ele diz. "É o lugar em que você come, dorme, no qual você é cuidado. E quando você retorna da cidade, está retornando à sua mãe. A sensação é realmente agradável".

Tradução: Paulo Migliacci ME

The New York Times
 
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