Impulsos perversos chegam nos piores momentos, diz psicólogo

21 de julho de 2009 • 14h28 • atualizado às 14h38

O redemoinho de visões do sistema de esgoto do cérebro parece chegar nos piores momentos - durante uma entrevista de emprego, uma reunião com o chefe, um nervoso primeiro encontro, um importante jantar. E se eu começasse uma guerra de comida com esses canapés? Zombasse da gagueira do anfitrião? Soltasse um xingamento racista?

"Aquele pensamento único é o suficiente", escreveu Edgar Allan Poe em O Ímpeto da Perversidade, um ensaio sobre impulsos indesejáveis. "O impulso aumenta para uma vontade, a vontade vira desejo, o desejo vira um anseio incontrolável." Ele acrescentou, "Não há paixão na natureza tão diabolicamente impaciente quanto a daquele que, estremecendo na ponta de um precipício, medita assim um mergulho."

Ou medita sobre a questão: será que sou doente? Em alguns casos, a resposta pode ser sim. Mas a vasta maioria das pessoas raramente, ou nunca, age sob tais impulsos, e sua suscetibilidade a fantasias grosseiras na verdade reflete o trabalho de um cérebro normal, sensível e social, argumenta um artigo publicado na revista Science.

"Existe todo tipo de cilada na vida social, para onde quer que olhemos; não são apenas os erros que vêm à mente, mas os piores erros possíveis, e eles vêm à mente facilmente", disse o autor do artigo Daniel M. Wegner, psicólogo de Harvard. "E quando o pior vem à mente, em algumas circunstâncias, a probabilidade do mesmo acontecer aumenta."

A investigação dos impulsos perversos tem uma história rica (como não poderia ter?), que atravessa contos de Poe e Marquês de Sade, passando pelos desejos reprimidos de Freud e pela observação de Darwin de que muitas ações são realizadas "em oposição direta à nossa vontade consciente." Na última década, psicólogos sociais documentaram como esses impulsos contrários são comuns - e quando eles têm maiores chances de alterar o comportamento das pessoas.

Em um nível fundamental, funcionar socialmente significa dominar os impulsos. O cérebro adulto gasta pelo menos tanta energia em inibição quanto em ação, alguns estudos sugerem, e a saúde mental depende de estratégias permanentes para ignorar ou suprimir pensamentos profundamente perturbadores - sobre nossa inevitável morte, por exemplo.

Essas estratégias são programas psicológicos gerais, subconscientes ou semiconscientes que costumam funcionar no piloto automático.

Impulsos perversos parecem surgir quando as pessoas se focam de maneira intensa em evitar erros específicos ou tabus. A teoria é clara: para evitar deixar escapar que um colega é um imenso hipócrita, o cérebro deve primeiro imaginar exatamente isso; a própria existência desse insulto catastrófico, por sua vez, aumenta as chances de que o cérebro ponha isso para fora.

"Sabemos que o que está acessível em nossas mentes pode exercer uma influência em nosso julgamento e comportamento simplesmente por estar lá, flutuando na superfície da consciência", disse Jamie Arndt, psicólogo da Universidade do Missouri.

A evidência empírica dessa influência tem se acumulado nos últimos anos, como Wegner documenta no novo artigo. No laboratório, psicólogos tentaram fazer com que as pessoas banissem um pensamento de suas mentes - de um urso branco, por exemplo - e descobriram que o pensamento continuava retornando, cerca de uma vez a cada minuto. Da mesma forma, pessoas que tentavam não pensar em uma palavra específica deixavam a mesma escapar continuamente durante testes rápidos de associação de palavras.

Os mesmos "erros irônicos", como Wegner os chama, são igualmente fáceis de serem evocados no mundo real. Jogadores de golfe instruídos a evitar um erro específico, como lançar a bola além do alvo, cometem o mesmo com mais frequência quando estão sob pressão, segundo estudos. Jogadores de futebol instruídos a chutar um pênalti em qualquer lugar exceto um dado ponto da rede, como o canto inferior direito, olham para o ponto com mais frequência do que olham para qualquer outro.

Esforços para ser politicamente correto podem ser particularmente traiçoeiros. Em um estudo, pesquisadores das universidades Northwestern e Lehigh pediram que 73 estudantes lessem o trecho de uma história sobre um colega ficcional negro, Donald. Os estudantes viram sua foto e leram a narrativa sobre sua visita a um shopping center com um amigo.

No estacionamento lotado, Donald não quis estacionar na vaga para deficientes, embora estivesse dirigindo o carro de sua avó, que possuía um adesivo de deficientes. No entanto, ele avançou na frente de outro motorista para roubar uma vaga comum. Ele desprezou uma pessoa que coletava dinheiro para um fundo do coração, enquanto seu amigo contribuiu com uns trocados. E assim por diante. A história propositalmente retratava o protagonista de maneira ambígua.

Os pesquisadores instruíram cerca da metade dos estudantes para que tentassem suprimir estereótipos negativos de homens negros enquanto liam e, posteriormente, julgassem o caráter de Donald medindo sua honestidade, hostilidade e preguiça. Esses estudantes avaliaram Donald como sendo significativamente mais hostil ¿ mas também mais honesto ¿ do que os estudantes que não estavam tentando suprimir estereótipos.

Em resumo, a tentativa de banir pensamentos enviesados funcionou, até certo ponto. Mas o estudo também forneceu "uma forte demonstração de que a supressão de estereótipos faz com que eles fiquem hiperacessíves", os autores concluíram.

Fumantes, pessoas que bebem muito e outros usuários habituais de entorpecentes conhecem bem essa confusão: o esforço para suprimir a vontade de fumar ou beber pode trazer à mente todas as razões para quebrar o hábito; ao mesmo tempo, o desejo aparentemente fica mais forte.

O risco das pessoas terem um lapso ou "perderem a cabeça" depende em parte do nível de estresse sob o qual elas estão, Wegner argumenta. Tentar se concentrar intensamente em não olhar para a verruga saliente no rosto de um novo conhecido, enquanto enviamos uma mensagem de texto ou tentamos acompanhar uma conversa, aumenta o risco de dizermos: "Comemos verruga ¿ quer dizer, verdura. Verdura!" "Um certo alívio pode surgir depois que a pior coisa que poderia acontecer acontece, então não é mais preciso ter a preocupação de ficar se policiando", Wegner disse.

Claro que tudo isso pode ser difícil de explicar se você acabou de baixar as calças em um jantar.

Tradução: Amy Traduções

The New York Times
 
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