Pesquisa diz que agricultores africanos encontrarão safras locais mais resistentes ao calor |
Natasha Gilbert
Da Nature
A maioria dos agricultores africanos será capaz de encontrar variedades de safras locais mais resistentes ao calor em seus países ou em outras nações do continente, o que propiciará um primeiro passo fácil na adaptação à mudança do clima, de acordo com uma nova pesquisa. Um estudo publicado pela revista Global Environmental Change constatou que, até 2050, a maioria dos países africanos experimentará temperaturas jamais registradas anteriormente, em pelo menos metade de suas áreas de cultivo agrícola.
Mas três quartos dessas nações estarão enfrentando temperaturas que já ocorrem em pelo menos cinco outros países, e assim poderiam aproveitar as safras que estes cultivam. Luigi Guarino, um dos autores do estudo e coordenador de ciência do Fundo Mundial de Diversidade de Safras, uma fundação sediada em Roma que promove a segurança alimentar, diz que os resultados permitirão que pesquisadores e agricultores identifiquem quais variedades de safra têm a melhor chance de crescer e sobreviver sob as condições climáticas que prevalecerão no futuro.
O estudo também destaca as variedades de safras que são mais importantes para a estratégia de adaptação, o desenvolvimento de novas variantes e os esforços de conservação de espécies agrícolas. "O aquecimento deve causar reduções no rendimento das safras alimentadas por chuvas e reduzir a adequação de algumas safras ao ambiente africano, o que indica que simplesmente transferir o cultivo a outras áreas em que safras são plantadas representará uma estratégia limitada de adaptação. Em lugar disso, adaptar as safras em suas zonas atuais de cultivo será a tarefa crítica", afirma o estudo.
Onda de calor
Usando dados históricos sobre as mudanças do clima, os pesquisadores calcularam as temperaturas médias dos últimos 40 anos para as áreas de cultivo de milho em todos os países da África subsaariana. Eles escolheram o milho por ser "a safra mais importante", diz Marshall Burke, pesquisador sobre segurança alimentar na Universidade Stanford, em Palo Alto, Califórnia, e outro dos autores do estudo.
Eles previram a alta na temperatura utilizando 18 modelos de mudança climática e depois adicionaram essas projeções às temperaturas médias históricas a fim de determinar as temperaturas prováveis que existirão nas regiões de cultivo de milho por volta de 2050. Ao comparar as temperaturas médias históricas nas áreas de cultivo de milho dos países em questão às temperaturas previstas para 2050, eles puderam descobrir onde aconteceriam sobreposições, tanto entre países quanto entre regiões de um mesmo país.
O gráfico resultante demonstra que as temperaturas que Ruanda experimentará em 2050 se sobrepõe às encontradas hoje na Etiópia. Portanto, Ruanda poderia se basear na experiência etíope para identificar variedades de safra capazes de resistir às temperaturas que o país enfrentará no futuro. Mas o estudo constatou que em seis países, entre os quais Senegal, Chade e Mali, o clima será mais quente do que qualquer coisa que os agricultores tenham experimentado no passado em qualquer porção da África.
Para esses países, existe um universo muito menor de recursos genéticos estrangeiros no qual buscar recursos genéticos para safras com traços mais tolerantes ao calor, afirma o estudo. Os pesquisadores sugerem que uma possível consequência seria a impossibilidade de cultivar milho, um produto que apresenta maior sensibilidade ao calor do que outras safras. Em lugar disso, eles podem ter de adotar o sorgo ou o milhete, cereais mais tolerantes ao calor.
Fracassos dos bancos de genes
O estudo em seguida examinou a questão da conservação de variedades de milho em bancos de genes. Os pesquisadores desejavam determinar, especialmente, se as variedades que hoje crescem sob temperaturas mais elevadas - aquelas que serão importantes para os agricultores à medida que o clima esquentar - estão bem preservadas.
Eles constataram que os países com algumas dessas importantes variedades apresentam a conservação mais ineficiente de recursos genéticos de plantas, por exemplo o Sudão e a Eritreia. "As coleções de bancos de genes de muitas áreas que devem apresentar a maior diversidade são ou incompletas ou inexistentes", diz Guarino. Os colegas dele acrescentam que "esses países representam prioridades especialmente elevadas para a coleta e conservação urgente de recursos genéticos relacionados ao milho".
Gerald Nelson, economista agrícola no Instituto Internacional de Pesquisa de Política Alimentar, uma organização independente de pesquisa sediada em Washington, diz que o estudo demonstra a existência de "algumas maneiras bem fáceis de iniciar o processo de adaptação à mudança climática". Mas ele diz que a troca de informações sobre como as diferentes variedades de safras respondem à temperatura e conservar e trocar material genético será vital para tirar vantagem da capacidade existente de enfrentar a mudança climática.
Emile Frison, diretor geral da Biodiversity International, uma organização sem fins lucrativos sediada em Roma que pesquisa sobre biodiversidade, diz que o estudo demonstra claramente a interdependência entre os países no que tange a recursos genéticos de plantas. Mas se declara "desapontado" por o estudo não destacar a necessidade de os agricultores aumentarem a diversidade de safras que cultivam como forma de se adaptarem à mudança genética.
"Uma importante estratégia que os agricultores usarão no futuro é a diversidade", ele diz. "Por isso, não estamos falando apenas de ter uma ou duas safras de alto rendimento, mas muitas safras diferentes. Uma variabilidade maior significa maior resistência".
Tradução: Paulo Migliacci ME
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