Parentesco de fóssil com homem pode ser confirmado em meses

02 de junho de 2009 • 17h02 • atualizado às 17h40
O fóssil Ida tem 47 milhões de anos e está inacreditavelmente completo - o seu pêlo está delineado e o conteúdo de seu estômago na última refeição de ... Foto: Nature
O fóssil Ida tem 47 milhões de anos e está inacreditavelmente completo - o seu pêlo está delineado e o conteúdo de seu estômago na última refeição de que desfrutou são perceptíveis no esqueleto intacto
02 de junho de 2009
Foto: Nature

Lucas Laursen


Jorn Hurum acompanhou o primata fossilizado que apelidou de "Ida" em uma jornada mundial rumo à fama e à notoriedade, nas últimas semanas. O fóssil de 47 milhões de ano é famoso por estar inacreditavelmente completo - o seu pêlo está delineado e o conteúdo de seu estômago na última refeição de que desfrutou são perceptíveis no esqueleto intacto.

Mas Hurum foi criticado por promover o fóssil e suas possíveis conexões a ancestrais da humanidade por meio de uma campanha de mídia em múltiplas plataformas que acompanhou o lançamento de um estudo científico que descreve a genealogia do fóssil de maneira muito mais modesta.

O pesquisador e Ida passaram por Londres e Hurum concedeu uma entrevista sobre as consequências de toda essa publicidade e sobre os próximos passos científicos do trabalho.

O livro, o programa de televisão e os press releases fazem alegações que não estão necessariamente confirmadas no artigo com revisão científica que foi publicado sobre a descoberta. Como o senhor responde aos críticos que alegam que sua abordagem distorce o processo científico?
Não creio que uma discussão dos haplorrinos (társios, símios, macacos e humanos) e dos estrepsirrinos (a subordem dos primatas que compreende os lêmures e lórises) seria fácil na ciência popular. É preciso simplificar e empregar terminologia compreensível. É claro que, com isso, se perde um pouco em termos científicos, mas acredito que a mensagem seja muito, muito semelhante, entre o que fazemos para o público e cientificamente.

Existem muitas teorias concorrentes sobre como os primeiros primatas se enquadram. O que seria necessário para convencer outros paleontologistas de que Ida está mais próximo dos haplorrinos do que de seus ancestrais estrepsirrinos?
A reconstrução tridimensional do pé. Isso tornará tudo muito, muito evidente, quando for realizado. A questão estará resolvida pela metade do ano, com novos modelos tridimensionais de toda a estrutura. A tomografia computadorizada tridimensional até agora só foi realizada no crânio.

Outra coisa que já está sendo feita é uma tomografia da Placa B. Produziremos um modelo tridimensional dos ossos dos ouvidos, que também são bastante diferentes entre os estreosirrinos e os haplorrinos. Essas duas coisas estarão realizadas, com sorte, em prazo de um ano, e com isso creio que teremos definido boa parte da discussão com relação a essas duas estruturas.

Quando pesquisadores de fora de seu grupo poderão examinar o fóssil em pessoa?
Já estamos discutindo propostas para dois estudos por novos pesquisadores. O caminho para obter acesso a bons espécimes, na paleontologia é em geral fazer com contato com os pesquisadores que trabalham com eles e sugerir uma cooperação.

Ao mesmo tempo, outra coisa que fizemos foi colocar reproduções do esqueleto no Museu Americano de História Natural, em Nova York, e no Museu de História Natural de Londres; também haverá uma cópia no Instituto de Pesquisa e Museu da Natureza Senckenberg, em Frankfurt. Com isso, será possível estudar a morfologia externa do espécime, com base nos modelos, dentro de poucos meses.

Antes da publicação, não vamos divulgar todos os resultados das tomografias computadorizadas, evidentemente. Isso servirá como banco de dados para nossas pesquisas futuras.

O senhor sente que existe alguma espécie de responsabilidade ética em permitir que outros cientistas vejam seus resultados antes de divulgá-los, de modo a que eles possam preparar suas respostas para a mídia?
Não. Não. O que fizemos foi, na verdade, contar nossa história também em um formato popular, ao mesmo tempo em que com um relato revisado cientificamente, e isso não é ilegal.

Se houver uma alegação filogenética e ela vier a ser corrigida em futuras publicações, isso não alimentaria o criacionismo?
Não podemos esperar anos antes de publicar só porque poderia haver uma correção. Estamos falando de ciência. Uma filogenia de ordem mais elevada é algo extremamente volátil. Muda com os diferentes autores. Os cladogramas referentes a isso mudarão muito nos próximos 10 a 15 anos, tenho certeza. Mas nunca será difícil dizer que este é um espécime importante.

O senhor ofereceu o relatório a outras publicações antes que a PLoS ONE o aceitasse?
Não. Phil Gingerich teve uma experiência muito boa com a PLoS ONE em seu trabalho com o Maiacetus, publicado em fevereiro, e por isso sugeriu a publicação.

Qual é importância de unir todos esses elementos de mídia?
As coisas funcionam melhor se você o fizer. O History Channel queria veicular o programa no feriado do Memorial Day (que aconteceu nos Estados Unidos segunda-feira).

Não sabíamos que o estudo chegaria ao mesmo tempo até a passada. Nossa idéia original era dizer que o estudo científico estava "no prelo". A PLoS ONE declarou que tinha condições de publicar ao mesmo tempo -a parte técnica do processo. Alguém mencionou que a revisão científica do trabalho foi apressada. Não é verdade. Mas a publicação foi um pouco acelerada, para que saísse no mesmo dia. Por fim, as datas coincidiram, mas foi apenas sorte.

Tradução: Paulo Migliacci ME

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