Pesquisador explica por que epidemias fascinam as pessoas

29 de maio de 2009 • 13h30 • atualizado às 13h51

A essa altura, você provavelmente está farto da gripe suína, gripe aviária, gripe de toda sorte. Desligou seu televisor, jogou no lixo o primeiro caderno do jornal e não quer ouvir mais nada sobre a gripe ou qualquer das demais infecções ameaçadoras que ocupam as notícias do planeta.

Lamento dizer que você não vai conseguir. Haverá indubitavelmente mais discussões, muito mais, e é provável que você termine exposto a elas. Uma fascinação insaciável com respeito às doenças contagiosas faz parte de nossa estrutura básica, como dois novos livros revelam.

Philip Alcabes, epidemiologista e professor do Hunter College, em Nova York, escreveu 'Dread', uma análise sóbria dos motivos para que isso aconteça. O que distingue as infecções epidêmicas de todas as demais doenças, aquelas que não conquistam manchetes mórbidas e não inspiraram número nem semelhante de trabalhos de ficção e documentários, se comparados aos do histórico das epidemias?

A resposta é bastante lógica. As epidemias nos atingem no ponto em que altruísmo e autointeresse convergem, aquela junção precisa e desconfortável na qual os infortúnios de nossos semelhantes nos motivam o suficiente para que precisemos tanto examiná-los quanto nos distanciarmos deles (e, em civilizações mais evoluídas, resolvê-los antes que cheguem até nós).

A história das infecções epidêmicas na verdade envolve menos doença e tratamento do que as diversas maneiras que os seres humanos encontraram para criar uma espessa muralha entre doentes e sãos, 'nós' e 'eles'. Apenas recentemente a radical noção de atravessar essa muralha e proteger os sãos tratando os doentes conquistou apoio considerável.

Alcabes nos conduz em uma viagem metódica por esse território, da lepra da era bíblica à peste bubônica da Europa medieval e renascentista, passando pelo cólera e tuberculose do século XIX e chegando à aids no século XX. Política, religião e preocupações econômicas deram forma à resposta pública a cada uma dessas crises, com as débeis intervenções da medicina em geral operando com imenso atraso.

A linguagem mesma, argumenta Alcabes, pode transformar os fatos. Quando uma doença é classificada como 'epidemia', por exemplo, ela imediatamente ganha status de notícia, com começo e fim, um certo tom moral e um fluxo narrativo que as doenças comuns não têm.

E com isso, ele pergunta, em tom de provocação, será que a obesidade representa a mais recente epidemia da era moderna? Ou a palavra está sendo astutamente manipulada pelas autoridades de saúde pública para inspirar uma reação pública específica 'criar um 'nós' e um 'eles' ('eles' têm mais hábitos e fizeram más escolhas), e dando a entender que o problema um dia se encerrará?

O assunto é fascinante, ou deveria ser, mas infelizmente Alcabes escreve no tom habitual dos cientistas sociais, e conseguiu remover quase todo o interesse humano de sua história. Os fatos estão lá, mas o colorido desapareceu.

Se você procura colorido, considere 'The Lassa Ward', do Dr. Ross Donaldson, que passou dois meses como estudante de medicina em Serra Leoa, em 2003. Malária, tuberculose, febre amarela e Aids grassavam, mas ainda assim Donaldson decidiu, talvez com a irresponsabilidade da juventude, que passaria sua temporada no país em companhia dos pacientes de febre de lassa. A doença transmitida por roedores é uma das devastadoras febres virais hemorrágicas da África; como o ebola, ela pode reduzir um corpo humano a um cadáver inchado e manchado em espaço de apenas alguns dias. Trata-se de uma doença aterrorizante ¿as secreções dos pacientes infectados a difundem facilmente-, mas também é curável, e nos melhores casos os pacientes se recuperam e retornam às suas casas. Donaldson tinha apenas algumas semanas de experiência com a doença quando, para seu horror, foi encarregado da enfermaria em que os pacientes da doença ficavam isolados. Donaldson, que estava no terceiro ano da faculdade de medicina quando isso aconteceu, era a pessoa com mais conhecimento médico que restava no local. Com pacientes gravemente doentes e pouca disponibilidade de exames ou remédios, ele recorreu aos instrumentos tradicionais da medicina: os conselhos de suas enfermeiras experientes e seu bom senso. Ao final de duas semanas, relata, ¿eu mal reconhecia a pessoa em que me tornei¿. Ele havia se transformado em especialista em lassa, um veterano formado pelo velho método de educação por imersão que aterroriza os estudantes de medicina onde quer que estejam.

A avaliação dele sobre uma infecção epidêmica é franca, e ele fala por exemplo da bizarra teimosia que toma as comunidades afetadas e impede as mudanças que poderiam salvar vidas. (No caso da febre de lassa, uma medida preventiva básica é que as pessoas deixem de comer ratos, mas a carne de rato era considerada boa demais para que essa norma fosse acatada com rigor.)

Donaldson demonstra como a vida pode ser estranhamente ordeira, no coração mais profundo de uma crise de epidemia. As pessoas comem suas refeições, os remédios são aplicados, alguns pacientes morrem mas outros se recuperam, e uma menina que jazia inchada e moribunda no hospital consegue se recuperar para voltar a brincar entre os ratos que tomam o pátio de sua casa. Ainda que ela tenha adquirido imunidade contra a doença, seus colegas e familiares continuam expostos. O livro é um retrato do contágio sob lente de aumento, e todos os abstrusos detalhes de políticas, medidas preventivas e questões financeiras estão expostos em suas consequências práticas, para quem souber olhar.

Tradução: Paulo Migliacci ME

The New York Times
 
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