Menina brasileira faz tratamento com células-tronco na China

12 de maio de 2009 • 08h51 • atualizado às 10h37
A família foi à China por não encontrar tratamento semelhante no Brasil Foto: BBC Brasil
A família foi à China por não encontrar tratamento semelhante no Brasil
12 de maio de 2009
Foto: BBC Brasil

Acometida de paralisia cerebral desde o nascimento, a pernambucana Clara Pereira veio à China em busca de tratamento com células-tronco. Possivelmente a primeira criança brasileira com essa condição a se tratar na China, Clara ficou um mês na cidade de Cantão e retorna nesta terça-feira ao Brasil.

A menina de um ano e nove meses de idade recebeu uma série de seis injeções com células-tronco e já apresenta melhoras, enquanto espera ver resultados ainda mais significativos no próximo meio ano.

A família de Clara optou por vir à China após não encontrar terapia semelhante no Brasil. "No Brasil os médicos acham que tudo é muito novo e preferem esperar. Tudo bem esperar enquanto não é o filho deles, mas eu tenho que fazer alguma coisa por Clarinha", disse à BBC Brasil Carlos Pereira, pai da menina. A paralisia cerebral de Clara foi causada pela falta de oxigenação das células cerebrais durante o nascimento.

Embora tenha uma inteligência normal, ela perdeu boa parte do seus neurônios responsáveis pela coordenação motora, por isso não caminha ou fala. No caso de Clara, os médicos esperam que as células-tronco criem novos neurônios na área afetada do cérebro, para que a menina possa desenvolver habilidades motoras.

Tratamento
As células-tronco são células capazes de se multiplicar e se diferenciar em vários tecidos do corpo humano: músculos, ossos, pele e, inclusive, neurônios. O tratamento consiste de injeções de células-tronco extraídas do cordão umbilical de bebês nascidos na China. A empresa de biotecnologia que oferece o tratamento tem capital estatal e utiliza material retirado de bebês que nasceram em hospitais da rede pública.

"No Brasil os cordões vão para o lixo. É um desperdício", lamenta Carlos Pereira, pai de Clara. Os custos da viagem e internação de um mês, que somaram US$40 mil (cerca de R$ 83 mil), foram pagos com dinheiro levantado através de uma campanha de doações organizada pela família de Carla no Recife.

Referência
A China vem se tornando referência em estudos com células-tronco porque as pesquisas são permitidas e estimuladas pelo governo, em um nítido contraste com o clima de debate e indecisão que ainda envolve o tópico em outros países. Há pouco mais de um mês, o ministro de Saúde, Chen Zhu, inaugurou na província de Jiangsu a construção do maior laboratório dedicado a pesquisas de células-tronco no mundo.

O centro será localizado na área de Taizhou e terá mais de 20 mil metros quadrados de instalações. "Acelerar o desenvolvimento das pesquisas é importante para melhorar o padrão de vida e saúde das pessoas" disse na ocasião o ministro Chen, defendendo a posição pragmática do governo chinês.

Em outros países, a pesquisa com células-tronco polariza opiniões, em particular por causa de questões éticas que envolvem a utilização de células embrionárias. No Brasil as pesquisas com células-tronco embrionárias só foram legalizadas em maio de 2008, quando o Supremo Tribunal Federal aprovou a continuidade das pesquisas - que já tinham sido previstos na Lei de Biossegurança aprovada em 2005, mas que tiveram sua constitucionalidade questionada.

Nos Estados Unidos há clínicas particulares que oferecem tratamentos e pesquisam células-tronco, mas até o começo deste ano, o governo não dava apoio a essas iniciativas. Em janeiro, o presidente Barack Obama anunciou o fim de restrições para pesquisas com células-tronco feitas com verbas federais, revertendo uma decisão tomada pelo seu antecessor George W. Bush.

Polêmica
O ponto polêmico é a utilização de células-tronco retiradas de embriões fecundados em laboratório. Muitos vêem os embriões como um ser humano e o uso deles para estudo significaria um atentado à vida. "No caso da Clara nós só optamos por fazer o tratamento depois que ficou comprovado que a empresa só trabalha com células do cordão umbilical de nenês recém-nascidos", explicou Pereira.

As células-tronco retiradas do cordão umbilical são do tipo pluripotentes, ou seja, tem capacidade de produzir novas células em quase qualquer tecido do corpo humano onde forem empregadas, mas não se reproduzem ou se multiplicam. Já células-tronco retiradas no estágio inicial da formação de um feto podem ser totipotentes, podem produzir qualquer tipo de tecido e se multiplicar criando vida independentemente.

Pesquisadores defendem o uso das células-tronco embrionárias ao invés das umbilicais, pois as primeiras podem ser produzido em laboratório, enquanto que as outras depende de doações.

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