Cientistas estudam maneiras artificiais de focar a atenção

08 de maio de 2009 • 14h11 • atualizado às 14h11
Após identificarem o mecanismo de sincronização do cérebro, cientistas começaram a trabalhar em terapias de reforço da atenção Foto: The New York Times
Após identificarem o mecanismo de sincronização do cérebro, cientistas começaram a trabalhar em terapias de reforço da atenção
08 de maio de 2009
Foto: The New York Times

John Tierney


Imagine que você tenha deixado de lado o seu laptop e desligado o celular. Você está fora do alcance do YouTube, Facebook, e-mail, mensagens de texto, em uma zona inacessível ao Twitter, e aproveita um percurso de táxi para ler "Rapt", um guia de Winifred Gallagher quanto à ciência da atenção.

O tema do livro, que a autora escolheu depois de ter sido informada de que sofria de uma variedade particularmente cruel de câncer, foi tomado de empréstimo ao psicólogo William James: "Minha experiência é aquilo de que concordo participar". Há quem leve uma vida miserável ao se preocupar obsessivamente com problemas. Há quem perca o juízo no esforço por manter múltiplas tarefas em dia e responder prontamente a cada mensagem de e-mail.

A alternativa é reconhecer que o cérebro tem uma capacidade finita de processamento de informações, acentuar o positivo e obter as satisfações propiciadas pelo que Gallagher define como "vida concentrada". A receita pode parecer muito atraente, mas, naquele táxi em que você está lendo sobre como prestar atenção, é possível que você perceba que não está prestando atenção à leitura.

O televisor do táxi, que não há como desligar, mostra um comercial em que um sujeito trabalha em um laptop, dentro de um táxi - e enquanto ele tagarelar sobre a maneira pela qual uma nova placa wireless aumentou sua produtividade enquanto ele atravessa a cidade no táxi dele, você não consegue fazer nada de produtivo no seu táxi.

Por que você não consegue se concentrar em nada que não seu desejo de que ele cale a boca? E, mesmo que você fuja do táxi, será possível encontrar algum refúgio em plena Era da Distração?

Fiz essas perguntas a Gallagher e a um dos especialistas que ela cita em seu livro, Robert Desimone, neurocientista do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) que tem realizado experiências semelhantes àquela pela qual passei no táxi. Ele vem analisando as ondas cerebrais de macacos e seres humanos enquanto estes contemplam telas de vídeo, em busca de certos padrões.

Quando algo de brilhante ou novo surge, tende a vencer automaticamente a disputa pela atenção do cérebro, e esse impulso involuntário surgido de baixo para cima só pode ser reprimido por ação voluntária, de cima para baixo, um processo que Desimone define como "concorrência tendenciosa".

Ele e seus colegas constataram que os neurônios do córtex pré-frontal - o centro de planejamento do cérebro - começam a oscilar em uníssono e a enviar sinais diretamente ao córtex visual para que este preste atenção a outra coisa.

Essas oscilações, conhecidas como ondas gama, são criadas por neurônios acionados e desativados de forma simultânea - um feito de coordenação neural que equivale a conseguir que pessoas desconhecidas acomodadas em uma mesma sessão de um estádio de futebol comecem a aplaudir ao mesmo tempo, o que enviaria um sinal às pessoas do lado oposto do estádio para que façam o mesmo. No entanto, esses sinais podem enfrentar dificuldades de transmissão em um ambiente ruidoso.

"É necessário usar boa parte de seu poder cerebral pré-frontal para ignorar sinais fortes como os de um comercial de TV", disse Desimone, diretor do Instituto McGovern de Pesquisa Cerebral, no MIT. "Se você estiver tentando ler um livro ao mesmo tempo, talvez não disponha de recursos restantes para prestar atenção às palavras".

Agora que os neurocientistas identificaram o mecanismo de sincronização do cérebro, começaram a trabalhar em terapias de reforço da atenção. Na mais recente edição da revista Nature, pesquisadores do MIT, e das universidades da Pensilvânia e Stanford informam ter induzido ondas gama diretamente em ratos de laboratório, por meio de pulsos de luz laser direcionados via minúsculos cabos de fibra óptica a neurônios criados por engenharia genética. Na mais recente edição da revista Neuron, Desimone e seus colegas reportaram progressos no uso dessa técnica "optogênica" em macacos.

O pesquisador afirma que um dia poderá ser possível melhorar a atenção por meio de pulsos de luz que sincronizarão os neurônios de forma direta, uma terapia que poderia ajudar pacientes esquizofrênicos e de deficiência de atenção (e com menos efeitos colaterais do que os medicamentos).

Caso o método possa ser utilizado com o uso de uma luz de comprimento de onda baixo que penetre o crânio, talvez seja possível implementá-lo por meio de um pequeno aparelho operado por controle remoto, de formato semelhante ao de um aparelho auditivo.

No futuro mais próximo, os neurocientistas também podem ajudar na concentração ao observar a atividade cerebral de um paciente e oferecer orientação com base nos resultados, enquanto o paciente pratica exercícios de concentração.

Os pesquisadores já observaram níveis mais elevados de sincronia nos cérebros das pessoas que meditam regularmente.

Gallagher diz que "o modo multitarefas é um mito. Ninguém consegue fazer duas coisas ao mesmo tempo. O mecanismo da atenção é seletivo - ou isso ou aquilo".

"As pessoas não compreendem que a atenção, como o dinheiro, é um recurso finito", ela diz. "Você quer desperdiçar seu capital cognitivo em uso infinito do Twitter, da Web ou da televisão? Todo mundo faz escolhas constantemente, e essas escolhas determinam nossas experiências, como disse William James".

Tradução: Paulo Migliacci ME

The New York Times
 
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