Drauzio Varella busca cura de doenças na Amazônia

27 de abril de 2009 • 17h59 • atualizado às 18h59

O médico Drauzio Varella, o botânico Mateus Paciência e um ex-operador de motosserra que virou guia florestal, Osmar Ferreira Barbosa, desbravam a Amazônia numa missão de estudos em busca de plantas que possam trazer novas substâncias para a fabricação de remédios para o tratamento de doenças. As informações são do jornal britânico Guardian.

A bordo de uma embarcação que abre caminho pelos rios da Amazônia adentro, os três pretendem descobrir na maior floresta tropical do planeta um novo tratamento para o câncer, relata reportagem do veículo de imprensa inglês publicada nesta segunda-feira.

"Desde uma ameba até um elefante, todos os seres vivos são uma fábrica de substâncias. E, com as plantas, não é diferente", entusiasma-se Mateus, como o barco cada vez mais perto da margem onde ficará a base do grupo, uma pequena cabana de madeira às margens do rio Cuieiras, a cerca de quatro horas de viagem de barco de Manaus, a capital do Amazonas. "Uma planta ou uma árvore são uma pequena fábrica de medicamentos. Tudo o que precisamos fazer é tentar encontrar a aplicação para as substâncias que têm", complementa o botânico.

O barco em que o trio viaja é um laboratório flutuante pertencente à Universidade Paulista (UNIP), e está à frente de uma missão para pesquisar os medicamentos do futuro, que integra uma iniciativa para salvar a floresta tropical brasileira fornecendo alternativas econômicas para impedir a destruição da mata.

O projeto é uma criação do médico e escritor paulista, que tem dedicado grande parte de sua carreira profissional aos pacientes com câncer, entre eles, seu irmão mais novo, Fernando, que era fumante e morreu de câncer de pulmão em 1991, aos 45 anos.

Com mais de 40 anos de profissão na Medicina, Drauzio conduz expedições mensais até o rio Cuieiras em busca de medicamentos que ele acredita que possam mudar o futuro da sua profissão e, eventualmente, trazer uma nova esperança para vítimas de câncer de todo o mundo.

"Quando era criança, não nem sabia que a Amazônia existia", disse ele, durante sua última missão com o grupo no rio Cuieiras. "Eu ouvi as histórias das crianças, sobre os índios com duas penas em seus cabelos. Mas você nem sequer falava sobre a Amazônia na época. Era uma coisa distante", relata.

Isso mudou, no entanto, em outubro de 1992, durante uma viagem para a Amazônia com Robert Gallo, um biomédico e pesquisador americano, citado como um dos descobridores do vírus da aids. Numa tarde, enquanto visitavam os rios em torno de Manaus, Gallo perguntou se alguém estava à procura de novos medicamentos nas plantas e árvores da Amazônia.

"Quem está estudando este assunto? Quem está pesquisando estas espécies?", perguntou o estrangeiro a Drauzio, na época. "Eu nem sabia o que dizer a ele. Essa idéia ficou em minha cabeça", recorda o oncologista. Em 1995, então, a idéia se tornou uma realidade com a primeira viagem dele para a Amazônia. Desde então, a equipe de Varella recolheu mais de 2 mil extratos de plantas e árvores da floresta tropical.

Este ano, uma das novidades da viagem é a parceria com o Hospital Sírio-Libanês, de São Paulo, um dos principais institutos de pesquisa do Brasil. A equipe irá explorar uma nova área, que vai do Rio Negro até a fronteira com a Colômbia e, dentro de dois anos, pretende criar uma terceira base.

Depois de serem coletadas da floresta tropical, as amostras das plantas são secas e transformadas em um pó antes de seguirem para São Paulo, onde são feitos os ensaios. Mais de 70 extratos já apresentaram impacto sobre células tumorais, enquanto 50 delas têm mostrado resultados também contra infecções bacterianas.

"A vantagem desses produtos naturais é a sua imprevisibilidade", disse Drauzio. "Embora testes com técnicas convencionais feitos em laboratórios sejam fundamentais, os produtos naturais podem abrir caminhos que nem se imaginavam", afirmou, citando o Taxol, uma droga que se originou a partir da casca de uma árvore e que agora é amplamente utilizada para tratar o câncer de mama e do ovário. "Você abre a porta para o desconhecido", comemora o médico.

Mateus, o botânico que participa da missão, comenta que a investigação médica também poderia deter a chave para abrandar a destruição da floresta. Ambientalistas afirmam que quase 20% da Amazônia brasileira desapareceu, principalmente desde a década de 1960.

"Você não precisa botar uma única árvore abaixo para obter esses recursos. Você corta um pedaço da planta e, no próximo ano, ele terá crescido volta. Eu não vejo nada mais ambientalmente correto do que um projeto como este", considera Mateus.

O terceiro integrante da viagem é o ex-extrator de madeira, que agora guia o grupo pela floresta. Nascido na cidade de Canutama, na Amazônia, Barbosa costumava trabalhar para os madeireiros antes de mudar de profissão e auxiliar os estudiosos a desbravar a densa floresta.

Atualmente, o projeto centra-se em dois tipos de floresta ambiente - as submersas ou "igarapós" e as da terra firme, ou terra seca. Durante cada visita da equipe, são recolhidas amostras de famílias de plantas que têm mostrado resultados positivos nas análises feitas em São Paulo, além de novas espécies.

"Não sabemos ainda se as plantas que vamos recolher desta vez têm essas qualidades. Mas este grupo de plantas tem demonstrado resultados bastante positivos", explicou Mateus, complementando que há poucas dúvidas de que a floresta amazônica esconde uma abundância médica.

Mas, de acordo com Varella, a burocracia do governo em permitir a exploração de pesquisa medicinais, motivada por um profundo medo de bio-pirataria, é um dos entraves, sobretudo para cientistas estrangeiros ou empresas farmacêuticas. Com autorização do Ibama para a realização das pesquisas, Drauzio reconhece que "se é difícil para nós, então imagino para as pessoas do Exterior. Elas não têm essa chance", comenta.

"A Amazônia tem algo como 20% de toda a biodiversidade do mundo. Só em termos de plantas com flores, há cerca de 22 ou 23 mil. É impossível imaginar que nenhuma delas tenha uma substância ativa para curar algumas doenças. A floresta tropical é um mar infinito de possibilidades", conclui ele.

Redação Terra
 
Enviar para amigos
Fechar por:
Enviar para amigos
Fechar por:

Imprimir

Fechar
Mais vistos

Notícias

  1. Carregando...
leia mais notícias »