"Vacina" contra câncer de próstata é testada com sucesso

16 de abril de 2009 • 13h14 • atualizado às 13h23

Andrew Pollack


Um medicamento contra o câncer de próstata desenvolvido pela Dendreon, uma empresa de biotecnologia de Chicago, prolongou a vida dos homens que o usaram em um teste clínico decisivo, anunciou a empresa na manhã de terça-feira.

Os resultados muito aguardados podem abrir caminho para que o remédio, sob a marca Provenge, seja a primeira dita "vacina" terapêutica contra o câncer a obter licença nos Estados Unidos, depois de sucessivos fracassos em testes de medicamentos desse tipo.

Vacinas terapêuticas como o Provenge não têm por objetivo prevenir a doença, como o fazem as vacinas usadas na infância. Operam, em lugar disso, como forma de treinar o sistema imunológico do corpo a atacar o câncer, depois que o paciente adoece.

"O teste parece ter provado o conceito de que as vacinas contra o câncer podem funcionar e de fato funcionam", disse Jeffrey Schlom, especialista em vacinas no Instituto Nacional do Câncer.

Mas o sucesso do teste pode conduzir à retomada das queixas sobre a Food and Drug Administration (FDA, agência federal norte-americana que regulamenta alimentos e remédios), que dois anos atrás se recusou a aprovar o Provenge apesar de um de seus painéis de assessoria ter endossado o medicamento.

A FDA informou que desejava mais provas de que o remédio funcionava, e que esperaria pelos resultados de um teste em curso. Os resultados desse teste foram anunciados na terça-feira.

A decisão da FDA dois anos atrás despertou sérias críticas entre pacientes de câncer de próstata e investidores da Dendreon, que afirmaram que a agência não estava sendo razoável e negava aos pacientes um tratamento que poderia funcionar. As tensões se tornaram tão graves que houve um momento no qual dois especialistas em câncer de próstata, que haviam recomendado ao governo não aprovar o remédio, compareceram a uma conferência acompanhados por guarda-costas, alegando que haviam sido ameaçados.

"Por causa dessa demora, perdemos alguns bons homens", disse na terça-feira Ted Girgus, de Bellingham, Washington, que tem câncer de próstata em estágio avançado. Ele classificou a decisão da FDA como "um soco no estômago". Girgus, 65, é acionista da Dendreon, e disse que pacientes como ele estavam "contemplando o abismo". "Sabemos quais são as nossas probabilidades", disse. "Mas queremos ao menos uma chance".

Judy Leon, porta-voz da FDA, afirmou que a agência compreendia e lamentava pelos pacientes, mas que era necessário que os medicamentos cumprissem seus padrões de segurança e eficácia.

A Dendreon não revelou os resultados específicos de seu teste, anunciando que seriam apresentados em uma conferência de urologia em 28 de abril. Isso deixou alguns analistas incertos quanto ao desempenho efetivamente apresentado pelo medicamento.

Mas Mitchell Gold, o presidente-executivo do grupo, informou a analistas em uma conferência que o resultado do teste era "decisivo" e atingia as metas da empresa, e que a FDA havia concordado em que os resultados eram compatíveis com os verificados em teste anteriores com o Provenge.

Em entrevista Gold declarou que o Provenge tinha de reduzir o risco de morte em 22%, comparado a um placebo, para atender aos requisitos de significância estatística da FDA.

As ações da FDA dispararam com a notícia. Elas subiram em mais de 130% no dia, e fecharam em US$ 16,99.

O teste envolvia 512 pacientes cujo câncer se expandiu para além da glândula da próstata e que não mais se beneficiavam de terapias cujo objetivo era privar os tumores de testosterona.

Gold afirmou que cerca de 100 mil homens recebem um diagnóstico desse tipo a cada ano. O único tratamento aprovado para eles agora é o Taxotere, um medicamento de quimioterapia da Sanofi-Aventis que prolonga o tempo médio de sobrevivência em três meses, de acordo com os testes.

Mark Monane, analista da Needham & Co., diz que as vendas do Provenge pode atingir entre US$ 500 milhões e US$ 1 bilhão anuais.

Vacinas contra o câncer do tipo que o Provenge representa são diferentes das vacinas convencionais, porque não visam a prevenir a doença e sim a estimular as defesas do corpo a atacá-la depois que ocorre. A vacina contra o câncer de colo de útero que já está em uso, Gardasil, é uma vacina preventiva mais tradicional, que funciona porque o câncer de colo de útero é causado por um vírus.

Os proponentes dizem que as vacinas contra o câncer baseadas em imunoterapia podem ser forma mais precisa de atacar o câncer do que o bombardeio de tumores com venenos, como se faz em um tratamento quimioterápico.

Em um teste anterior, os homens que receberam o Provenge viveram em média 25,9 meses, ante 21,4 meses para aqueles que receberam o placebo. Ao final de três anos, 34% dos homens que usaram o Provenge continuavam vivos, ante apenas 11% daqueles que usaram o placebo.

Com base nesses resultados, um painel de assessoria da FDA, em reunião realizada em março de 2007, votou por 13 a quatro que havia "provas substanciais" de que o medicamento funcionava, e por 17 a zero que ele era seguro.

Ainda assim, alguns dos integrantes do comitê afirmaram que as provas eram um tanto fracas porque o teste havia envolvido apenas 127 homens e seu objetivo era medir algo diferente - não se o Provenge prolongava a vida, mas se ele retardava o agravamento do câncer. E o remédio não atingiu esse segundo objetivo de maneira estatisticamente significativa. Dois meses mais tarde, a FDA se recusou a aprovar o Provenge, alegando que mais dados eram necessários.

The New York Times
 
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