Novo método reduz necessidade de experiências com animais

07 de abril de 2009 • 09h32 • atualizado às 10h14
Um estudo constatou que determinados comportamentos de ratos de laboratório eram fáceis de reproduzir  Foto: Nature
Um estudo constatou que determinados comportamentos de ratos de laboratório eram fáceis de reproduzir
07 de abril de 2009
Foto: Nature

Lucas Laursen


Cientistas e pesquisadores podem reduzir o uso de animais em suas experiências caso alterem a maneira pela qual conduzem as análises de seus resultados, de acordo com um estudo realizado por cientistas localizados na Alemanha e nos Estados Unidos.

Em uma experiência típica envolvendo animais de laboratório, os pesquisadores em geral tentam padronizar fatores tais como os antecedentes genéticos dos animais e as condições prevalecentes nos laboratórios envolvidos, a fim de tornar o mais fácil possível para novos grupos de pesquisadores a reprodução futura dos resultados inicialmente obtidos.

Recentemente, no entanto, uma equipe comandada por Hanno Wurbel, da Universidade Justus-Liebig, na Alemanha, decidiu que procederia a uma nova análise de um estudo sobre o comportamento de ratos de laboratório, levando em conta as variações genéticas e ambientais que tendem a ser harmonizadas, e o novo sistema proposto proporcionou um número de retornos espúrios, ou "falsos positivos", inferior ao determinado pela análise inicial.

Em artigo publicado pela revista Nature Methods, a equipe de Wurbel argumentou que procedimentos iniciais de seleção química ou por meio de medicamentos que incluam essas variações naturais entre diferentes animais poderiam reduzir o número de dispendiosas verificações adicionais requeridas, e tornar mais fáceis de reproduzir os resultados obtidos em um determinado projeto de pesquisa.

"Em experiências agrícolas (e também em experiências humanas), é reconhecido de maneira absoluta que existem algumas variações as quais não existe maneira de controlar", diz Joseph Garner, da Universidade Purdue, em West Lafayette, Indiana, um dos co-autores do estudo. "É apenas quanto a animais de laboratório que adotamos essa idéia draconiana de que somos capazes de controlar todas as variações, e de que isso é necessário".

Nova análise
Para determinar se uma forma diferenciada de organizar a experiência poderia funcionar melhor, Garner, na companhia de Wurbel e de Helene Richter, orientanda desde último, conduziram uma nova análise sobre um estudo envolvendo comportamento de ratos de laboratório em múltiplos laboratórios, publicado recentemente.

Eles reportaram que uma análise dos dados sobre os ratos de laboratório sem levar em conta as diferentes variações ambientais criava cerca de 10 vezes mais resultados espúrios, em comparação direta com os estudos de ratos de laboratórios que adotavam uma abordagem experimental que eles classificam como "heterogêneas".

Garner afirma que variações incontroláveis entre as condições de diferentes laboratórios podem estar influenciando adversamente os resultados. Ele atribui os problemas à interferências ambientais como a localização da jaula dos ratos dentro do laboratório, que pode introduzir luzes, sons ou adores adicionais, capazes de suscitar ansiedade nos animais e assim causar alterações de comportamento.

"É preciso que existe um diabinho qualquer, um diabinho maquiavélico, que está causando os falsos positivos registrados nessas experiências", diz Garner.

No processo de desenvolvimento de medicamentos, os falsos positivos, ou seja, medicamentos que se provam promissoras em uma avaliação inicial, precisam ser reproduzidos em experiências independentes, utilizando outros laboratórios e animais diferentes. Wurbel diz que uma redução no número de falsos positivos no processo de seleção inicial, por meio da comparação de linhagens de ratos de laboratório lado ao lado em um mesmo local, poderia ajudar os cientistas a evitar muitos dos testes secundários que agora se veem forçados a conduzir.

"Talvez essa idéia funcione bem, mas eu acredito que eles primeiro precisariam demonstrar que funciona experimentalmente", disse John Crabbe, da Universidade de Saúde e Ciência do Oregon, em Portland.

De volta à bancada de trabalho
Em 1999, Crabbe publicou artigo sobre um estudo no qual havia sido constatado que determinados comportamentos de ratos de laboratório, especialmente aqueles que se desenvolvem por influência genética, eram fáceis de reproduzir por animais em diferentes laboratórios, mas que outros, especialmente aqueles que envolvessem respostas emocionais, eram muito mais difíceis de replicar.

Crabbe argumenta que esses problemas de reprodutibilidade de resultados também aconteçam em outros campos de estudo, entre os quais a bioquímica e a física, e que, em termos práticos, qualquer experiência cientificamente instigante "terminará por ser repetida de qualquer maneira, e propiciará a persistência das descobertas mais robustas".

Em artigo que acompanha a publicação do estudo na Nature Methods, o neurocientista e geneticista Richard Paylor, do Baylor College of Medicine, em Houston, também diz que uma nova experiência concebida com o objetivo de testar a idéia de Wurbel parece ser "o próximo passo evidente".

Wurbel diz que ele e sua equipe já estão trabalhando para desenvolver uma experiência como essa. "Não é prático conceber cada experiência como um estudo envolvendo múltiplos laboratórios", ele diz. "O que precisamos decidir, a seguir, é quanto a um ou dois fatores que possamos variar dentro do laboratório".

Tradução: Paulo Migliacci ME
Nature
 
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