Pesquisadores apontam riscos da fertilização In Vitro

19 de fevereiro de 2009 • 08h39 • atualizado às 08h39
Os pesquisadores sempre questionaram se poderiam ocorrer transformações sutis em um embrião cultivado por vários dias em uma placa de petri, como são ... Foto: The New York Times
Os pesquisadores sempre questionaram se poderiam ocorrer transformações sutis em um embrião cultivado por vários dias em uma placa de petri, como são os bebês de proveta
19 de fevereiro de 2009
Foto: The New York Times

Nos últimos 30 anos, a fertilização in vitro tem sido um processo tranqüilo e seguro. Milhões de crianças saudáveis nasceram e se desenvolveram normalmente. E o primeiro bebê in vitro, Louise Brown, nascida na Inglaterra em 25 de julho de 1978, tem hoje seu próprio filho de dois anos, Cameron, concebido sem a técnica.

Mas os pesquisadores sempre questionaram se poderiam ocorrer transformações sutis em um embrião cultivado por vários dias em uma placa de petri, como são os bebês de proveta - e, caso ocorressem, se isso teria qualquer conseqüência.

Hoje, com novos estudos epidemiológicos e novas técnicas que permitem investigar os genes de células embrionárias, algumas respostas preliminares começam a surgir.

As questões não têm relação com as chances de uma mulher ter gêmeos, trigêmeos ou, como acabou de acontecer na Califórnia, óctuplos. Ao invés disso, elas envolvem a mudança ou não de expressões gênicas ou de padrões de desenvolvimento, nem sempre óbvia no nascimento.

Por exemplo, alguns estudos indicam que talvez haja alguns padrões de expressão gênica anormais associados à fertilização in vitro e um possível aumento nos raros, mas desastrosos, problemas genéticos que parecem estar diretamente ligados a esses padrões incomuns. Parece também que há um aumento do risco de nascimento prematuro e de bebês abaixo do peso para sua idade gestacional.

Em novembro, os Centros para Controle e Prevenção de Doenças dos EUA publicaram um artigo afirmando que bebês concebidos por fertilização in vitro, ou com uma técnica na qual o esperma é injetado diretamente nos óvulos, têm risco um pouco mais elevado de desenvolver defeitos de nascença, como falha entre duas cavidades cardíacas, lábio leporino, superdesenvolvimento do esôfago e má formação do reto.

A pesquisa estudou 9.584 bebês com defeitos de nascença e 4.792 sem defeitos. Entre as mães dos bebês sem defeitos, 1,1% usaram métodos de fertilização in vitro ou relacionados, em comparação a 2,4% de mães de bebês com defeitos.

As descobertas são consideradas preliminares, e os pesquisadores acreditam que a técnica in vitro não envolve riscos excessivos. Existe uma chance de 3% de que qualquer bebê tenha um defeito de nascença.

Mas a principal questão - qual a chance de um bebê de proveta ter um defeito de nascença? - ainda não foi completamente respondida. Isso exigiria um grande e rigoroso estudo de acompanhamento desses bebês. O estudo dos centros americanos fornece riscos comparativos, mas não absolutos.

Apesar dos riscos parecerem pequenos, pesquisadores que estudam a biologia molecular de embriões desenvolvidos em placas de petri procuram entender melhor o processo para poder aprimorar o procedimento e informar melhor os casais a respeito.

"Existe um consenso crescente na comunidade médica de que há riscos," disse Richard M. Schultz, reitor associado do departamento de Ciências Naturais da Universidade da Pensilvânia. "É nossa incumbência descobrir quais os riscos e o que podemos fazer para minimizá-los."

Embora as perguntas sejam conhecidas, o debate se manteve restrito principalmente a cientistas, disse a doutora Elizabeth Ginsburg, presidente da Sociedade para Tecnologia de Reprodução Assistida.

Ginsburg, que é a diretora médica de fertilização in vitro do Hospital Bringham and Women's, em Boston, conta que os formulários de consentimento de seu centro mencionam que poderia haver um aumento do risco de desenvolver problemas genéticos raros. Mas, segundo ela, nenhum de seus pacientes mudou de idéia.

Richard G. Rawlins, que dirige os laboratórios de fertilização in vitro e reprodução assistida dos Centros Rush para Cuidados Reprodutivos Avançados, em Chicago, disse que quando conversa com pacientes, nunca ouve perguntas sobre o crescimento dos embriões no laboratório e suas possíveis conseqüências.

"Nunca tive um paciente me perguntando algo" a respeito, disse, acrescentando, "quanto a isso, nem mesmo médicos perguntaram."

O doutor Andrew Feinberg, professor de Medicina e Genética da Johns Hopkins, começou a se preocupar com a falta de informações sobre a técnica há oito anos, quando ele e seu colega, o doutor Michael R. DeBaun, estudavam mudanças na expressão gênica que podem causar câncer.

Seu foco era crianças com síndrome de Beckwith-Wiedemann, caracterizada por um risco de 15% de câncer infantil de rim, fígado ou músculo; crescimento exagerado das células renais e outros tecidos; e outras anomalias possíveis, entre elas macroglossia, defeitos da parede abdominal e baixos níveis de açúcar no sangue do bebê.

A síndrome, descobriram Fendberg e DeBaun, é geralmente causada por mudanças na expressão de um grupo de genes, e tais mudanças também são encontradas em cânceres colorretais e pulmonares. Crianças com essas alterações gênicas tinham um risco de 50% de desenvolver câncer na infância. O risco normal é de menos de 1 em 10 mil.

Os dois pesquisadores acompanhavam e estudavam crianças com o distúrbio em sua clínica. Foi então que várias mães que passaram por fertilização in vitro lhe perguntaram: seria possível que os tratamentos de fertilidade haviam causado a síndrome de Beckwith-Wiedemann?

Isso levou Feinberg e DeBaun a investigar a forma de concepção das crianças com a síndrome. Sua conclusão, e a de pelo menos meia dúzia de outros grandes estudos, foi de que o número de pais que usaram a técnica de fertilização in vitro e outros métodos relacionados era 10 vezes maior do que seria esperado.

Suspeita-se que outro distúrbio causado por expressão gênica anormal, a síndrome de Angelman, também tenha relação com a fertilização in vitro. Ele envolve severo retardo mental, defeitos motores, incapacidade de fala e um comportamento alegre. Os distúrbios são raros.

Apenas 1 em cada 13 mil crianças tem a síndrome de Beckwith-Wiedemann e 1 em cada 10 mil tem a síndrome de Angelman. Por que, perguntam pesquisadores, o cultivo de embriões em placas de petri provocaria mudanças na expressão gênica? E se houver mudanças, seria possível alterar as condições laboratoriais para evitar que elas ocorram?

Um lugar a ser investigado é o meio de cultura em que o embrião se desenvolve. Desde o início das fertilizações in vitro, os cientistas sabiam que a composição desse meio afetava a velocidade de desenvolvimento dos embriões, disse Rawlins. E sabiam que os embriões, tanto animais quanto humanos, cresciam muito mais lentamente no laboratório do que no corpo.

Algo que o meio de cultura fornece são produtos químicos que podem ser usados para acrescentar o grupo metil ao gene. A presença, ou ausência, do grupo metil pode controlar a ativação ou desativação dos genes, um processo conhecido como epigenética.

As mudanças epigenéticas não apenas causam distúrbios raros como a síndrome de Beckwith-Wiedemann, mas também são associadas a nascimentos de bebês abaixo do peso e aumentos do risco de desenvolver uma variedade de cânceres. Isso não significa que cultivar embriões em placas de petri causa esses efeitos, mas levanta questões sobre o que se sabe a respeito do procedimento.

O doutor George Daley, pesquisador da Escola de Medicina de Harvard que estuda células-tronco embrionárias, disse que tais questões se estendiam também a essas células, extraídas de embriões humanos e cultivadas em placas de petri. Ele já viu mudanças epigenéticas em células-tronco, mas não tem certeza do que elas significam.

"Minha maior preocupação é que não temos informações o bastante, ou as ferramentas para medir a estabilidade epigenética," disse. "Pode ser que não seja relevante à segurança das células, mas suspeito que seja."

Mas descobrir o que no meio de cultura poderia afetar adversamente o crescimento e desenvolvimento do embrião pode não ser fácil, disse Feinberg.

Ginsburg disse que a Sociedade para Tecnologia de Reprodução Assistida considerou pedir aos centros de fertilização que reportassem os meios que usam para cultivar seus embriões. Mas, segundo ela, "programas usam múltiplos meios, e é muito comum que troquem de meio."

Se embriões de camundongos podem ser um reflexo para o que acontece com os humanos, então não há dúvidas de que a expressão gênica pode ser alterada ao se cultivar embriões em laboratório, afirma Schultz.

Ele e vários outros passaram anos tentando descobrir se ocorriam mudanças gênicas em embriões de camundongos desenvolvidos em laboratório - ocorrem - e se poderiam observar alguma mudança comportamental nos animais. Observaram.

Por exemplo, os pesquisadores submeteram os animais a testes que exigiam que lembrassem a localização de uma plataforma escondida sob água opaca. O rato de proveta não teve problemas em aprender onde estava a plataforma, mas teve mais chances de esquecer o que havia aprendido, descobriu Schultz.

Em outro teste, que media a resposta de medo quando os camundongos eram postos em campo aberto, os gerados por fertilização in vitro não tiveram a precaução e o medo dos camundongos normais.

"Ocorrem mudanças," disse Schultz sobre os resultados. "E a única diferença é que eles foram cultivados" em placas de petri quando embriões.

Além das mudanças comportamentais, houve mudanças na metilação dos genes - mudanças epigenéticas, relata Schultz. "Suspeito que a manipulação e cultura de embriões sejam um fator contributivo," acrescenta.

Mas acompanhar bebês após fertilizações in vitro ou injeções intracitoplasmáticas de esperma não é fácil. E se surgem problemas devido a mudanças epigenéticas, eles podem não aparecer até a idade adulta, meia-idade ou velhice.

"Quando você envia questionários, a tendência é de que o casal que já teve problemas ou que acha que tem um problema responda o questionário," disse Zev Rosenwaks, diretor do Centro de Medicina Reprodutiva e Infertilidade do Centro Weill Cornell de Nova York. Os que não respondem tendem a ser pais cujos filhos parecem bem, o que distorce os dados.

O grupo de Rosenwaks financiou a maioria de seus estudos. Eles concluem, disse, que "mesmo se houve um leve aumento nas anormalidades, a taxa não foi muito maior do que da população geral." Outros, como o doutor Alistair Sutcliffe, da Universidade College London, disse que o campo está clamando por mais informações sobre os riscos.

"Falo sobre o assunto no mundo todo," acrescentou. "Minhas palestras ao longo do tempo se basearam na literatura conhecida. E gradualmente fui me tornando um pouco menos otimista sobre o que se sabe sobre a saúde das crianças" nascidas após fertilização in vitro e procedimentos relacionados.

"Obviamente, precisamos de mais informações," disse Sutcliffe. "O estudo perfeito ainda não foi feito."

Tradução: Amy Traduções

The New York Times
 
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