Roni Caryn Rabin
Estados Unidos
A presença excessiva de açúcar no sangue pode prejudicar a memória porque afeta o giro dentado, a área cerebral, localizada no hipocampo, que ajuda a formar memórias, afirma um novo estudo.
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Os pesquisadores alegam que esse efeito pode ser visto mesmo quando os níveis de açúcar, ou glicose, no sangue são apenas moderadamente elevados, uma constatação que pode ajudar a explicar o declínio nas faculdades cognitivas que é normalmente associado ao avanço da idade. O mecanismo corporal de regulação da glicose perde a eficiência com a passagem dos anos.
"Caso concluamos que esse fenômeno é a base do declínio cognitivo normal associado à idade, então o problema afeta a todos nós", disse o diretor científico do estudo, o Dr. Scott Small, professor associado de neurologia no Centro Médico da Universidade Colúmbia.
A capacidade de regular os fluxos de glicose começa a se deteriorar por volta da terceira ou quarta década de vida, ele disse, acrescentando que, já que a regulação de glicose tende a melhorar nas pessoas que se dedicam a atividades físicas, "temos uma recomendação comportamental: exercícios físicos".
No estudo, os pesquisadores utilizaram um sistema de ressonância magnética funcional de alta resolução para mapear regiões do cérebro de 240 participantes idosos. O estudo encontrou uma correlação entre níveis elevados de glicose no sangue e volume reduzido de sangue no cérebro, ou um fluxo sanguíneo atenuado no giro dentado, o que indica redução do nível de atividade metabólica e uma queda das funções naquela porção do cérebro.
Ao manipular os níveis de glicose no sangue de ratos de laboratório e macacos, disseram os pesquisadores, eles estavam tentando confirmar uma relação de causa e efeito entre os picos de presença de glicose e a redução no volume sanguíneo, segundo Small.
O estudo, financiado em parte pelo Instituto Nacional do Envelhecimento dos Estados Unidos, foi publicado na edição de dezembro da revista Annals of Neurology.
Bruce McEwen, que dirige o laboratório de neuroendocrinologia da Universidade Rockefeller, em Nova York, e não participou da pesquisa, diz que as constatações do estudo são "convincentes", e que oferecem implicações importantes não só para os idosos mas para o crescente número de crianças e adolescentes que sofrem de excesso de peso e correm o risco de desenvolver diabetes do tipo 2.
"Quando pensamos sobre o diabetes, pensamos nas doenças cardíacas e nas conseqüências para o resto do corpo, mas usualmente não pensamos sobre o cérebro", ele disse. "Trata-se de algo sobre o que deveríamos realmente nos preocupar".
"Precisamos pensar sobre os riscos mais amplos, não só em termos de doenças cardiovasculares e distúrbios metabólicos mas também quanto à capacidade cognitiva e a capacidade dessas pessoas para acompanharem as demandas educacionais em uma sociedade complexa e de rápida evolução. Essa é a parte que mais me assusta".
Estudos observacionais anteriores haviam demonstrado que a atividade física reduz o risco de declínio cognitivo, e estudos demonstraram também que o diabetes aumenta o risco de demência. Estudos anteriores também encontraram conexão entre o diabetes tipo 2 e disfunções no giro dentado.
Sheri Colberg-Ochs, professora associada de ciências do exercício na Universidade Old Dominion, em Norfolk, Virgínia, disse que suas pesquisas haviam indicado que exercícios regulares, ainda que leves, poderiam compensar os efeitos potencialmente negativos do diabetes tipo 2 sobre as funções cognitivas. Não se sabe bem qual é o mecanismo envolvido, ela afirma, mas ele pode ter algo a ver com o efeito da insulina.
"O novo estudo é interessante porque permite maior compreensão de que região do hipocampo deve ser mais atingida pelo diabetes mal controlado", ela afirmou.
Mas Small, o diretor científico do estudo, disse que as elevações do nível de glicose no sangue que seu trabalho identificou eram mais sutis e não deveriam ser consideradas como um estado de doença.
"Eles são parte do processo normal de envelhecimento, mais ou menos como a pele enrugada", ele disse. "Isso acontece a todos nós, inexoravelmente, e se agrava progressivamente à medida que a vida avança".
Tradução: Paulo Migliacci
The New York Times