Nasa discute futuro das viagens espaciais

02 de janeiro de 2009 • 09h37 • atualizado em 16 de janeiro de 2009 às 17h49
O Ares I é parte de um novo sistema de espaçonaves em projeto para a Nasa com o objetivo de substituir os envelhecidos ônibus espaciais
O Ares I é parte de um novo sistema de espaçonaves em projeto para a Nasa com o objetivo de substituir os envelhecidos ônibus espaciais
02 de janeiro de 2009
The New York Times

John Schwartz

São Paulo


A Administração Nacional da Aeronáutica e Espaço (Nasa) deu ao foguete o nome de Ares (o deus da guerra) I - e seu desenvolvimento vem sendo uma batalha desde o início.

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O Ares I é parte de um novo sistema de espaçonaves em projeto para a Nasa com o objetivo de substituir os envelhecidos ônibus espaciais. O Ares I e sua cápsula Orion, acompanhados por um foguete de carga pesada conhecido como Ares V, terão por objetivo viajar à Lua e ainda mais longe.

Problemas técnicos vêm prejudicando o projeto do Ares I, o primeiro dos novos foguetes nos planos de construção, e isso vem causando atrasos e alta de custos. E na era da comunicação permanente, mensagens instantâneas e blogs, debates internos que no passado seriam realizados por trás de portas fechadas logo chegam ao conhecimento do público.

Alguns críticos dizem que existem problemas sérios no projeto, e que isso inviabiliza o Ares I, enquanto outros observadores argumentam que complicações técnicas surgem no desenvolvimento de qualquer espaçonave, especialmente em um projeto desse porte.

As questões atraíram a atenção de integrantes da equipe de transição presidencial encarregados de lidar com a Nasa, e o programa espacial pode ser transformado depois que Barack Obama assumir.

Durante sua campanha, Obama expressou apoio à Nasa e criticou o intervalo de cinco anos entre a aposentadoria do ônibus espacial, marcada para 2010, e a estréia planejada dos novos componentes, sob um programa ao qual a Nasa deu o nome global de Constellation, em 2015. (Durante o intervalo nos vôos norte-americanos - como resultado de um plano do governo Bush para economizar dinheiro durante o processo de desenvolvimento das novas naves -, os Estados Unidos dependerão da Rússia e de suas espaçonaves Soyuz para viagens à Estação Espacial Internacional.)

Mas a Nasa, que tem um orçamento anual de US$ 17 bilhões e provavelmente enfrentaria despesas maiores caso o intervalo seja reduzido e o novo programa se mantenha no prazo, estará competindo por verbas no novo governo, que enfrenta uma série de crises urgentes e dispendiosas.

A equipe de transição de Obama, em reuniões e pedidos de informação a funcionários da Nasa, fornecedores e outras pessoas envolvidas no processo, perguntou se um aumento das verbas poderia reduzir o prazo de cinco anos sem vôos norte-americanos, por meio de uma aceleração no desenvolvimento das novas naves. Os assessores do presidente eleito também perguntaram quais seriam os custos e possíveis conseqüências de manter em vôo os ônibus espaciais para mais uma ou duas missões cada, ou até mesmo mantê-los voando até que as novas espaçonaves estejam prontas.

A equipe também quer saber se o programa de desenvolvimento realmente enfrenta problemas e, caso isso proceda, se não seria possível modificar o Ares I ou substitui-lo pelos foguetes que a força aérea utiliza para lançar satélites, ou pelo foguete europeu Ariane 5.

Embora alguns dos envolvidos no desenvolvimento dos foguetes tenham entendido as perguntas como sutis insinuações, um porta-voz da equipe de transição, Nick Shapiro, declarou que "o papel da equipe de revisão de agências não é fazer recomendações quanto às questões em estudo. O objetivo é levantar fatos e estudar todas as opções, que serão consideradas pelas pessoas indicadas para postos executivos".

Mesmo assim, cresceu a tensão entre o futuro governo e a administração da Nasa, cujo administrador, Michael Griffin, está batalhando para manter o programa no rumo. Caso Obama não o reconduza ao posto, seu mandato se encerra em 20 de janeiro.

John Logsdon, historiador da exploração espacial na Smithsonian Institution, disse Griffin estava lutando por um programa no qual "apostou toda a sua reputação". Por outro lado, afirmou o historiador, um novo presidente precisa indagar e se informar. "Qualquer governo que faça uma escolha que durará por uma geração precisa fazer essa escolha por sua própria conta", ele disse.

Uma nova direção

Em um imenso edifício no Centro Espacial Kennedy, alguns meses atrás, funcionários da Nasa exibiram orgulhosamente um protótipo do escudo de calor da nova cápsula Orion, um disco arredondado de cerca de 4,5 metros de diâmetro ¿surpreendentemente grande, mas prosaico, ele servia como um poderoso símbolo para o pessoal do centro especial: a primeira peça de um equipamento para teste havia saído dos computadores e adquirido forma concreta.

No jargão do setor, "começamos a moldar o metal".

O presidente Bush anunciou a nova direção do programa espacial em janeiro de 2004, depois que a quase perda do ônibus espacial Columbia sublinhou os riscos que esse modelo de espaçonave continua a enfrentar ¿especialmente o potencial de que o veículo seja atingido por detritos durante o lançamento. Em 2005, a Nasa revelou os primeiros detalhes do programa Constellation, com a cápsula Orion montada no topo do foguete Ares I, fora do caminho da detonação de lançamento. O novo modelo poderá transportar seis astronautas, ante os três das espaçonaves Apollo.

Os foguetes Ares são muito diferentes ¿tanto do ônibus espacial como entre si.

O Ares I usa como primeiro estágio um propulsor de combustível sólido alongado, parecido com o empregado pelo ônibus espacial. O segundo estágio será um foguete alimentado por oxigênio e hidrogênio líquidos, como os motores principais do ônibus espacial. No topo ficará a cápsula Orion.

Já o Ares V é um foguete muito mais musculoso, projetado para transportar equipamento à Lua ou mais longe. O primeiro estágio tem dois propulsores de combustível sólido e um conjunto de seis motores-foguete acionados por combustível líquido.

O projeto encontrou dificuldades técnicas. O Orion é muito mais pesado que a Apollo, e questões de peso exigiram alterações de projeto na cápsula e no foguete, o que complica ainda mais o lado técnico. Os engenheiros também tiveram de desenvolver maneiras de atenuar vibrações potencialmente perigosas ao longo do eixo do foguete, à medida que o combustível líquido dos propulsores seja consumido.

Alguns participantes do programa de desenvolvimento se queixam de que ele vem sendo conduzido com uma inflexibilidade autoritária que sufoca dissidências e inovações. Jeffrey Finckenor, um engenheiro que deixou seu posto na Nasa este ano, enviou uma carta de despedida aos colegas na qual expressava sua frustração quanto ao programa: "Nos níveis mais elevados da agência, parece haver uma crença de que é possível ditar o curso à realidade", ele escreveu. "Essa atitude vem acompanhada por uma recusa a qualquer informação que contrarie a postura oficial". A carta foi postada em um site independente que acompanha o trabalho da Nasa.

Finckenor não quis fazer outros comentários.

Avaliações otimistas

Funcionários da Nasa afirmam que o programa Constellation na verdade está avançando muito bem. Em entrevista, em novembro, Griffin declarou que "não consigo imaginar que alguém pense que vai desenvolver um novo sistema de transporte espacial sem encontrar desafios".

E os percalços que a Nasa vem enfrentando, ele afirma "são extremamente rotineiros".

Douglas Cooke, um dos dirigentes do programa Constellation na Nasa, disse a jornalistas este mês que o problema de peso e as questões de vibração estavam perto de resolvidos. E Neil Otte, o engenheiro chefe de lançamento dos foguetes do programa Constellation, disse que resolver problemas difíceis era exatamente o trabalho que cabe a um engenheiro. Quando eles encontram um desafio especialmente difícil, afirmou, a atitude é a de "opa, está começando a ficar divertido agora, e estamos mesmo fazendo jus aos nossos salários".

Mesmo assim, o coro de pessimismo que surgiu na Internet e mesmo nas fileiras da Nasa costuma ter alternativas prontas. Há certo ímpeto quanto a propostas que envolveriam usar foguetes Atlas e Delta projetados para lançamento de satélites, que os proponentes alegam seriam facilmente conversíveis para transportar a cápsula Orion.

Griffin propôs usar os foguetes lançadores de satélite em missões tripuladas, no passado, o que envolveria um processo de melhoria da segurança e confiabilidade desses aparelhos. Este ano, ele disse a legisladores franceses que transformar o foguete francês Ariane 5, hoje usado em missões de carga para a Estação Espacial Internacional, em veículo para conduzir missões tripuladas exigiria "um pequeno passo apenas". Mas ele se opõe ao plano de usar foguetes militares, e disse que a mudança geraria ainda mais atrasos e aumentos de custos sem reforçar a segurança.

Otte disse que utilizar foguetes militares seria muito mais complexo do que simplesmente acrescentar uma cápsula a equipamento já existente. Os foguetes desenvolvidos para lançar satélites teriam de ser extensamente modificados antes que pudessem ser usados para enviar seres humanos ao espaço.

Um segundo grupo de engenheiros favorece os planos para um sistema que sucederia o Constellation, chamado Direct 2.0, baseado em larga medida em planos que a Nasa abandonou. Ross Tierney, porta-voz do grupo que defende o Direct 2.0, diz que "o ideal seria realizar uma revisão independente que envolva todas as propostas".

"Estamos confiantes quanto aos nossos números, e sabemos que sairemos por cima", acrescentou.

O conceito ganhou alguns outros seguidores, mas em abril, Richard Gilbrech, na época administrador associado da Nasa, depôs diante da Câmara alegando que "não podemos justificar, com base nas leis da Física, o desempenho" alegado pelos proponentes do Direct 2.0.

Continuar voando ou não

Quando Obama decidir o que fará quanto ao espaço, também pode decidir reduzir o intervalo sem vôos mantendo os ônibus espaciais em operação para além da data de aposentadoria defendida pelo governo Bush, em 2010.

A pressão por manter os ônibus espaciais em operação vem crescendo. Em julho, o ex-senador John Glenn declarou em depoimento diante de um comitê da Câmara que ele defendia que os ônibus espaciais continuassem em uso até que as naves do programa Constellation possam operar. "Jamais pensei que veria o dia em que o país mais rico, mais poderoso e mais avançado em termos de exploração espacial comprando passagens da Rússia para levar pessoal à nossa estação espacial", declarou Glenn, o primeiro norte-americano a orbitar a Terra.

Griffin considera que essas propostas ameaçam torpedear o novo programa espacial, porque consumiriam bilhões de dólares reservados ao desenvolvimento do Constellation.

Em novembro, Griffin defendeu em entrevista o programa que ele criou: "A política espacial civil dos Estados Unidos tomou um caminho errado depois do governo Nixon", ele disse. Hoje, com o país falando em retornar à Lua, explorar asteróides próximos da Terra e até viajar a Marte, "é nessa direção que devemos investir".

Edward Crowley, professor de aeronáutica e astronáutica no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), diz que gostaria de ver um painel de "pessoas isentas e sábias" encarregado de estudar os planos da Nasa, no novo governo. "Não sei, francamente, qual seria a resposta certa", ele diz, "mas sei que a questão é muito mais complicada do que os blogs e a mídia a vem retratando".

E depois dessa revisão, propõe Crawley, o programa deveria seguir adiante. Um orçamento anual de US$ 17 bilhões é pequeno em comparação com outros gastos nacionais. E as recompensas, ele aponta, podem ser grandes. Se o novo presidente deseja estimular a economia com "empregos de alta tecnologia estáveis e recompensadores", diz Crawley, "o programa espacial seria um bom investimento".

Tradução: Paulo Migliacci

The New York Times
 
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