Estudo: 50% da força da mão depende do dedo mínimo

19 de dezembro de 2008 • 10h21 • atualizado às 10h21

Dana Scarton

Estados Unidos


O dedinho, o humilde quinto dedo de cada mão, por muito tempo foi considerado como um acessório decorativo, algo a ser estendido languidamente enquanto os demais dedos seguram uma xícara de chá. Assim, o que uma pessoa perderia caso não o tivesse?.

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"Mais ou menos 50% da força da mão, sem exagero", disse Laurie Rogers, terapeuta ocupacional e especialista em terapias da mão no Hospital Nacional de Reabilitação dos Estados Unidos, em Washington. Ela explicou que, enquanto o indicador e o dedo médio funcionam, em companhia do dedão, para agarrar e segurar -puxar zíperes, abotoar botões-, o dedinho e o anular trabalham juntos para fornecer força.

Aprendi isso por conta própria em abril, quando tropecei durante uma corrida e meus 60 quilos de peso despencaram sobre o osso da base do meu dedinho, que tem a espessura de um lápis. Ele se quebrou na junta metacarpo-falange, ou MCP, o ponto em que o dedo se une à mão.

Cinco meses mais tarde, o dedinho ainda não se dobrava sem ajuda. Eu não conseguia fechar o punho, usar uma raquete de tênis de maneira precisa ou segurar objetos como o cabo de um aspirador de pó. Porque a lesão aconteceu em minha mão dominante, escrever também se tornou tarefa complicada.

Minha situação nada tinha de única. Fraturas do dedinho e de seu metacarpo - o osso que se estende da base do dedo até a mão- ocorrem com freqüência cerca de duas vezes maior do que fraturas de qualquer outra combinação de dedo e metacarpo, entre as quais a do dedão.

Existem poucos dados confiáveis sobre fraturas de dedos nos Estados Unidos; as estatísticas apresentadas provêm de um estudo publicado em 2003 pelo Journal of Hand Surgery (British and European Volume), que analisa um ano de dados obtidos em um pronto-socorro de Amsterdã, Holanda.

A alta incidência de fraturas pode ser atribuída ao status do dedinho como "dedo limítrofe", uma condição que ele compartilha com o indicador -os dois servem como uma espécie de proteção ao anular e ao dedo médio, diz o Dr. Steven Glickel, do Centro C. V. Starr de Cirurgias de Mão, no Centro Hospitalar St. Luke¿s Roosevelt, em Nova York.

E enquanto o indicador "conta com alguma proteção por estar em posição adjacente ao dedão", prosseguiu Glickel, também presidente da Sociedade Americana da Cirurgia de Mão, "o dedinho fica virtualmente desprotegido."

Os ossos do dedinho - as falanges distal, média e próxima - em geral se quebram como resultado de quedas ou quando o dedinho é atingido por alguma coisa, como uma bola de basquete.

Ainda que incidentes como esses possam resultar em inchaço e rigidez, muita gente inicialmente não percebe que o dedo está quebrado e por isso não procura tratamento.

"As pessoas imaginam que, se não estiverem sentindo dor e conseguirem mover o dedo, não há fratura", disse o Dr. Scott Edwards, diretor de cirurgias de mão e cotovelo do Hospital Universitário de Georgetown. "Mas isso simplesmente não é verdade."

Os reparos de um dedinho quebrado podem envolver pinos, parafusos e placas. Oito dias depois de minha queda, dois pinos foram inseridos na junta MCP fraturada.

O procedimentos, executado por Edwards em seu consultório, restabeleceu a conexão de minha falange próxima e reforçou o nó central do dedinho, em posição adjacente à junta interfalangiana próxima. Tive de ficar engessada do cotovelo às pontas dos dedos.

Passados 12 dias, tirei o gesso e comecei minha reabilitação. Eu jamais havia ouvido falar de terapia de dedos, mas ela existe é muito dolorosa.

"Os terapeutas de mão servem para nos fazer parecer bonzinhos", disse o Dr. Leon Benson, diretor de cirurgia de mão da Evanston Northwestern Healthcare, no Illinois.

"Eu fico no consultório, sorridente e otimista, e digo ao paciente que em seguida ele vai conversar com Mary Beth, a terapeuta ¿e quem machuca os pacientes é ela."

Os tratamentos incluem aplicações de calor e ultrassom, estímulo neuromuscular, talas e exercícios específicos para os dedos. Começar a reabilitação rápido - dias ou semanas depois da cirurgia - é muito importante, porque de outra modo o tecido cicatrizado se expande e a rigidez pode se agravar.

Eu comecei a terapia rapidamente, mas inicialmente o terapeuta que me tratou era delicado demais com meu dedo. Quando por fim encontrei um substituto mais vigoroso, meu dedinho estava rígido e a cicatrização parecia bem avançada.

O tecido de cicatrização, um tecido de conexão fibroso que se forma em uma ferida, é mais proeminente e problemático nos dedos porque não existem músculos neles e os tendões se afixam diretamente aos ossos. A acumulação de tecido de cicatrização no dedinho é como "injetar cola em um relógio", disse Benson. "Trava tudo".

O inchaço também pode servir para retardar a recuperação. "É como tentar dobrar no meio uma grande salsicha", disse Edwards.

Uma imagem de meu dedinho por ressonância magnética, obtida depois da remoção dos pinos, mostrava que o tecido de cicatrização havia imobilizado os tendões flexores, que permitem que os dedos se dobrem em forma de punho.

Além de eu não ter recebido terapia efetiva em tempo, a genética pode ter contribuído, porque algumas pessoas são mais propensas que outras à formação rápida de tecido de cicatrização. De qualquer jeito, meu dedinho estava praticamente imobilizado.

Em outubro, eu me submeti a um processo conhecido como tenólise do tendão flexor, durante o qual Edwards trabalhou meticulosamente para remover o tecido de cicatrização e liberar cada um dos tendões.

Um dia depois da cirurgia, comecei minha terapia com Rogers. No começo de dezembro, concluí meu tratamento: meu dedinho agora se dobra com facilidade e a força de minha mão parece ter voltado. E assim o humilde dedinho conquistou meu respeito.

Tradução: Paulo Migliacci

The New York Times
 
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