O mais poderoso dos nossos sentidos pode ser enganado

13 de dezembro de 2008 • 12h51 • atualizado às 12h51
Cientistas descobriram que o dedo humano é tão sensível que pode detectar uma irregularidade na superfície de apenas 1 mícron de altura
Cientistas descobriram que o dedo humano é tão sensível que pode detectar uma irregularidade na superfície de apenas 1 mícron de altura
12 de dezembro de 2008
The New York Times

Imagine que você está em um quarto escuro, deslizando seus dedos por uma superfície lisa em busca de um único ponto, do tamanho deste ponto final. Qual tamanho você acha que o ponto precisa ter para poder senti-lo? Alguns milímetros acima da superfície? Centésimos de milímetros? Bem, siga a tendência da economia e continue caindo. Cientistas descobriram que o dedo humano é tão sensível que pode detectar uma irregularidade na superfície de apenas 1 mícron de altura.

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Nosso ponto precisa, portanto, estar a 1/1000 milímetro acima da superfície - o diâmetro de uma célula bacteriana - e nossos dedos meticulosos o encontrarão. O olho humano, ao contrário, não consegue captar nada muito menor que 100 mícrons. Sem surpresas, portanto, que confiamos no toque ao invés da visão quando nos confrontamos com um novo rolo de papel higiênico e sua aspereza invisível.

Biologicamente, cronologicamente, alegoricamente e ilusoriamente, o tato é a mãe de todos os sistemas sensoriais. É um sentido antigo na evolução: mesmo os mais simples organismos unicelulares podem sentir quando alguma coisa esbarra neles, se aproximando ou se afastando em resposta.

É o primeiro sentido a se desenvolver num bebê em gestação e o último a desaparecer no fim da vida. Pacientes em profundo coma vegetativo que parecem isolados do mundo reagem quando sua pele é tocada por uma enfermeira.

Como uma mãe, o tato está sempre presente em algum lugar do pano de fundo perceptivo, normalmente ignorado, mas indispensável para nosso senso de segurança e sanidade. "O tato é tão importante para o que somos, para o sentimento de quem somos, que quase não conseguimos nos imaginar sem ele," disse Chris Dijkerman, neuropsicólogo do Instituto Helmholtz da Universidade de Utrecht, Holanda. "Não é como a visão, em que você fecha os olhos e não vê mais nada. Não dá para fazer isso com o tato. Ele está sempre lá."

Muito tempo negligenciado a favor dos sentidos pesos-pesados da visão e audição, ultimamente o estudo do tato tem ganhado adeptos entre os neurocientistas, que às vezes se referem a ele pelo jargão amigável haptics, toque em grego. Eles exploram as implicações das ilusões tácteis recentemente descobertas, quando pessoas são induzidas a sentir que possuem três braços, por exemplo, ou que levitam para fora de seus corpos, com a esperança de compreender como a mente funciona.

Outros se voltam para o haptics com propósitos mais práticos, como desenvolver melhores telas touch screen, mãos robóticas ou uma vida virtual mais harmoniosa. "Existe uma boa quantidade de pesquisas sobre novas formas de descarregar informação em nosso sentido táctil," disse Lynette Jones, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts. "O celular vibrar ao invés de tocar se mostrou algo bem vantajoso para algumas situações, e a pergunta é onde mais os sinais vibratórios podem ser úteis?".

Por sua antigüidade e constância, o tato não é passivo, primitivo ou limitado. É o nosso sentido mais ativo, nossa forma de captar e vivenciar o mundo, literalmente, em primeira mão. Susan J. Lederman, professora de psicologia da Universidade Queen, Canadá, apontou que, enquanto podemos perceber algo visualmente ou acusticamente à distância sem qualquer esforço, se quisermos conhecer algo pelo toque, precisamos tomar uma atitude.

Precisamos alisar o tecido, acariciar o gato, apertar o papel. E a cada investida táctil, o Princípio da Incerteza de Heisenberg cresce em importância. "O contato é uma via de duas mãos, algo não verdadeiro para a visão ou audição," disse Lederman. "Se você apertar um objeto macio, você muda sua forma. O mundo físico reage à ação."

Outro traço que distingue o tato é sua ampla distribuição. Enquanto os receptores sensoriais da visão, olfato e paladar estão todos juntos na cabeça, convenientemente próximos ao cérebro que interpreta os frutos de sua vigília, os receptores tácteis estão espalhados pela pele e pelos tecidos musculares, e precisam enviar seus sinais pela medula espinhal.

Existem também várias classes distintas de receptores relacionados ao tato: mecanorreceptores que respondem à pressão e vibração, receptores térmicos preparados para sentir calor ou frio, receptores cinestésicos que percebem onde estão nossos pulmões e os pavorosos nociceptores, os receptores da dor - feixes de nervos com terminações que disparam quando o tecido ao redor é danificado.

Os sinais dos vários receptores tácteis convergem no cérebro e formam o chamado homúnculo somatossensorial, uma representação interna do corpo altamente plástica.

Como qualquer mapa, o homúnculo exagera certas características e minimiza outras. Em tamanhos maiores estão esboços corticais das partes do corpo repletas de receptores tácteis, o que significa que nosso homúnculo escondido tem uma cara de palhaço, com grande rosto e boca, e largas mãos de lenhador.

"Nossas mãos e dedos são o equivalente táctil da fóvea na visão," disse Dijkerman, se referindo à parte da retina onde a densidade das células cônicas é maior e a capacidade visual mais acurada. "Se você quiser explorar o mundo táctil, suas mãos são a ferramenta certa."

Nossas mãos são brilhantes e conseguem fazer diversas tarefas automaticamente - abotoar uma camisa, encaixar a chave na fechadura, digitar para alguns, tocar piano para outros.

Lederman e seus colegas demonstraram que indivíduos vendados podiam reconhecer facilmente um amplo rol de objetos comuns colocados em suas mãos.

Mas para certas tarefas tácteis, o desempenho do toque é desajeitado. Quando as pessoas tateiam uma linha de contorno de um objeto comum, um traço em alto-relevo de, por exemplo, uma chave-de-fenda, elas se atrapalham. "Se tudo que temos é uma informação de contorno," disse Lederman, "sem peso, textura, temperatura, bem, somos muito, muito ruins."

O tato também é facilmente enganado. Entre os truques sensoriais sendo investigados está a chamada ilusão de Pinóquio. Pesquisadores descobriram que se vibrarem o tendão do bíceps, muitas pessoas dizem sentir que seu antebraço está esticando, com sua mão se afastando cada vez mais de seu cotovelo. E se forem orientadas a tocar o dedo indicador no nariz com o braço em vibração, elas sentem que o nariz também esticou.

Algumas ilusões tácteis precisam da conivência dos outros sentidos. As pessoas que vêem uma mão de borracha sendo acariciada enquanto o mesmo estímulo é aplicado a uma de suas próprias mãos, afastada de seu campo de visão, começam a acreditar que a prótese de borracha é o objeto real e estremecerão de dor com a visão de um martelo batendo contra ela. Outros pesquisadores registraram o que chamam de ilusão da pele de papel.

Indivíduos que esfregam suas mãos uma na outra enquanto ouvem sons de alta-freqüência descreveram suas palmas como excepcionalmente secas e com textura de papel, como se suas mãos fossem as responsáveis pelo ruído irritante que escutam. Olhe para cima, pequeno Pinóquio! Estão puxando suas cordinhas.

Tradução: Amy Traduções

The New York Times
 
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