A infestação de besouros está transformando a cobertura verde das montanhas em um vermelho-enferrujado |
Jim Robbins
Estados Unidos
» 'Besouro dançarino' integra melhores imagens de 2008
» Correios acham insetos gigantes em pacote
» Maior inseto do mundo é exibido
Do Novo México à Colúmbia Britânica, as florestas de pinheiros típicas da região sucumbem à enorme infestação de besouros que está transformando a cobertura verde das montanhas em outra de um vermelho-enferrujado.
Montana perdeu milhões de hectares de árvores para os besouros, e a situação no norte de Colorado e no sul de Wyoming é ainda pior.
"Estamos vendo um crescimento exponencial da infestação," disse Clint Kyhl, diretor de uma equipe de gestão de incidentes do Serviço Florestal, em Laramie, Wyoming, formada para lidar com a ameaça de incêndios em florestas mortas. O aumento das construções em áreas florestais nos últimos 20 anos piorou o problema.
No ano de 2006, Wyoming e Colorado tiveram milhares de hectares de árvores mortas. No ano passado, foram 607 mil. Este ano deverão ser mais de 809 mil. Nas províncias canadenses da Colúmbia Britânica e Alberta, o problema é mais crítico.
Segundo oficiais, essa é a maior infestação de insetos conhecida na história da América do Norte. A Colúmbia Britânica perdeu 13 milhões de hectares de pinheiros Pinus contorta, e uma ocasião de ventos fracos no ano passado espalhou uma espécie de besouros-bicudos até Alberta. Especialistas temem que os besouros possam chegar até os Grandes Lagos.
Segundo Khyl, nos próximos três ou cinco anos, praticamente todos os Pinus contorta com mais de 12 centímetros de diâmetro serão perdidos, cerca de 2 milhões de hectares. "Já em muitos lugares, até onde a vista alcança, todo pinheiro com mais de 12 centímetros está morto," disse.
A guarda florestal afirma que o surto histórico tem diversas causas. Como os incêndios foram aplacados por tanto tempo, todas as florestas têm aproximadamente a mesma idade, com árvores grandes o suficiente para ficarem suscetíveis aos besouros.
Uma década de seca enfraqueceu as árvores. E invernos rigorosos as amaciaram, o que permite o florescimento e expansão dos besouros.
Na expectativa de impedir que suas florestas desapareçam, lucrar com a venda de árvores infectadas e mortas e diminuir os riscos de incêndio, os proprietários das terras estão se mexendo para cortar os pinheiros. Se um número suficiente for cortado - até 75% - há chances de que as deixadas para trás, com menos competição por água, consigam sobreviver.
No entanto, para muitos proprietários, cortar a maior parte da floresta onde construíram seus lares é doloroso. "Recebi pessoas literalmente chorando em meu escritório," disse Gary Ellingson, consultor florestal da Northwest Management.
O escuro besouro de carapaça dura, do tamanho da ponta de um dedo, perfura a casca do pinheiro e cava uma galeria na madeira, onde deposita seus ovos.
Quando as larvas surgem sob a casca, elas comem o rico e doce câmbio cortical, que carrega os nutrientes da árvore. Eles também injetam um fungo que impede a árvore de transportar a seiva, que poderia afogar as larvas. O fungo colore a madeira de azul.
"O nome em latim é Dendroctunus, que significa assassino de árvores," disse Gregg DeNitto, entomólogo do Serviço Florestal em Missoula, Montana. "Eles são muito eficientes".
Para se defender dos insetos, as árvores produzem uma resina branca, que se parece com cera de vela, nas perfurações do besouro. Às vezes a árvore vence e sepulta o besouro.
É comum, entretanto, o atacante pedir reforços lançando um feromônio para atrair mais besouros, que tomam a árvore. Durante uma seca, as árvores têm dificuldade em produzir essa resina e são conquistadas.
Existem algumas defesas. Os proprietários prendem à árvore um pequeno pacote de "feromônio agregador", que mimetiza o odor químico produzido pelos besouros quando uma árvore já está tomada. Ele pode funcionar quando os besouros não são muito numerosos, mas em certo ponto eles não são dissuadidos.
As árvores grandes, antigas e de grande valor, que sombreiam acampamentos e quintais, podem ser pulverizadas com um inseticida. Mas as árvores precisam ser pulverizadas da base até a altura em que o tronco tiver menos de 10 centímetros de diâmetro. Cada árvore tem um custo de US$ 10 a US$ 15 se centenas forem pulverizadas.
Os pinheiros atacados estão amplamente confinados em altas altitudes. Mas, segundo Kyhl, os besouros chegaram à primeira frente de pinheiros Pinus ponderosa do Colorado, o que significa que podem arrasar florestas em torno de regiões densamente povoadas.
Os besouros só podem ser verdadeiramente detidos, de acordo com especialistas, se as temperaturas que costumavam ficar entre 4°C e -1°C por semanas retornassem às Rochosas, valores que não são vistos na região há décadas.
A morte das florestas preocupa a indústria do turismo. Muitas áreas de esqui cortaram suas florestas pelo risco de quedas de árvores e reflorestaram o terreno.
Na estação de esqui Vail, por exemplo, que foi seriamente atingida, trabalhadores removeram milhares de árvores mortas e plantaram outras. As árvores mortas que cobrem as montanhas também estão mudando o ecossistema.
Em Yellowstone, por exemplo, os besouros estão matando os pinheiros Pinus monticola, que produzem nozes essenciais para os ursos cinzentos no outono.
Biólogos no Canadá dizem que os rios sofrerão inundações-relâmpago, já que as árvores não vão mais captar a neve e fazer com que ela derreta lentamente, o que pode prejudicar o salmão e destruir seu habitat. Por outro lado, pica-paus e outros insetívoros vão prosperar.
Os incêndios florestais são a maior ameaça. Cidades como Steamboat Springs e Vail, no Colorado, estão cercadas por florestas mortas. O Serviço Florestal e as madeireiras estão abrindo clareiras defensivas, que permitirão que os bombeiros tenham espaço para combater o fogo.
Após a morte das árvores, há risco do fogo se espalhar por suas copas. Após quatro ou cinco anos, quando as árvores mortas tombam, a ameaça de um incêndio catastrófico é maior. O fogo nas pilhas de madeira danifica severamente o solo, impede o reflorestamento e causa deslizamentos.
A chuva sobre o solo danificado pode levar a deslizamentos de larga escala, entupindo rios e reservatórios, dos quais muitas comunidades nas montanhas dependem. O reservatório Strontia Springs, a principal fonte d'água para Denver, precisou de uma limpeza de US$ 20 milhões depois de um grande incêndio, que resultou em severa erosão.
Outro grande problema é o elevado número de árvores caindo. Em Colorado e Wyoming, oficiais já interditaram 38 acampamentos pelo medo de que árvores caiam sobre campistas. Atualmente, 14 permanecem fechados.
Mas há ainda muito a ser feito. "Sabemos que vão cair," disse Kihl. "E vão cair nos próximos 10 a 15 anos. Existem acampamentos, milhares de quilômetros de rodovias, áreas de piqueniques, linhas de energia e trilhas. Como mantemos essas instalações funcionando?"
A agência precisa limpar uma faixa de 22 a 30 metros de árvores mortas ao longo de rodovias para evitar que não sejam bloqueadas.
Existe ainda a questão sobre o que fazer com a madeira. O número de serrarias no ocidente diminuiu nos últimos anos, e agora não há o suficiente para tantos troncos.
Em Colorado, empresários estão procurando formas de usar a madeira. Duas fábricas foram construídas para transformar as árvores em serragem e compactá-la em combustível de queima limpa para fogões à lenha.
Algumas árvores são trituradas para uso em caldeiras de biomassa e carpinteiros utilizam os pinheiros tingidos de azul pelo fungo para fazer mobília.
Em Alberta, uma fábrica de papel jornal está testando um sistema para utilizar os milhões de hectares de pinheiros mortos. Devido às manchas dos fungos, as árvores não são claras o suficiente para fazer papel, mas um processo computadorizado ajusta a quantidade de alvejante. Mesmo assim, o volume de madeira usada ainda é pequeno comparado à vastidão de árvores mortas.
Enquanto isso, o oeste dos Estados Unidos, dependente do turismo, se pergunta o que seus visitantes vão pensar da dramática mudança no cenário.
Quatro milhões de turistas por ano passeiam e se divertem no condado de Grand, em Colorado, onde boa parte das florestas está agora morta. "O que vai acontecer," pergunta Ray Jennings, diretor de gestão de emergências do condado de Grand, "se aqui virar um lugar feio para visitar?".
Tradução: Amy Traduções
The New York Times