Chile: quase 2 mil infectados não foram notificados de HIV

14 de novembro de 2008 • 15h56 • atualizado às 15h59

Pascale Bonnefoy e Alexis Barrionuevo
Do NYT, em Santiago

Chile


O ministro da Saúde do Chile anunciou na quinta-feira que o sistema de saúde pública do país havia deixado de notificar pelo menos 512 pessoas de que elas estavam infectadas com o HIV, e que serviços do setor privado não informaram outros 1.364 chilenos de que eles portadores do vírus causador da aids.

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Falando a legisladores em Santiago, o ministro Alvaro Erazo, da Saúde, disse que em cerca de metade dos casos não havia indicações de que alguém tivesse procurado os pacientes. "Nada justifica isso", disse Erazo a membros do Congresso chileno.

A admissão do ministro da Saúde surgiu semanas depois que sua predecessora, Maria Soledad Barria, foi forçada a renunciar devido a revelações de que um hospital em Iquique, no extremo norte do país, havia deixado de notificar a dezenas de pacientes que eram portadores do HIV. Dois pacientes do hospital posteriormente morreram devido a complicações relacionadas à aids. Erazo foi convocado a depor perante o Congresso sobre os problemas de notificação.

Com as revelações surgidas na quinta-feira, o escândalo está se aprofundando. Erazo informou aos legisladores que alguns dos problemas de notificação se deviam à falta de coordenação entre a Comissão Nacional de Aids e o Ministério da Saúde, e que a segurança epidemiológica "não estava funcionando".

O Serviço Metropolitano Central de Saúde, na capital Santiago, informou na quinta-feira que iniciaria uma investigação sobre as causas da falta de notificação a 107 pacientes que residem em sua área de jurisdição. Os resultados devem sair em duas semanas. Dois grupos que combatem a aids no Chile, a Asosida, uma coalizão de organizações não governamentais, e a Vivo Positivo, divulgaram comunicado conjunto na quarta-feira afirmando que o escândalo das notificações era "a pior crise da saúde no país nos últimos anos". Os grupos acrescentaram que a negligência quanto à notificação era "uma flagrante violação dos direitos humanos e do direito à vida".

Cecilia Sepulveda, diretora da Escola de Medicina da Universidade do Chile, estimou que cerca de 40 mil pessoas no país não sabiam que estavam infectadas com o HIV. Enquanto isso, o governo anunciou que está conduzindo esforços intensos para localizar e informar os pacientes quanto à sua situação. Erazo prometeu que isso seria feito da maneira mais confidencial possível.

Mas não era o que parecia estar acontecendo em todos os casos. Um homem de 28 anos que vive em Puerto Montt, uma cidade ao sul da capital, disse à Radio Cooperativa de Santiago que dois funcionários do departamento de saúde foram ao seu local de trabalho em uma ambulância duas semanas atrás e, na presença de seu patrão, o informaram de que era portador do HIV. No dia seguinte, ele contou, o patrão o demitiu.

Erazo, respondendo na quinta-feira às alegações do homem de Puerto Montt, disse aos legisladores que "certamente existem preocupações legítimas quanto às salvaguardas e capacidades técnicas". Se o que o homem contou fosse verdade, afirmou, "o episódio é uma desgraça".

O escândalo que está fervilhando é o mais recente desafio para o governo de centro-esquerda da presidente Michelle Bachalet, que sofreu uma série de protestos e escândalos nos últimos meses, o que animou seus adversários de centro-direita para as eleições presidenciais do ano que vem.

Tradução: Paulo Migliacci

The New York Times
 
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