Cientistas militares oferecem uma esperança aos pacientes e futuras gerações: uma vacina contra a dengue |
Thomas Fuller
Estados Unidos
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Atravessando a rua, no maior laboratório de pesquisas médicas do exército americano fora dos Estados Unidos, cientistas militares oferecem uma esperança para as futuras gerações: uma vacina. Desenvolvida após décadas de testes, ela é uma das duas vacinas experimentais que especialistas esperam estar à venda até a metade da próxima década.
A dengue, uma doença transmitida por mosquito cujos sintomas envolvem dores musculares e dores de cabeça terríveis, tem uma taxa de mortalidade relativamente baixa ¿ a Organização Mundial de Saúde relata uma taxa de 2,5% dos pacientes hospitalizados. Mas devido à necessidade de constante e cuidadoso monitoramento dos pacientes, essa é uma das doenças de países tropicais com o tratamento mais caro. A cada ano, ela é responsável por 500 mil hospitalizações pelo mundo.
A dengue raramente é vista nos Estados Unidos ou na Europa, apesar de ser a segunda causa mais comum (após a malária) dos sintomas de febre de seus turistas ao retornarem de países em desenvolvimento. Ela também é uma fonte de preocupações para o exército: os soldados americanos têm contraído dengue desde os anos 1990, em missões no Haiti e na Somália. Portanto, é uma das doenças tropicais à qual o Instituto de Pesquisas Médicas das Forças Armadas se dedica, trabalhando em parceria com o Exército Real Tailandês há cinco décadas.
O centro de pesquisa, que emprega centenas de pessoas, está montado em um discreto prédio dos anos 1960 num beco sujo onde ambulantes vendem gafanhotos fritos e salada de mamão fresco amassado. "Não existe dengue no Kansas," disse o coronel James W. Boles, comandante do laboratório. "Nem malária. Por isso estamos aqui".
Na história das guerras, as doenças se mostram um adversário mais perigoso que exércitos inimigos. Durante a Guerra Anglo-Boer na África do Sul no final do século 19, mais soldados morreram de febre tifóide do que em batalha. Milhares de casos de hepatite em soldados na Guerra do Vietnã apressaram os médicos militares a desenvolver duas das vacinas hoje em uso para a prevenção das hepatites A e B.
"Nossa única preocupação é conseguir uma vacina que proteja os soldados," disse o tenente-coronel Stephen J. Thomas, médico diretor de pesquisas da vacina para a dengue no laboratório de Bancoc. "Felizmente, temos preocupações em comum com as da saúde global." Durante muitos anos, as principais drogas usadas no tratamento da malária foram as desenvolvidas pelo exército americano.
Atualmente, as pesquisas de doenças tropicais são alvo de várias organizações; na procura por uma vacina para a dengue, dinheiro e pesquisa vieram do governo tailandês, organizações sem fins lucrativos como a Fundação Bill and Melinda Gates e companhias farmacêuticas como GlaxoSmithKline, que trabalha em parceria com o exército. Outra vacina em estágio avançado de desenvolvimento está sendo desenvolvida conjuntamente entre a companhia farmacêutica francesa Sanofi-Aventis e uma universidade tailandesa na mesma rua em que fica o laboratório americano.
"Nunca estivemos tão próximos de uma vacina para a dengue quanto agora," disse Duane J. Gubler, diretor do departamento de doenças infecciosas da Escola Médica de Pós-Graduação Duke-N.U.S. em Singapura. "Há boas chances de que tenhamos uma vacina em cinco ou sete anos." O vírus da dengue é transmitido principalmente por um mosquito chamado Aedes aegypti, que sobrevive de sangue humano. O mosquito viaja por mais de 90 m do local de nascimento e se desenvolve em áreas povoadas.
O mosquito pode se reproduzir até em garrafas, mas suas condições ideais são grandes recipientes, comuns em muitas partes do sudeste asiático para armazenar água potável. Diferente de outros mosquitos, o Aedes aegypti prefere a água limpa, de acordo com o especialista da espécie Thomas W. Scott, professor da Universidade da Califórnia.
O mosquito não sobrevive ao congelamento da água e, apesar de endêmico em partes dos Estados Unidos, principalmente no sul, especialistas afirmam que boas práticas de saneamento impediram que ele espalhasse o vírus da dengue. O inseto geralmente vive dentro das residências, em armários ou cortinas. A Organização Mundial de Saúde estima que 50 milhões de pessoas são infectadas todos os anos. Mas a maioria dos infectados, talvez cerca de 90%, sofrem apenas sintomas mais leves, semelhantes a uma gripe ou absolutamente nada.
Nos casos mais sérios, como o do menino que morreu no mês passado, os sintomas envolvem dores de cabeça severas, surtos rápidos de febre alta, dores musculares e nas articulações, náusea, vômitos e hemorragia interna. Geralmente, porém, a dengue é considerada tratável desde que os pacientes sejam levados ao hospital a tempo e que a doença seja devidamente diagnosticada.
Os cientistas acreditam que a doença existe há séculos ¿ um surto parece ter ocorrido na Filadélfia em 1780 ¿ mas a dengue se tornou mais comum e virulenta na metade do último século. Em 1970, sabia-se apenas de nove países com epidemia da forma mais séria da doença, a dengue hemorrágica. Já em meados dos anos 1990, esse número quadruplicou, e especialistas afirmam que a doença está particularmente bem adaptada a uma era de viagens de avião e comércio internacional.
Existem quatro tipos de vírus da dengue. Acredita-se que pacientes infectados por um deles desenvolvem imunidade apenas àquele tipo ¿ e, paradoxalmente, estão mais vulneráveis à dengue hemorrágica se expostos a um segundo tipo. Os quatro tipos foram misturados por pessoas infectadas viajando de avião para diferentes lugares; surtos de febre hemorrágica foram rastreados por rotas de vôo e comércio.
"Acabamos provendo ao vírus o mecanismo ideal para se espalhar pelo mundo," disse Gubler, que há quase quatro décadas pesquisa a dengue. Provavelmente foram soldados da Segunda Guerra Mundial os causadores da primeira leva de dengue hemorrágica no sudeste asiático. "Houve o movimento de soldados da Inglaterra, EUA, Austrália e Japão," disse o doutor Suchitra Nimmannitya, pioneiro na pesquisa de dengue, que desenvolveu um manual de como tratar a doença. "Os soldados voavam de cidade a cidade".
Um cientista japonês foi o primeiro a isolar o vírus durante a guerra e um médico do exército americano, Albert Sabin, foi o responsável pela descoberta de que o vírus tinha diferentes tipos - Sabin também ajudou a desenvolver a vacina contra a pólio. O desenvolvimento de uma vacina é especialmente difícil porque precisa conter todos os quatro tipos do vírus.
"Se a dengue fosse apenas um vírus já teríamos uma vacina com certeza", disse o doutor Jean Lang, diretor de pesquisa e desenvolvimento do programa para a criação da vacina de Sanofi. A vacina contra a dengue de Sanofi, que vai ser submetida a testes em 4 mil crianças na Tailândia nos próximos meses, é uma das primeiras vacinas produzidas por meio da engenharia genética.
A vacina do exército, que está em estágio similar de desenvolvimento e foi testada em voluntários nos Estados Unidos, Porto Rico e Tailândia, foi produzida com vírus vivos e enfraquecidos, uma técnica mais tradicional. As duas ou três doses, espaçadas por um período de meses, são administradas por injeção.
Especialistas afirmam que o grande número de pesquisadores envolvidos ¿ alguns visando ao lucro, outros não ¿ aumenta as chances de sucesso e pode ajudar a tornar a vacina acessível a pessoas de países em desenvolvimento.
Tradução: Amy Traduções
The New York Times