Neil Genzlinger
Estados Unidos
Vezes sem conta no programa, transmitido na terça-feira pela rede de TV pública PBS, Smith coloca funcionários do governo e de grandes empresas diante das câmeras e pergunta diretamente por que sinais de alerta evidentes foram ignorados ou medidas óbvias não foram tomadas. E vezes sem conta as respostas que obtêm são recusas escorregadias de reconhecer erros ou assumir a responsabilidade.
Por que a Exxon Móbil está dedicando apenas uma fração minúscula dos seus lucros gigantescos aos esforços de energia alternativa, pergunta Smith a Sherri Stuewer, vice-presidente da empresa. "Acredito que, não importa quanto a empresa despenda em pesquisa em uma área específica, é provável que sempre exista alguém para dizer que não é o bastante", é a não resposta que ela oferece.
Por que a Shenhua Energy, a gigante da energia a carvão da China, não transformou o controle das emissões de carbono em prioridade absoluta? "Devemos criar dinheiro, e não perder dinheiro", diz o presidente-executivo do grupo, Ling Wen.
Esses diálogos diretos oferecem motivo para continuar assistindo a "Heat" mesmo nos momentos chatos: a usual lição de história sobre os combustíveis fósseis, a menção obrigatória aos tratados de controle das alterações climáticas e de padrões de controles de emissão de poluentes por automóveis.
Mas existem outros motivos para assistir a esse documentário de duas horas de duração. Os segmentos em que Smith fala em detalhes sobre o carvão e o etanol oferecem uma valiosa perspectiva sobre os lemas de independência energética que os candidatos à presidência usam com tanta facilidade no momento.
"Carvão limpo" é uma das frases favoritas da campanha, mas quando Smith concluiu sua análise, o espectador passa a ter idéia muito mais clara de o quanto esse ideal é dispendioso e difícil, se é que se pode atingi-lo.
Quanto ao etanol, mesmo que ele estivesse facilmente disponível, afirma o programa, produzi-lo causa danos ambientais diversos: os fertilizantes, o transporte, a conversão de florestas tropicais em áreas agrícolas porque terras que eram usadas para produzir alimentos nos Estados Unidos agora estão sendo usadas para a produção de combustíveis.
Uma fórmula comum aos documentários é expor um problema, causar alarme no espectador e no final destacar os esforços que provavelmente resolverão o problema. O espectador termina com aquela sensação de que "ainda bem que não é necessário me preocupar com isso". É uma abordagem que está em uso em "Heat".
T. Boone Pickens, o rico empresários petroleiro que recentemente se tornou discípulo da energia alternativa, aparece ao final do filme com suas turbinas eólicas.
Mas o trabalho de Smith quanto a documentar os obstáculos tecnológicos e humanos a reverter o aquecimento que causamos faz com que a presença de Pickens não cause alívio. A conclusão, em lugar disso, é que a duplicidade das autoridades e a falta de disposição dos seres humanos quanto a reduzir voluntariamente seu nível de conforto torna inevitável que as coisas continuem a esquentar.
Tradução: Paulo Migliacci
The New York Times