Os cirurgiões introduzem o grampeador pela garganta, grampeado o estômago por dentro |
Denise Grady
Estados Unidos
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Os cirurgiões, Dr. Marc Bessler e Dr. Daniel Davis, acabavam de grampear seu estômago, formando um tubo com a grossura de um polegar, capaz de reter apenas uma quantidade limitada de alimentos. A operação era semelhante a outras cirurgias de perda de peso, mas com uma enorme diferença: no caso de Perez, não foram necessários cortes. Os cirurgiões haviam introduzido o grampeador por sua garganta e grampeado o estômago por dentro.
Inspecionando trabalho, Bessler comentou, "Difícil fazer melhor que isso". A operação, cujo objetivo é fazer com que uma pessoa se sinta satisfeita depois de comer muito pouco, é estritamente experimental.
Apenas alguns pacientes a testaram nos Estados Unidos, como parte de um estudo pago pela Satiety, fabricante dos grampeadores, que espera que a Food and Drug Administration (FDA, agência federal norte-americana que regulamenta alimentos e remédios) aprove seu equipamento.
Perez, 25, aluna de pós-graduação em um curso de serviço social, era o segundo paciente a participar do estudo no Hospital Presbiteriano de Nova York. Funcionários da Satiety estavam presentes para assessorar os cirurgiões ao longo de toda a operação.
O procedimento é parte de uma tendência a tornar as cirurgias menos dolorosas e invasivas, a fim de minimizar riscos e acelerar a recuperação. Muitas operações que no passado exigiam grandes incisões agora são realizadas por meio de pequenas fendas, com câmeras inseridas de forma a permitir que os médicos vejam o que estão fazendo em telas de vídeo.
Os médicos de Perez partiram para a etapa seguinte: usar uma abertura natural do corpo para evitar a necessidade de um corte na parede abdominal. Bessler e outros cirurgiões usaram técnicas semelhantes a fim de remover um apêndice pela boca ou uma vesícula pela vagina.
No México e na Europa, nos últimos dois ou três anos, 98 pacientes passaram por essa cirurgia de redução de peso, conhecida como Toga (abreviação de gastroplastia transoral, em inglês). Em média, a perda de peso das pessoas que realizaram a cirurgia há um ano é de 40% do seu excedente de massa. Só o tempo dirá se eles serão capazes de evitar a reposição do peso perdido.
Existem métodos cirúrgicos mais antigos e estabelecidos que produzem mais perda de peso, e nos Estados Unidos cerca de 200 mil pessoas os utilizam a cada ano. Conhecida como cirurgia bariátrica, ela é muitas vezes conduzida por meio de fendas cortadas no abdome.
Mas mesmo essas fendas deixam cicatrizes e cortam músculos abdominais, o que causa dores, diz Bessler. E elas podem ter complicações, como hérnias ou vazamentos no aparelho digestivo.
¿A maioria das pessoas prefere não correr o risco¿, ele diz acrescentado que apenas 2% das pessoas que poderiam ser beneficiadas por cirurgias bariátricas as realizam.
Cerca de 15 milhões de norte-americanos são morbidamente obesos, o que significa que seu índice de massa corpórea, uma espécie de relação entre peso e altura, está em pelo menos 40 (o excesso de peso começa índice de 25).
As diretrizes médicas recomendam cirurgia quando o índice atinge 40, ou 35 caso haja complicações como diabetes ou doenças cardíacas. Perez tem 1,80 metros e pesa 131 quilos, o que resulta em índice de massa corpórea de 42 - ainda que sua altura e sua estrutura corpórea generosa a ajudem a esconder o peso. A família, os amigos e o namorado da paciente se declaram satisfeitos com sua aparência.
Mas ela mesma não a aprecia muito. Quando estava no segundo grau, pesava entre 79 e 82 quilos, e não se sentia mal. Mas quando começou na faculdade, ganhou 36 quilos, e desde então não conseguiu mais perder o peso. A expectativa de Perez é que a cirurgia a ajude a perder 27 quilos, talvez em tempo para sua formatura na Universidade de Stony Brook, no segundo trimestre de 2009.
"Não me parece uma questão tão séria", ela diz, "mas a verdade é que é. Quando saio com minhas amigas ou colegas para comprar roupas, não posso comprar o que elas compram. Tenho de me limitar a comprar acessório. Isso incomoda".
O mais importante, ela diz, é sua saúde. Perez perde o fôlego com facilidade e sua pressão arterial "não é das melhores", ela diz, acrescentando "que quero viver com saúde, sem estar à beira de problemas maiores".
Operações bariátricas tipicamente funcionam muito melhor que dietas, exercícios ou remédios, e freqüentemente curam diabetes e reduzem o risco de morrer de doença cardíaca ou câncer. Mas existe algum risco - ainda que pequeno equivalente a menos de 1% nos centros mais experientes- de morrer na mesa de operações.
A idéia da gastroplastia transoral é oferecer algo mais seguro e menos invasivo. Bessler diz acreditar que esse método será atraente para muitas pessoas que temem as demais operações.
"É muito promissor", ele disse. "Lido com muitas tecnologias novas. E estou realmente entusiasmado quanto a essa". Bessler afirma que ele e Davis não têm interesses financeiros na Satiety, mas que foram pagos pela empresa por seu trabalho no estudo.
Ainda que desejasse a cirurgia, Perez não desejava um bypass gástrico, o procedimento mais comum, que reduz o estômago e reposiciona o intestino delgado. Uma tia fez essa operação e perdeu 68 quilos, mas sofre de hérnia, problemas intestinais e outras complicações sérias.
Por isso ela passou a pensar em uma cirurgia de restrição gástrica, que insere um aro no topo do estômago e o aperta para formar uma pequena bolsa - um método cada vez mais popular.
Mas o método da Satiety, que ela descobriu pesquisando na internet, parecia menos invasivo, e o preço era bom: cirurgia gratuita como parte do estudo. Para ela, não importava que produzisse menos perda de peso do que outros métodos.
"Não quero ser muito magra", disse. "Fui informada de que posso perder 40% do meu excesso de peso". Se fizer exercícios e dieta depois da cirurgia, "posso perder provavelmente 27 quilos, e isso é realista para mim".
Tradução: Paulo Migliacci
The New York Times