Milhares observam a passagem de Vênus pelo Sol

08 de junho de 2004 • 07h41 • atualizado às 07h41
A passagem de Vênus na frente do Sol é vista em Mount White, a cerca de 50 km de Sydney, na Austrália Foto: Reuters
A passagem de Vênus na frente do Sol é vista em Mount White, a cerca de 50 km de Sydney, na Austrália
08 de junho de 2004
Foto: Reuters

Vênus fez uma rara travessia pelo Sol hoje, dando aos espectadores da Austrália, Oriente Médio, África e alguns Estados do Brasil uma visão que nenhuma pessoa viva havia testemunhado. Para o deleite de milhares de pessoas em todo o mundo, armadas para a ocasião com telescópios, câmeras e óculos especiais, Vênus apareceu às 2h (em Brasília) como um pequeno ponto negro em frente ao Sol, fato registrado pela última vez em 1882.

A duração da passagem é de 6 horas e 12 minutos exatamente, mas sua fase de observação dura 5 horas e 33 minutos.

Mobilização para ver o fenômeno
Muito menos espetacular que um eclipse do Sol, o fenômeno provocou o entusiasmo de muitos aficcionados por astronomia de todo o mundo, nos locais em que as condições meteorológicas permitiram, e também decepção em outros casos.

Os australianos apontaram seus telescópios para o céu do Pacífico sul para testemunhar o fenômeno raro, que foi visto 235 anos atrás pelo famoso capitão inglês James Cook. Pouco depois das 15h em Sydney, o ponto negro apareceu no canto do Sol caminhando no sentido leste-oeste. A travessia duraria seis horas. "Tudo o que se vê é essa pequena silhueta negra contra o Sol", disse Fred Watson, astrônomo-chefe do Observatório Siding Springs, localizado no Estado de Nova Gales do Sul.

Em Bombaim, capital financeira da Índia, centenas de pessoas se reuniram no Planetário Nehru. Muitas usaram óculos equipados com filtros especiais para ver a passagem do planeta cujo nome homenageia a deusa romana do amor. Para o casal de meia-idade Ramesh e Ritika Jeswani, o fenômeno astronômico era "uma celebração de nosso amor um pelo outro".

No Observatório de Paris, onde dezenas de pessoas se reuniram, um conjunto de espelhos e lentes enviava a imagem do Sol do teto até um telão, através de um foco de luz. Foi preciso esperar cinco minutos após o início do fenômeno para observar com clareza a sombra de Vênus no disco solar. Neste momento, os espectadores aplaudiram vigorosamente.

Na Cidade das Ciências da capital francesa, foram instalados vários telescópios e solaroscópios (pequeno instrumento de cartão, dentro do qual a imagem projetada em uma parede pode ser observada sem risco para os olhos).

No início da passagem do planeta pelo disco solar, as turbulências provocadas pela umidade da atmosfera terrestre tornaram a visão do disco de Vênus borrada, mas logo depois o círculo passou a ser perfeitamente visível.

Na Alemanha, muitos observatórios abriram suas portas ao público. Mais de 1.500 pessoas compareceram à instituição de Hamburgo. Na Ásia, o céu nublado impediu a visão do fenômeno em muitos países. No Japão, onde a astronomia é uma verdadeira paixão, 21 sites haviam programado a transmissão da passagem de Vênus pelo Sol, mas quase nenhum conseguiu exibir a mesma. No entanto, na ilha de Hokkaido (norte) o céu ficou claro em alguns momentos e permitiu breves observações.

Explicação
Em razão das inclinações diferentes das órbitas de Vênus e da Terra, o fenômeno ocorre aproximadamente a cada 120 anos e em duas vezes, com oito anos de intervalo. Como em um eclipse do Sol ou da Lua, esta passagem de Vênus acontece quando os três corpos celestes, Vênus, Terra e Sol, estão alinhados.

Cinco passagens do planeta vermelho pela frente do Sol foram registradas. A mais recente aconteceu em 1882. O capitão James Cook testemunhou o fenômeno em 1769, quando estava no Taiti. Depois de 2004, Vênus voltará a passar diante do Sol no dia 5 de junho de 2012 e posteriormente esse encontro só acontecerá em 2117 e 2125.

Importância científica
Atualmente, o fenômeno tem apenas uma dimensão lúdica, pedagógica e midiática, mas no passado sua importância científica foi grande. De fato, a observação da passagem permitiu, em 1874 e 1882, a medição da distância entre a Terra e o Sol, unidade de medida de todas as outras distâncias dos corpos celestes.

"No plano estritamente científico, a passagem de Vênus diante do Sol já não representa grande coisa, exceto a possibilidade de obter uma cronometragem do fenômeno com a precisão de uma fração de sgundo. Porém, nem por isso o espetáculo é menos extraordinário", afirma o presidente da Associação Francesa de Astronomia, Olivier Las Vergnas.

Até o século XIX, Vênus foi considerado o planeta "gêmeo" da Terra: um raio médio de 6.052 km, quando o de nosso planeta é de 6.378; uma densidade de 5,24 g/cm3, contra 5,51 da Terra. Atualmente, os cientistas sabem que na verdade Vênus é um inferno: a temperatura de sua superfície atinge os 460°C e a pressão ultrapassa 92 atmosferas. Além disso, as rochas de Vênus são incandescentes.

Redação Terra
 
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