'Projetar a natureza' é solução para lugares poluídos

23 de setembro de 2008 • 08h56 • atualizado às 08h56
Na Itália, natureza reformulada para fins de limpeza Foto: The New York Times
Na Itália, natureza reformulada para fins de limpeza
23 de setembro de 2008
Foto: The New York Times

Elisabeth Rosenthal

Itália


Antes que Michele Assunto recolha sua rede de pesca por entre os juncos de um canal em Porto Badino, Itália, ele usa uma vara para tirar o lixo do caminho. "Eles precisam limpar isso tudo", resmunga o pescador. No ponto em que outro canal se une ao mar, aqui nesta pequena comunidade, os únicos animais capazes de sobreviver são ratos gigantes, disseram funcionários locais. É claro que o mar não é receptivo aos nadadores, nos 200 metros mais próximos de cada lado do canal, eles acrescentam, dando de ombros - ainda que banhistas ignorem o problema e estejam desfrutando do Mediterrâneo.

» Danos à natureza 'cortarão padrão de vida de pobres'
» Destruição da natureza custa R$ 5 trilhões por ano

Em muitas partes desse afluente na região costeira a sudeste de Roma e noroeste de Nápoles, canais que despejam efluentes de fábricas e fazendas no Mediterrâneo convivem com pescadores e banhistas. Existe pouca dúvida de que essa área precisaria de esforço considerável para que retornasse à sua condição original. Para locais que decaíram a esse ponto, porém, um novo movimento de paisagistas está recomendando uma solução radical: não restaurar o ambiente, mas reprojetá-lo.

"O desequilíbrio ecológico é tão grande que, se as coisas continuarem assim, o lugar vai morrer", disse Alan Berger, paisagista formado pelo Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), enquanto ele escavava animadamente as margens do canal mal-cheiroso, conversando com pescadores como Assunto.

"Não se pode remover a economia local e transferir as pessoas", ele acrescentou. "Em termos ecológicos, restauração é impossível; temos de ir adiante, estabelecer esse local em um novo caminho".

Projetar a natureza poderia parecer uma contradição essencial ou um ato de arrogância. Mas em lugar de simplesmente recomendar que as fazendas poluentes e as fábricas sejam fechadas, Berger se especializa em criar novos ecossistemas em locais de meio ambiente pesadamente danificado: redirecionando fluxos de água, transferindo colinas, construindo ilhas e plantando espécies novas a fim de absorver a poluição, e criar novas paisagens naturais, ainda que "artificiais", capazes de se sustentar no futuro.

Berger, fundador da P-Rex, uma empresa vinculada ao MIT, recentemente assinou um contrato com a província italiana de Latina para criar um plano ecológico mestre que será aplicado nas partes mais poluídas da região.

Ele deseja que o governo construa um alagadiço artificial de 200 hectares em um vale estratégico pelo qual passam as águas mais poluídas da região, no momento. O alagadiço serviria como estação natural de filtragem antes que as águas chegassem ao mar e às áreas residenciais.

É evidente que uma melhor regulamentação é igualmente necessária para conter o despejo de poluentes no canal. Mas uma mistura cuidadosa do tipo de certo de plantas, terra, pedras e canais de drenagem poderia filtrar a água à medida que esta passasse lentamente pela área, ele afirma. A terra também funcionaria como um novo parque.

Berger reconheceu rapidamente que a abordagem é imensamente diferente das propostas em geral defendidas por grupos ambientalistas estabelecidos como o World Wildlife Fund (WWF) ou a Nature Conservancy, que em geral tentam restaurar a terra ao seu estado natural, muitas vezes pelo fechamento ou limpeza de fontes de poluição próximas.

Na região dos Everglades, na Flórida, por exemplo, o Estado está comprando e fechando uma usina de açúcar, para preservar o meio ambiente. Mas essa abordagem pode não funcionar em locais que estejam severamente degradados, disse Berger.

"A diferença entre minhas idéias e as do WWF é que, quando contemplo esse lugar, não penso em retornar ao passado", ele disse. "A solução precisa ser tão artificial quanto o local. Estamos tentando inventar um ecossistema em meio a uma paisagem inteiramente poluída e alterada por engenharia".

À primeira vista, Latina não parece ser uma zona de desastre ecológico. Limitada por montanhas ao leste e pelo Mediterrâneo a oeste, a província oferece paisagens espetaculares e até mesmo algumas cidades de praia famosas, como Sabaudia.

Mas de muitas maneiras, disse Berger, se trata de uma área tão danificada e distorcida quando a região em torno de uma mina abandonada em Breckenridge, Colorado, cuja reforma ele também está projetado, como parte de um projeto de recuperação ambiental bancado pela Agência de Proteção Ambiental (EPA) dos Estados Unidos.

De fato, todo o meio ambiente aqui é artificial - e além disso apresenta um histórico de sucesso econômico.

Dois mil anos de políticas de administração de água transformaram o Pântano Pontino, que por muitos séculos foi uma região fortemente malárica, na província de Latina, uma das mais prósperas da Itália. Ela abriga parques temáticos, comunidades de férias e fazendas ¿algumas das quais fazem da Itália a maior produtora mundial de kiwis.

A prosperidade de Latina é construída sobre pântanos drenados, mantidos habitáveis por seis bombas grandes e barulhentas como aviões, instaladas em 1934 sob o governo de Mussolini. A cada dia elas extraem milhões de litros de água ¿até 36 mil litros por segundo- da terra encharcada e a transferem a um complexo sistema de canais de paredes de cimento, que a conduzem ao mar.

A província inteira voltaria a ser um pântano em sete dias caso as bombas fossem desligadas, disse Carlo Cervellin, do Consórcio do Pântano Pontino. Ele é o encarregado de manter e regular as imensas máquinas, abrigadas em uma casa de bombas no ponto mais baixo da província, na cidade de Mazzochio.

Imperadores romanos e papas tentaram por séculos drenar o pântano, com o objetivo de permitir melhor acesso ao mar ao longo da famosa Via Ápia, mas não encontraram sucesso. A drenagem do Pântano Pontino foi um dos triunfos de engenharia da era Mussolini.

A área era um pântano malárico esparsamente povoado quando Mussolini enviou operários do norte da Itália a fim de criar um projeto de obras públicas centrado nas bombas, em uma obra de porte semelhante ao Canal do Panamá. Muitos trabalhadores morreram no processo, e não foi conduzido um estudo de impacto ambiental antes que as obras começassem.

"O objetivo era retirar a água o mais rápido possível", disse Berger. O que emergiu do pântano foi um triunfo da determinação fascista, bem como uma das regiões econômicas mais ativas da Itália. Mussolini construiu a cidade de Latina nas terras drenadas, e fez dela um centro de indústria e agricultura.

Mas próspero não quer necessariamente dizer sustentável. Berger se transferiu à Academia Americana de Roma em 2007 para um projeto de pesquisa de um ano sobre o Pântano Pontino. Foi só depois que ele começou a recolher dados sobre a terra e a água que descobriu a extensão dos danos.

Com a ajuda do governo de Latina, ele tirou milhares de fotografias aéreas e obteve dados sobre a água e a terra, em um esforço por documentar os padrões de drenagem e o fluxo da água e dos poluentes. "Se existe um lugar onde é bom saber exatamente onde sua comida foi produzida, é aqui", ele disse. "Eu só comeria alimentos cultivados no topo das colinas".

Água pura chega à planície de Latina das montanhas altas da área de Ninfa; a água vai se tornando mais e mais impura no caminho até o mar, recebendo eflúvios de diversas fábricas, casas e fazendas.

Berger constatou que metade da água do sistema está severamente contaminada, disse ele, com níveis de fósforo e nitrogênio que pioram à medida que correm pelos canais rumo à costa.

"Em termos de fósforo, boa parte da água tem nível de esgoto não tratado, e em termos de nitrato tem nível de efluentes suínos "como se a região toda fosse um chiqueiro", ele diz.

Quando a água chega ao mar, em alguns dos canais, mostram as fotos aéreas de Berger, ela se tornou uma onde espessa e escura repleta de poluentes. Fábricas de produtos farmacêuticos e grandes fazendas estão localizados nas margens dos canais. Os fazendeiros também usam a água para irrigação.

Diante dessas pesquisas, até mesmo os dirigentes locais ficaram surpresos com o nível de poluição constatado, mas se impressionaram o bastante com a solução proposta por Berger para que continuassem a trabalhar com ele agora que o paisagista retornou aos Estados Unidos.

"Ele estudou nossa região de um ponto de vista diferente do nosso", disse Carlo Perotto, diretor de planejamento da província de Latina. "Tínhamos profissionais diferentes cuidando da água, indústria e agricultura. Ele abriu novas formas de pensar".

Tradução: Paulo Migliacci

The New York Times
 
Enviar para amigos
Fechar por:
Enviar para amigos
Fechar por:

Imprimir

Fechar
Mais vistos

Notícias

  1. Carregando...
leia mais notícias »