Estudo: câncer mata mais homens sem curso superior

10 de setembro de 2008 • 12h15 • atualizado às 12h15

Lúcia Jardim
Direto de Paris

França


Um operário com entre 30 e 64 anos, sem diploma universitário e pertencente à classe baixa têm mais do que o dobro de chances de morrer em conseqüência de algum tipo de câncer do que um empresário com curso superior. A conclusão é de um estudo inédito realizado pelo Instituto Nacional de Saúde e Pesquisas Médicas (Inserm), da França, e que relaciona as mortes pela doença ao nível social e intelectual das vítimas.

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A pesquisa é resultado da análise cruzada de dados relativos às mortes por câncer e à condição social dos falecidos de 1968 a 1996, fornecidos pelo principal instituto de estatística francês, o nsee. A coordenadora do estudo, Gwenn Menvielle, pôs a mão sobre as informações de nada menos do que 1% da população francesa, o que torna o seu estudo inédito pela abrangência.

Seu trabalho mostra um forte aumento dos casos de mortes pela doença entre os não-diplomados depois dos anos 80. Entre 1968 e 1974, o risco era 1,52 maior, em relação aos diplomados. Mas na década de 90, essa diferença passou para em média 2,29, dependendo do tipo de tumor. Os dados dos anos 2000 ainda não estão disponíveis para pesquisas.

Os trabalhadores sem diploma teriam mais do que o dobro de chances de morrer de câncer por duas razões fundamentais, aponta Menvielle. Em primeiro lugar, porque os homens de classes inferiores consomem mais álcool e tabaco do que os mais ricos. A segunda razão diz respeito às condições de trabalho de uma classe e de outra.

"Enquanto o empresário trabalha em uma sala confortável, o operário freqüentemente passa o dia em ambientes onde está exposto a materiais cancerígenos. Em um canteiro de obras ou em uma mina, por exemplo, ele aspira o tempo todo substâncias provocadoras de câncer", explica Menvielle.

O câncer que mais demonstra a diferença de classes é o das vias aéreas, especialmente boca, faringe, laringe e esôfago, em que os não-diplomados têm 5,21 vezes a mais de chances de morte do que um homem diplomado. O dado comprova ao menos uma das hipóteses da estudiosa para explicar a desigualdade social da ocorrência da doença, uma vez que esse tipo de câncer é provocado pelo consumo abusivo de álcool e cigarro.

A pesquisadora explica que o fator qualidade dos produtos tem pouca influência sobre a ocorrência de câncer − pelo menos na França, ressalva. "Em países como a Rússia, onde se bebe destilados fortes, a qualidade das bebidas tem comprovadamente uma relação com a incidência de câncer. Mas na França, onde a bebida mais consumida é o vinho, a qualidade é um problema secundário. O fator determinante é a quantidade."

Um terceiro ponto que deve ser considerado é o acesso à informação sobre a doença. Os homens com mais estudos procurariam auxílio médico desde os primeiros sintomas, enquanto que os menos letrados demorariam mais tempo para se tratar.

O atraso no início do tratamento intensifica o câncer e dificulta a cura, o que também explica o número mais elevado de mortes entre os mais pobres. Além disso, os ricos têm acesso a tratamentos mais qualificados e, portanto, morrem menos em decorrência da doença, afirma Menvielle.

Entre as mulheres, as diferenças sociais e intelectuais são bem menos marcantes. Há 20 anos, as mais pobres desenvolviam menos câncer de mama porque tinham filhos mais cedo, um fator naturalmente preventivo. Mas, depois de campanhas de informação e divulgação do auto-exame de prevenção da doença, as mulheres diplomadas conseguiram equilibrar a balança, mesmo que continuem tendo os filhos cada vez mais tarde.

A pesquisadora não sabe informar se existem outros estudos que comparem a ocorrência de câncer entre os países pobres e ricos. Menvielle se limita a afirmar que, na Europa, os países do sul normalmente registram mais casos que os do norte.

Redação Terra
 
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