Mamute que é símbolo da Rússia tinha 'dupla cidadania'

09 de setembro de 2008 • 17h00 • atualizado às 17h00

A ponte terrestre que existiu ocasionalmente cruzando o que hoje é um braço de mar conhecido como Estreito de Bering, entre o Alasca e a Sibéria, é sempre concebida como uma via de mão única. Afinal, a rota pela área conhecida como Beríngia é considerada como o caminho pelo qual muitas variedades de animais, e seres humanos, saíram da Ásia para chegar à América do Norte.

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Mas não existem placas determinando que a rota tivesse mesmo mão única. Alguns animais - por exemplo os ancestrais mais distantes do camelo - percorreram essa via em sentido oposto, da América do Norte para a Ásia. E tampouco existiriam motivos que impedissem que uma mesma espécie se movimentasse em ambas as direções, caso as condições fossem propícias. É isso que parece ter acontecido com os mamutes hibernais, de acordo com um importante trabalho de análise filogenética.

Hendrik Poinar, da Universidade McMaster, em Hamilton, Canadá, e seus colegas estudaram o ADN mitocôndrico de 160 amostras de mamutes obtidas em toda a Eurásia e América do Norte, como maneira de determinar que animais eram aparentados a que outros.

Identificaram diversos grupos, ou clados, alguns dos quais característicos da Sibéria e de outras partes da Ásia, e outros da América do Norte, que foram separados depois da primeira migração dos mamutes rumo a leste, 1,5 milhão de anos atrás.

Mas, de acordo com o relatório dos pesquisadores publicado pela Current Biology, os cientistas constataram que, em determinado momento dos últimos 150 mil anos, mamutes norte-americanos migraram de volta à Sibéria.

"Quando eles começaram a retornar, as populações originais siberianas passaram a se reduzir e, em espaço de 40 mil anos, os mamutes norte-americanos detinham completo controle", disse Poinar.

Determinar se os mamutes siberianos morreram por motivos específicos à espécie (devido ao chamado desvio genético) ou se foram derrotados em termos de competição por recursos pelos parentes retornados da América do Norte é tarefa ainda não realizada, se bem que Poinar suspeita que o fato de que a versão siberiana tenha começado a desaparecer quando do retorno dos mamutes norte-americanos não seja coincidência.

De qualquer maneira, os mamutes que se extinguiram cerca de 10 mil anos atrás não tinham linhagem siberiana. "Não sei se os russos ficarão felizes ao saber que o mamute hibernal, um animal que para eles simboliza seu país, na verdade tinha origens norte-americanas", disse Poinar.

Tradução: Paulo Migliacci

The New York Times
 
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