Pessoas com câncer reaprendem a viver

19 de agosto de 2008 • 19h56 • atualizado às 19h56

Ruth Pennebaker

Estados Unidos


Dizem que o câncer muda as pessoas. E pode ser que tenham razão. Quando descobri que tinha câncer de mama, 12 anos atrás, me tornei comediante. Não do tipo que as pessoas pagam ingressos para assistir. Mais do tipo que perde tempo em corredores e salas de exame em hospitais oferecendo opiniões excêntricas, respostas engraçadinhas e comentários absurdos.

Para minha oncologista, uma mulher baixinha e muito direta que me informou que meu tumor era "muito agressivo", me queixei de que não gostava muito do título do panfleto que me havia dado, "você e a quimioterapia", alegando que preferiria ler "a quimioterapia e outra pessoa".

Também me queixei do texto que descrevia as atividades extra-medicinais de minha doutora, falando de sua família e de seus hobbies. Eu não tinha problemas quanto à família, mas hobbies? Eu não queria saber de uma médica que tivesse hobbies. Queria que ela dedicasse todos os instantes que passasse acordada concentrada na cura do câncer, especialmente câncer do tipo apontado no meu desagradável relatório patológico.

Para todas as demais pessoas, especialmente as equipadas com casacos brancos de laboratório e carregando grande agulhas, eu anunciei que estava escrevendo um livro sobre câncer, e me esforçava por parecer uma daquelas pessoas que adoram abrir processos judiciais em todas as conversas que mantinha com eles.

Em meio a tudo isso - às respostas engraçadinhas, às piadas, à tagarelice - eu fazia apenas uma idéia indistinta do que estava fazendo. O que eu queria era me transformar em alguém especial, em uma personalidade reconhecível, em um ser humano pleno, memorável, em lugar de apenas mais um paciente de câncer. Eu já havia perdido a pessoa que costumava ser - uma mulher saudável e enérgica de 45 anos. Não me sentia capaz de perder ainda mais.

Outros amigos desenvolveram outras maneiras de criar individualidade no mundo do câncer.

Uma delas, psiquiatra, costumava questionar cada decisão médica tomada sobre o seu caso. Outra, que não era tímida nem antes da doença, costumava aterrorizar os técnicos de laboratório. "Você só tem uma chance de me espetar e encontrar uma veia", ela costumava dizer. "Se acha que não vai conseguir, então procure alguém que consiga".

Também me reconfortava lendo o relato muito bem escrito, e ocasionalmente hilariante, de Anatole Broyard sobre a sua batalha contra o câncer.

No livro Intoxicated by My Illness embriagado pela minha doença, publicado em 1992 dois anos depois de sua morte por câncer de próstata, Broyard, crítico literário e editor do New York Times, conta como decidiu dispensar um conhecido cirurgião porque não estava satisfeito com a maneira pela qual ele usava a touca cirúrgica na sala de operações. Na descrição do paciente, parecia que o médico "tinha uma camisinha na cabeça".

Na visão de Broyard, "uma doença crítica é como uma grande permissão, é como uma espécie de autorização, de absolvição. Para um homem cuja vida está ameaçada, é aceitável ser romântico, até mesmo maluco, se for essa a sua inclinação. Você passa a vida supondo que precisa reprimir sua loucura, mas quando adoece pode expô-la ao mundo em suas corres mais berrantes".

Sim: foi exatamente isso que eu também experimentei. As cores berrantes, a loucura e a liberdade, a clareza dolorosamente nítida sobre o que era importante e o que não era. Era como se, eu ocasionalmente sentia, minha vida tivesse passado quase toda em sono. Mas naquele momento eu estava completamente desperta.

Mas à medida que meus tratamentos prosseguiam - o cateter em meu peito, a quimioterapia, os medicamentos de combate à náusea, a calvície, a fadiga, a radiação -, a clareza e a animação começaram a desaparecer.

Certa noite, no teatro, percebi uma mulher do lado oposto do teatro. Ela tinha idade parecida com a minha, era vibrante, atraente. Completamente diferente daquilo que eu me havia tornado nos últimos meses. Terminei por afundar em minha cadeira, me sentindo esgotada, vazia e velha.

Quando fiz minha visita à oncologista, ao final do tratamento, me senti perdida. A imagem que ressurgia constantemente em minha mente era a de que alguém com um par de pinças gigantes havia me apanhado, sacudido e devolvido ao chão. O que viria a seguir?

"Eu sinto que preciso perguntar", eu disse à oncologista, "como devo viver, agora".

Ela me disse que eu deveria continuar vivendo como fazia antes da doença -trabalhando, tomando conta dos meus filhos, aproveitando a vida ao máximo. Que deveria fazer o que quisesse. Podia levar uma vida normal.

Quando saí do consultório, realizei até que ponto eu havia perdido a mim mesma ao longo dos meses transcorridos desde que soubera da doença. Era preciso que eu encontrasse como recordar quem sou.

"Você poderia me dizer quem eu sou, agora?" - nunca fiz essa pergunta à minha oncologista. Provavelmente ela teria pensado que eu como sempre estava brincando, como havia se acostumado a me ver fazer.

The New York Times
 
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