Anahad O' Connor
Estados Unidos
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Uma mulher informou ao instrutor que havia perdido diversas aulas porque estava sofrendo de fadiga, um dos efeitos colaterais dos remédios que toma para combater o câncer. Outras usavam fitas coloridas nos braços, como forma de proteção contra o linfedema, uma forma dolorosa de inchaço dos braços causada por cirurgias de câncer de mama.
Patrocinada pelo Centro Médico Sloan-Kettering, essa turma de pacientes de câncer já freqüenta o centro já há algum tempo, e constitui uma espécie de comunidade isolada.
Mas nos últimos anos, depois de estudos que indicaram que exercícios podem ajudar a combater os efeitos do câncer, a turma vem ganhando cada vez mais companhia.
Academias e centros de exercícios começaram a se esforçar por atender a pequena mas crescente demanda de programas dirigidos a não só apressar a recuperação mas combater a fadiga da quimioterapia, os inchaços dos linfedemas e a perda de tônus muscular.
Sempre houve pacientes de inclinações atléticas que se mantiveram ativos, e até mesmo competitivos, apesar do diagnóstico de câncer. Um exemplo notável recente é o de Eric Shanteau, um nadador da equipe olímpica norte-americana, que decidiu deixar de lado sua cirurgia de câncer testicular até depois de ter competido em Pequim.
Mas a maioria dos cerca de 10 milhões de pessoas que sobreviveram ao câncer nos Estados Unidos não são versões amadoras de Lance Armstrong.
Muitos, porém, se deixaram inspirar por celebridades como o ciclista, que eles vêem como modelos sobre como se recuperar dos efeitos muitas vezes debilitantes dos programas de tratamento de câncer.
Um novo programa da Associação Cristã de Moços, em parceria com a Fundação Lance Armstrong, oferece aulas de exercícios para pacientes de câncer em mais de uma dúzia de locais, em 10 Estados norte-americanos.
Na Curves International, uma academia feminina de ginástica em Filadélfia, pesquisadores do Centro de Câncer Fox Chase estão estudando se pacientes de câncer de mama que apresentam excesso de peso conseguem seguir o ritmo de treinamento da Curves por seis meses. E outros sobreviventes estão organizando suas próprias aulas.
"Costumava existir esse entendimento de que, se você está sendo tratado, deve ficar na cama", disse Pam Whitehead, arquiteta que sobreviveu ao câncer uterino e criou o Triumph Fitness Program, em academias de Modesto e West Sacramento, na Califórnia.
Em alguns casos, os oncologistas estão prescrevendo exercícios, e gentilmente insistem junto aos pacientes para que estes realizem qualquer forma de atividade física que lhes pareça confortável: caminhadas, alongamento simples, exercícios com faixas elásticas.
"Comecei em 1992, e aquela era realmente uma época em que não muitos pacientes estavam se exercitando", disse a Dra. Alexandra Heerdt, cirurgiã especializada em câncer de mama no Sloan-Kettering que está conduzindo um programa piloto que envolve exercícios.
"Caso um paciente me procurasse perguntando sobre exercícios, eu teria dito que não existiam informações disponíveis". Mas agora, ela afirma, "eles têm muitas escolhas".
Wendy Rahn, 46, professora associada de ciência política na Universidade de Minnesota, sabe bem disso. Depois de uma dupla mastectomia, seus ombros doíam tanto que ela muitas vezes andava encurvada de dor. Então, pesquisando sobre sua doença, descobriu um estudo sobre câncer e exercício físico, datado de 2005.
"Os efeitos - aquilo que chamamos de dimensão de efeitos na pesquisa estatística - eram enormes", ela afirmou. "Eu fiquei imaginando por que ninguém falava sobre isso. Ela havia desistido de se exercitar uma década antes, mas o estudo a inspirou a retornar à academia".
"Comecei a me sentir muito melhor", ela disse. "E me ocorreu que, se estava me sentindo bem daquele jeito, então todo sobrevivente de câncer poderia sentir a mesma coisa".
Por isso, ela criou uma organização sem fins lucrativos chamada Survivors' Training, e em janeiro abriu uma academia de ginástica em White Bear Lake, Minnesota, na qual oferece ioga, exercícios com pesos, Pilates e Nia, uma técnica que combina dança e artes marciais. "Gosto de pensar no que faço como um grupo de apoio que se movimenta", ela disse.
Os especialistas em câncer dizem que a mudança na forma de pensar começou na metade dos anos 80, e coincidiu com a maior conscientização quanto à convergência entre boa forma e boa saúde. Os oncologistas tiveram de enfrentar questões sobre exercícios que jamais haviam ouvido antes. Quanto exercício era permissível aos pacientes, e quando?
Os cientistas também começaram a dedicar atenção ao fato de que pessoas que comiam bem e eram fisicamente ativas apresentavam menos probabilidade de desenvolver câncer.
Em seguida, começaram a perguntar que impacto poderiam ter os exercícios para pessoas que já sofriam da doença, disse o Dr. Charles Fuchs, oncologista do Instituto Dana-Farber do Câncer, em Boston, que estuda a interação entre câncer e exercício.
Nos últimos oito anos, a escassez de pesquisas se transformou em um dilúvio de estudos. Entre eles está o patrocinado pelo Instituto Nacional do Câncer, em 2006, que considerava os efeitos de exercícios moderados sobre pacientes de cânceres de mama e próstata que estavam em radioterapia há seis semanas.
Os pacientes que faziam exercícios diariamente - caminhadas de distâncias cada vez mais longa e exercícios com faixas elásticas - apresentavam menos fadiga, mais força e melhor capacidade aeróbica do que aqueles que não se exercitavam. Essa constatação, e outras semelhantes, foram reproduzidas em diversos outros estudos.
Há também estudos segundo os quais exercícios moderados oferecem benefícios adicionais, como funções imunológicas reforçadas e menores índices de reincidência.
Os estudos do Dana-Farber apontaram que pacientes de câncer de cólon em estado pré-metastásico que realizavam exercícios em caráter rotineiro tinham índice de mortalidade 50% inferior durante o período de estudo do que seus colegas inativos, independentemente do grau de atividade apresentado por ambos os grupos antes do diagnóstico.
Donna Wilson, a instrutora do grupo de pacientes do Centro Bendheim, tenta conduzir as participantes aos exercícios de forma gradual.
Extensões de braços e outros exercícios de movimento que podem aliviar linfedemas foram a abertura do programa, certa manhã recente, seguidos por movimentos de torso. Uma mulher que sofre de câncer de mama realizou uma série de exercícios isométricos.
Wilson, que também é enfermeira, encorajava as pacientes a persistir. Então, olhando a classe, ela se voltou para o repórter e disse: "Elas são incrivelmente fortes".
The New York Times