Atualizada às 12h00
Alicia Chang
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"Isso realmente me anima", disse Goodhartz, 55 anos, professor de matemática no ensino médio, que deu nome ao bicho translúcido e com um exuberante tufo azul. "O nome da família vai estar por aí". E vai estar nadando nos mangues de Belize, onde o animal foi descoberto por outra pessoa.
Goodhartz comprou os direitos do nome junto ao Instituto Scripps de Oceanografia, que lançou seu programa de "nomeie uma espécie" no começo do ano. Essa versão moderna da taxonomia é uma forma de levantar fundos para pesquisas, e muitos grupos estão adotando a tática.
Mas a crescente popularidade do sistema reanimou o debate que tenta determinar se a prática convida a falsas descobertas e se pode levar a descuidos. "É possível conceber que alguém possa inventar uma nova espécie para fazer dinheiro, se isso se provar lucrativo", diz Andrew Polaszek, entomologista do Museu de História Natural de Londres.
A taxonomia é uma das profissões mais antigas do mundo, nascida no século 18 com o botânico sueco Carl Linnaeus, que popularizou o sistema de classificação ainda em uso atualmente. Dos cerca de 30 milhões de espécies, plantas e micróbios na Terra, apenas cerca de 1,8 milhão foram nomeados e identificados até agora.
Tradicionalmente, o descobridor ganha o direito de batizar o novo organismo. Todos os seres vivos têm um nome científico de duas partes, geralmente em latim. É comum que os descobridores nomeiem uma nova descoberta em homenagem a seus cônjuges, filhos, colegas, benfeitores ou até mesmo celebridades.
Nos últimos anos, nomes de espécies deixaram de ser nomeadas por seus descobridores para serem leiloados ou vendidos a fim de financiar pesquisas, já que outras fontes de recursos secaram. Nem todas as espécies são criadas da mesma forma. Quanto mais raro e evoluído o organismo, maior é a quantidade de dinheiro que tende a angariar.
Doug Yanega, entomologista da Universidade da Califórnia em Riverside, quer que um centro de referência revise e publique os nomes dos animais. Hoje, o anúncio de novos nomes de animais termina espalhado entre muitas publicações científicas - algumas das quais conduzem revisão científica menos rigorosa das descobertas.
Esforços globais estão acontecendo para catalogar espécies, mas eles tendem a listar nomes existentes, e a participação é voluntária. O Censo da Vida Marinha, que tem por foco animais marinhos, no ano passado confirmou 122,5 mil nomes de espécies marinhas, e até agora e 56,4 mil casos de nomes diferentes dados à mesma espécie através dos anos.
Yanega não vê problemas em que cientistas sérios vendam os direitos de batizar espécies para financiar seu trabalho, mas ele teme que pessoas sem ética vejam nisso um meio para fazer dinheiro. "O potencial para abuso ainda é muito grande", disse Yanega. "É muito fácil montar um esquema e explorar o sistema".
Como funciona
A maioria dos pesquisadores diz que falsificar nomes de espécies é uma ocorrência rara, mas que isso pode mudar caso a prática se torne rentável. A Comissão Internacional de Nomenclatura Zoológica, que publica as regras de nomes de animais, não tem uma posição sobre o caso, disse Ellinor Michel, que lidera o grupo.
Na Scripps, antes de um animal ser colocado à venda, pesquisadores fazem um levantamento de antecedentes em jornais científicos e realizam testes de DNA para ter certeza de que ele é único.
"Não ofereceríamos o nome de uma espécie a menos que estivéssemos absolutamente certos de que ela jamais foi descrita", disse Greg Rouse, curador da Scripps, em honra de quem um anelídeo australiano em forma de espanador - Pseudofabriciola rousei - foi batizado por um colega.
Rouse também foi o descobridor do verme que leva o nome de Goodhartz. Ele o localizou em um mangue subaquático, durante um mergulho ao largo da costa de Belize dois anos atrás. Trata-se não só de uma nova espécie mas de um novo genus de anelídeos de Belize, ele afirma. Ainda que a espécie deva receber o nome goodhartzorum, Rouse ainda não decidiu que nome dará ao genus.
Em nome da natureza
Entre os mais bem sucedidos dos grupos de preservação ecológica que patrocinam nomes de espécies está a organização sem fins lucrativos alemã Biopat, que arrecadou US$ 700 mil, cerca de R$1,1 milhão, para defender a biodiversidade, desde 1999, com a venda dos direitos a nomear mais de 100 espécies, variando de rãs e besouros a aranhas.
Diversos leilões online que conquistaram a atenção da mídia atraíram atenção para a questão dos direitos de nomeação.
Em 2005, a Sociedade de Conservação da Fauna arrecadou US$ 650 mil para proteger uma nova espécie de macaco na Bolívia. O primata recebeu o nome do responsável pelo maior lance no leilão, o site online de jogos de azar GoldenPalace.com, conhecido por suas aquisições exóticas, como a metade de um sanduíche grelhado que, segundo seu proprietário, trazia uma efígie da Virgem Maria.
O nome científico do macaco - Callicebus aureipalatii- que dizer "palácio dourado", ou Golden Palace, em latim, mas o animal se tornou informalmente conhecido como macaco goldenpalace.com.
No ano passado, o Museu de História Natural da Flórida arrecadou US$ 40,8 mil, de um doador anônimo, cerca de R$ 65,15 mil, que adquiriu o direito de nomear uma nova espécie de borboleta mexicana. A espécie recebeu o nome de uma mulher, já falecida, cujos três filhos foram soldados na Segunda Guerra Mundial.
O zoólogo Jon Norenburg, do Museu Nacional Smithsonian de História Natural, nada tem contra o comércio de nomes, já que a taxonomia tem uma longa tradição de vaidade, e a venda de nomes se enquadra a essa tradição. Mas ele alertou que o nome que o comprador pode preferir talvez não receba aprovação científica.
Investimento incerto
"Os doadores precisam estar sempre cientes de que existe a possibilidade de que o nome escolhido seja rejeitado", ele disse. "É como investir em finanças. Você precisa estar atento às letrinhas miúdas".
Além do anelídeo de Belize, a Scripps já vendeu um anelídeo australiano a uma mulher que planejava dar ao animal o nome de seu marido, como presente de aniversário de casamento; e um verme espinhento pelo qual a fabricante de celulares Nokia pagou US$ 10 mil, aproximadamente R$ 15,9 mil.
A empresa planeja dar ao animal o nome latinizado de seu slogan, conectando pessoas. Goodhartz jamais percorreu selvas ou mergulhou em águas perigosas em busca de novos espécimes. Mas ele conquistará a imortalidade científica, ainda que compreenda que sempre haverá quem discorde do caminho que escolheu.
"Não conquistei o direito a essa honra, como um cientista faria", ele reconhece. "Mas, se ajuda a Scripps, que mal faz?"
Tradução: Amy Traduções
AP
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Jeff Goodhartz com foto de nova espécie que será batizada goodhartzorum
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