Atualizada às 18h05
Abby Ellin
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Mas o prazer visual da paciente não era a única preocupação de Chynn. A esperança dele era que ela curtisse tanto o espetáculo que decidisse postar o vídeo de 10 minutos no YouTube, acompanhado pelas credenciais do oftalmologista, um link para o seu site e uma crítica muito positiva de seu trabalho.
Como incentivo, Chynn oferece à paciente ou uma injeção de botox no valor de US$ 400 ou um desconto de US$ 100 no custo da cirurgia, US$ 5 mil. A técnica Lasek, ao contrário da Lasik, não envolve cortar uma dobra da córnea.
"Pensei que aquilo era meio esquisito, imaginando quem iria querer ver minha cirurgia", disse Wilder, 25 anos, contadora que trabalha em Manhattan. "Mas depois pensei que era só o olho, ninguém veria mais nada sobre mim, e por isso decidi postar o vídeo". Que mal poderia haver em um desconto, ela pensou?
Vantagem para os dois lados
Médicos vêm há muito solicitando a colaboração de seus pacientes para fazer publicidade - vejam quantos pares de médicos e pacientes aparecem juntos em programas de entrevistas e informerciais. Mas a questão de os médicos pagarem ou recompensarem os pacientes de maneira material, violando as normas de muitas das organizações médicas, nunca foi decidida.
O que se tornou claro agora é que os médicos oferecem abertamente descontos e outros incentivos monetários a pacientes que se disponham a postar vídeos de seus implantes de seios, dentes branquíssimos ou plásticas de nariz ¿ ou que se deixem filmar tecendo loas às qualidades de seus médicos.
A maior parte dos pagamentos oferecidos por vídeos postados em sites de distribuição gratuita como Revver, Yahoo e YouTube são modestos. Descontos de algumas centenas de dólares. Uma aplicação de Juvederm que normalmente custaria US$ 800. Mesmo assim, a prática suscita questões junto aos patrulheiros da ética médica e aos defensores dos consumidores.
Propaganda online
Médicos - e pacientes - aderiram com o maior vigor à mania de postar vídeos na Internet. Se você digitar a palavra "Botox" no YouTube, encontrará cerca de 2,4 mil vídeos como retorno. "Implante de seios" traz mais de dois mil resultados, e "Lasik" outros dois mil.
Alguns deles foram produzidos por companhias de marketing como a Spore Medical e a SalemGlobal Internet, ambas as quais começaram a oferecer pacotes de vídeo no ano passado, enquanto outras são gravados e editados por membros das equipes médicas. (No caso de Chynn, a câmera fica anexa diretamente ao laser, para propiciar um efeito de presença direta no vídeo.)
Os vídeos que mostram imagens detalhadas de agulhas perfurando rostos enrugados, bisturis cortando a pele e cirurgias oculares que lembram um pouco o filme Laranja Mecânica são tanto perturbadoras quanto fascinantes.
Nem todas as imagens são sangrentas. Algumas aspiram à condição de pequenos documentários, com linhas narrativas: "Um dia na vida do Dr. X. e de sua paciente que tinha um narigão e seios pequenos mas hoje é completamente feliz".
Todos os 15 médicos entrevistados para este artigo não viam nada de reprovável em termos éticos na idéia de remunerar pacientes por elogios cintilantes. "Não é um conflito real de interesses", porque os descontos são muito pequenos, disse Chynn. "Cobro US$ 5 mil pela cirurgia. Se o desconto fosse de US$ 1 mil, seria um problema".
Além disso, afirmou, apenas cerca de 10% dos pacientes a quem ele pede postam imagens de suas cirurgias na Internet. "Caso isso representasse um verdadeiro conflito de interessantes, então 90% dos pacientes o fariam, porque valeria a pena para quase todos eles", disse Chynn. "Os moradores de Nova York são pessoas ocupadas. Não estão em Kansas. Não estamos falando de Dorothy e Toto".
Críticas
Alguns dos estudiosos da ética médica não concordam muito. "É decepcionante perceber que o comercialismo começa a ganhar terreno em uma profissão que deveria ser muito altruísta", disse Ruth Fischbach, professora de bioética e diretora do Centro de Bioética na Universidade Colúmbia.
"Caso você concorde em fazer seu depoimento em vídeo no You Tube, será que o médico o tratará melhor do que a um paciente que se tenha recusado a fazer o mesmo? Os pacientes ficam sob intensa pressão. Caso a pessoa seja multimilionária, ela provavelmente rirá da idéia. Mas se alguém estiver precisando de dinheiro para encher o tanque de gasolina de seu carro... US$ são US$ 100".
Um desconto de US$ 100 bastou para silenciar um paciente insatisfeito, que pediu que seu nome não fosse revelado porque ele continua em tratamento depois de uma operação realizada seis meses atrás. Não importa que o vídeo tenha sido colocado online quase imediatamente, antes que ele tivesse tempo de se curar de fato.
"Não importa que eu esteja ou não satisfeito - isso não me impediria de postar. É dinheiro no bolso". E, na verdade, ele não ficou satisfeito com os resultados do procedimento mas manteve online o vídeo de elogio ao médico.
Os defensores dos direitos dos consumidores dizem que descontos e pagamentos podem pôr fim às resenhas independentes sobre a qualidade do tratamento médico. "Com depoimentos pagos, corremos o risco de que os cifrões influenciam a opinião dos pacientes e que eles não estejam necessariamente dizendo a verdade", disse Alison Preszler, porta-voz do Better Business Bureau.
"Quando você fala de um encanador, o pior que pode acontecer é que sua casa fique com um vazamento. Mas no caso de um cirurgião plástico você pode passar o resto da vida parecido com o Homem Elefante".
Prática debatida"Nossas normas éticas dizem que, em caso de publicidade, os membros não devem pagar ou oferecer presentes valiosos de qualquer espécie a membros da mídia", diz o Dr. Richard D'Amico, presidente da sociedade. "A questão é determinar se a Web é uma forma de mídia profissional, e minha opinião é de que é".
A Academia Americana de Oftalmologia, que congrega os oculistas dos Estados Unidos, também alerta que remuneração financeira aos pacientes que fazem depoimentos favoráveis é uma prática reprovável, e dispõe que os oftalmologistas associados revelem esse tipo de prática caso recorram a ela.
Nem todos os especialistas em ética médica concordam em que a prática seja um problema, desde que o desconto seja revelado. "Caso um paciente se disponha voluntariamente a abrir mão de sua privacidade ao ter seu procedimento filmado e os resultados postados na Internet, em troca de uma vantagem financeira ou de outra ordem, o que pode haver de errado quanto a isso?", pergunta a Dra. Kathy Faber-Langedoen, professora de bioética e medicina da Universidade Estadual de Nova York em Syracuse.
O problema é que a maioria dos vídeos de marketing não informam que os pacientes estão sendo remunerados. No caso de Jiffy Reed, que apareceu em um vídeo postado no YouTube sobre o trabalho do Dr. Daniel Noor, um odontologista cosmético de Nova York que corrigiu seu sorriso com um aparelho ortodôntico invisível, "eu fiquei tão feliz que teria feito qualquer coisa para retribuir", ela diz. O que o vídeo não menciona é que Noor clareou os dentes da pacientes sem cobrar pelo serviço, que normalmente custa cerca de US$ 700.
Noor não vê problemas nesse tipo de permuta. "Eu só queria agradecer pelo tempo que ela gastou para o vídeo", ele disse.
Propostas tentadoras
Mas e quanto a descontos ou remuneração por postar um vídeo que equivalha a três quartos do custo de um tratamento? E quando um paciente que enfrenta problemas financeiros decidir elogiar um profissional de saúde porque, de outra forma, não poderia pagar pelo trabalho?
No ano passado, Cynthia Goodstein estava batalhando para descobrir como poderia pagar por uma plástica de rosto. Durante uma consulta com o Dr. Payman Simoni, um cirurgião plástico de Beverly Hills, ele perguntou se ela estaria disposta a fazer um vídeo que a mostraria antes e depois do procedimento, e divulgá-lo no YouTube. "Eu provavelmente perguntei se isso me valeria um desconto, e ele me oferece um bom negócio", conta Goodstein, que pagou US$ 3,8 mil em lugar dos US$ 12 mil que Simoni normalmente cobra.
O Dr. Joseph Cruise, cirurgião plástico em Newport Beach, Califórnia, postou 23 vídeos de seu trabalho no YouTube desde 2005. Embora ele tenha dito que não foi difícil convencer pacientes a falar diante das câmeras, o desconto de cerca de 10% que ele ofereceu não atrapalhou. (Ele enfatizou que as cirurgias já estavam marcadas quando ofereceu o desconto aos pacientes em troca de depoimentos positivos.) "O dinheiro os convence a abrir a porta", ele diz, "mas depois que passam pela cirurgia eles ficam contentes por falar a respeito".
Tradução: Paulo Migliacci ME
The New York Times
Chynn oferece uma injeção de botox ou desconto em cirurgia em troca de propaganda na web
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