Brasileiros criam novo tratamento para Mal de Chagas

29 de junho de 2008 • 14h29 • atualizado às 15h43
Barbeiro: o inseto é o hospedeiro do protozoário causador do Mal de Chagas, o  trypanosoma cruzi
Barbeiro: o inseto é o hospedeiro do protozoário causador do Mal de Chagas, o trypanosoma cruzi
27 de junho de 2008
Divulgação

Márcio Adalto
Direto de Ribeirão Preto

São Paulo


Pesquisadores brasileiros conseguiram eliminar entre 90% e 100% dos parasitas que causam a o mal de Chagas do organismo de camundongos infectados. O tratamento experimental resulta na associação entre o único medicamento existente hoje no Brasil para combater a doença, o Bendonidazol, e um composto de óxido nítrico, sintetizado no Laboratório de Imunologia da Faculdade de Medicina da USP de Ribeirão Preto. A mistura potencializa o efeito do fármaco, que foi desenvolvido para estimular as células do sistema imunológico a eliminar e impedir a reprodução do parasita no interior das células do hospedeiro.

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O biólogo e um dos responsáveis pela pesquisa, Paulo Matta Guedes, afirma que o tratamento interferiu diretamente no controle do avanço da doença. "A inflamação que o parasita causa no coração foi reduzida, conseqüentemente, o avanço da doença foi interrompido. Além disso, conseguimos manter a sobrevivência de todos os camundongos", diz Guedes.

"Essa associação permitiu que fosse ativado o sistema imunológico do corpo infectado com o Trypanosoma cruzi, ou seja, ativadas as células do sistema imunológico, para que elas destruam os parasitas que causam a doença", diz o professor Roberto Santana da Silva, responsável pela sintetização do composto de óxido nítrico utilizado no estudo.

A pesquisa começou há três anos. Só agora a equipe iniciou os testes em animais com a doença na fase crônica. Até então, o tratamento era feito somente com os que estavam na fase aguda, período inicial da doença. "Quando o Mal de Chagas passa da fase aguda e entra na crônica o percentual de cura é zero. Por isso, nessa nova etapa da pesquisa, esperamos repetir o sucesso que tivemos quando tratamos a fase aguda", ressalta o pesquisador.

Guedes lembra que a mortalidade causada pela doença é pequena. No Brasil, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), são cinco milhões de infectados e deste total, morrem vinte e cinco mil por ano. No entanto, o Mal de Chagas provoca deficiência cardíaca na pessoa infectada, causando indisposição e cansaço contínuo. "Queremos melhorar a qualidade de vida dessas pessoas, além de buscar alternativas de tratamento que garantam a cura da doença na fase mais avançada", afirma Guedes.

Para o pesquisador Benedito Carlos Maciel, coordenador de um estudo sobre doença de Chagas envolvendo a Argentina, Paraguai e Uruguai, esses resultados contribuirão com outras pesquisas, principalmente nos países onde há maior incidência da doença, que estão em busca do tratamento para a fase mais aguda. "O estudo certamente vai contribuir para uma melhor compreensão dos mecanismos imunológicos que participam da fisiopatologia desta doença", afirma Maciel.

As pesquisas do laboratório em que Paulo Guedes participa já deram origem a três pedidos de patente, inclusive a de associação do Bendonidazol e óxido nítrico sintetizado pela universidade de Ribeirão Preto.

A Doença
A doença de Chagas foi identificada pelo pesquisador brasileiro Carlos Chagas em 1909. Ela é transmitida por insetos, conhecidos no Brasil como barbeiros. Segundo a Organização Mundial da Saúde, quase cem anos depois dessa descoberta, a enfermidade ainda atinge 18 milhões de pessoas na América Latina.

É uma doença predominantemente rural. Sua distribuição estende-se desde o México até o sul da Argentina. Segundo dados da Anvisa, de janeiro a outubro de 2007 foram notificados 100 casos da doença de Chagas aguda no Brasil.

Desse total, quatro mortes foram relacionadas à doença. Os surtos foram registrados em 11 municípios da Região Norte: um do Amazonas, um do Amapá e nove do Pará. Além desses surtos, também foram registrados 12 casos isolados da doença.

A moléstia não tem cura e nem tratamento em sua fase mais avançada. Quando a pessoa é portadora do protozoário Trypanossoma cruzi, transmitida pelo barbeiro, ela pode ficar de 15 a 20 anos ou a vida inteira sem apresentar um único sintoma.

Redação Terra
 
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