ONG: corrupção contribui para crise global de água

25 de junho de 2008 • 18h01 • atualizado às 18h44

A organização Transparência Internacional (TI) advertiu hoje em um novo estudo de que a corrupção é um fator-chave na crise global causada pela escassez de água, que ameaça a vida de milhões de pessoas nos países mais pobres do planeta.

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O relatório de 360 páginas apresentado na sede das Nações Unidas é o primeiro a analisar o impacto e o alcance dos atos de corrupção nas diferentes áreas que formam a indústria da água, afirmaram seus autores.

"A corrupção mata e, embora soe dramático, é o que acontece em muitos países com a água", disse Hakan Tropp, especialista em recursos hídricos do Instituto Internacional de Água da Estocolmo e colaborador da TI.

Segundo Tropp, as distorções e o encarecimento do preço de água causados pela corrupção são, em parte, responsáveis por milhares de mortes no mundo em desenvolvimento pela dificuldade de acesso a este recurso básico.

Milhões de pessoas não têm acesso assegurado à água potável e mais de dois bilhões não contam com serviços sanitários adequados, o que facilita a propagação de infecções e doenças contagiosas, de acordo com a ONU.

A análise identifica problemas em todo o setor, desde pequenas infrações na distribuição de água até pagamentos de altos subornos na construção de grandes hidroelétricas.

Assim, o custo de conectar um lar a uma rede de água aumenta em 30% nos lugares onde esta indústria está infestada pela corrupção, segundo os cálculos dos autores.

Somente este fator aumenta em US$ 48 bilhões o preço para se alcançar os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM), que propõem a redução da pobreza extrema à metade até 2015, segundo estimativas.

"A corrupção na provisão de água potável e de serviços sanitários aparece em todos os elos, desde a elaboração da política ao planejamento, financiamento e manutenção da infra-estrutura", sustenta o relatório.

O documento diz que esta situação interrompe os investimentos e aumenta o preço de água potável, o que explica o custo deste serviço básico ser mais alto nos lares mais pobres de Jacarta, Lima ou Manila que em Londres, Nova York ou Roma.

De qualquer forma, os autores do documento advertiram que os países desenvolvidos não são imunes à corrupção no setor de água, e citam casos em Grenoble (França), Nova Orleans (EUA) e Milão (Itália).

Segundo o estudo, também há "uma corrupção desenfreada" na irrigação de zonas agrícolas, que contribui para frear o crescimento da produção do campo.

"Os grandes investimentos em irrigação anunciados para responder à crise alimentícia não cumprirão seu objetivo, caso não se enfrente o tema da corrupção", disse a presidente da Transparência Internacional, Huguette Labelle, na apresentação do relatório.

Nesse sentido, o estudo explica como as interferências motivadas pela corrupção prejudicaram o investimento de US$ 1 bilhão do governo das Filipinas para criar uma infra-estrutura de açudes para irrigação.

Os autores afirmaram que os atos de corrupção também aumentam em 25% o preço dos contratos de irrigação na Índia e mantêm um "sistema de favores políticos" que terminam por desfavorecer os agricultores pobres.

Outro setor onde a corrupção tem um efeito negativo é a gestão e preservação dos recursos hídricos, que aumenta a desigualdade na distribuição de água e facilita a degradação de espaços ambientais, destaca o relatório.

O documento afirma que as práticas corruptas são um dos fatores por trás da frágil implementação da legislação ambiental na China, onde 90% dos aqüíferos das grandes cidades estão contaminados e 75% dos rios urbanos não podem ser usados para a pesca nem para beber.

O relatório recomenda como medidas de freio à corrupção a adoção da transparência e a participação cidadã na gestão de água, o reforço da capacidade de supervisão dos Governos e o incentivo à concorrência na adjudicação de grandes projetos hídricos.

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