Brasileiros criam alternativa para o soro antiofídico

23 de junho de 2008 • 10h16 • atualizado às 10h24

Márcio Adalto
Direto de Ribeirão Preto

São Paulo


Até hoje, o único tratamento contra o veneno inoculado pelas mordidas de cobras é o soro antiofídico, que utiliza soro de cavalos na produção. O uso desse tipo de soro, porém, pode levar o indivíduo a desenvolver reação à proteina animal. Mas brasileiros estão criando uma alternativa. É o antiveneno, desenvolvido pelos pesquisadores do Laboratório de Imunopatologia Molecular da Faculdade de Medicina da USP de Ribeirão Preto. Ele serve para mordida de dois tipos de serpentes, a jararacussu e a cascavel. Com essa nova forma de produção de antiveneno, a equipe acredita abrir novas perspectivas para, no futuro, se reduzir a produção de soro antiofídico e, até, substituí-la.

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Utilizando engenharia genética, a equipe coordenada pelo professor José Elpídeo Barbosa produziu fragmentos de anticorpos humanos recombinantes, ou seja, proteínas capazes de reconhecer o veneno e inibir algumas de suas atividades, como por exemplo, a miotoxicidade, em que ocorre a destruição de células musculares.

Para essa produção os pesquisadores utilizaram a técnica de Phage Display, que utiliza como ferramenta uma biblioteca de fragmentos de anticorpos humanos, desenvolvida pelo Centro de Engenharia de Proteínas da Universidade de Cambridge (MRC Centre), Inglaterra, pelo grupo do professor Greg Winter. "A biblioteca é composta por bacteriófagos (vírus que infectam bactérias) que expressam na sua superfície fragmentos de anticorpos capazes de identificar uma grande diversidade de alvos, inclusive substâncias tóxicas dos venenos", disse o coordenador.

O veneno da jararacussu e da cascavel foram cultivados utilizando a biblioteca de anticorpos do MRC. Com isso, os que se ligaram às toxinas do veneno foram separados. Em seguida, estes anticorpos foram multiplicados em bactérias, e a cada processo de multiplicação, selecionados os que melhor se ligavam.

"Tanto nos testes in vivo (dentro do organismo vivo) como in vitro (em ambiente artificial), esses fragmentos foram capazes de inibir a atividade miotóxica e a formação de edema num período mais tardio", afirma Barbosa.

Segundo o pesquisador, a produção de antiveneno por esse processo apresenta algumas vantagens. "Não há necessidade de grandes quantidades de veneno, vantagem óbvia para aqueles animais que produzem pouco veneno mas que podem ser letais, como a cobra coral, por exemplo. Também não haveria necessidade de se manter um serpentário grande, além da diminuição de gastos com a fazenda de cavalos, necessária para a produção do soro antiofídico". Ainda segundo Barbosa, as bactérias produtoras destas moléculas são imortalizadas quando colocadas em congelador a -80º.

Barbosa alerta que ainda há um longo caminho a ser percorrido, como aperfeiçoar o método de purificação desses fragmentos numa escala que permita testes mais avançados. "Precisamos conhecer melhor essas moléculas, sequenciando-as para, se necessário, melhorar ainda mais a capacidade de bloquear os venenos", disse o professor.

Além dos benefícios econômicos, uma importante vantagem seria que os pacientes estariam livres da doença que aparece com freqüência no organismo de quem recebe o soro antiofídico. "Com menor ou maior gravidade, quando se forma muitos anticorpos contra a proteína do cavalo, eles começam a formar complexos que podem ser depositados em locais como articulações, vasos e rins. Em uma situação de nova exposição a esses soros, reações imediatas e mais graves, como a anafilaxia, podem ocorrer", afirma Barbosa.

Redação Terra
 
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