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Domingo, 22 de junho de 2008, 08h37 Atualizada às 08h38

Mexilhão vira praga e ameça hidrelétricas nos EUA

Ajoelhado na beira da doca, Wen Baldwin começou a puxar uma corda de nylon cuja ponta oposta desaparecia nas águas do lago Mead. Uma série de objetos estranhos começou a emergir das águas esverdeadas - uma garrafa plástica, um bloco de concreto, um par de chinelos de dedo, uma âncora de aço. E uma camada de pequenos mexilhões listrados cobria cada um dos objetos. "As condições que temos aqui são ideais para esses seres, absolutamente ideais", disse Baldwin, 70, um engenheiro aposentado que trabalha como voluntário do Serviço Nacional de Parques.

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Os detritos recobertos por mexilhões são um sinal inconfundível de um evento que vem ocorrendo de maneira silenciosa e quase invisível - a colonização do rio Colorado pelo mexilhão quagga, um bivalve eurasiano do tamanho de uma unha, dotado de notável ímpeto sexual e de uma desagradável reputação de estrago econômico e ecológico. Como o mexilhão zebra, um parente próximo, o quagga pode aderir tenazmente a superfícies ásperas, como os equipamentos de muitas usinas hidrelétricas e de tratamento de água ao longo do baixo Colorado.

"Eles vão cobrir todos os canos, todas as entradas", disse o Dr. Gary Fahnenstiel, ecologista sênior do Laboratório de Pesquisa Experimental dos Grandes Lagos, parte da Administração Nacional do Oceano e Atmosfera (NOAA) dos Estados Unidos. "Vai ser devastador".

Fahnenstiel está em boa posição para saber. O quagga acarpetou boa parte dos Grandes Lagos, e em larga medida substituiu a variedade zebra, mais conhecida. A invasão do rio Colorado pelo animal, supostamente por meio de espécimes transportados involuntariamente em barcos recreativos que fizeram a viagem de trailer, indica grande perturbação não só para as empresas de infra-estrutura como para toda a ecologia da porção inferior do rio.

Ao remover os nutrientes e microorganismos da água, o mexilhão pode causar graves danos a uma ampla variedade de espécies, entre as quais pequenos invertebrados, peixes e pássaros. "É um animal perigoso", disse Fahnenstiel. "É quase o pior cenário para algo que afete toda a cadeia alimentícia".

A chegada do quagga ao Colorado não deveria causar surpresa. Há quase 10 anos, um pequeno coro de especialistas vêm alertando sobre as danosas conseqüências que poderiam advir caso o mexilhão chegasse ao oeste do país.

Em 1998, um grupo conhecido como 100th Meridian Initiative reuniu biólogos, especialistas governamentais em fauna, administradores de recursos hídricos, ambientalistas e outros interessados no objetivo de impedir que espécies invasoras cruzassem o 100° meridiano, a fronteira histórica entre o leste e o oeste dos Estados Unidos. Por sete anos, Baldwin é o sentinela do grupo no lago Mead.

Em 2001, Baldwin, então presidente da Associação dos Proprietários de Barcos do Lago Mead, ouviu uma palestra de um biólogo da iniciativa relacionada ao mexilhão zebra. O zebra invadiu os Grandes Lagos vindo da Ucrânia, no começo dos anos 80, e se espalhou pelos grandes rios e por mais de 800 lagos da região.

Baldwin fez lobby junto aos funcionários da Área Nacional de Recreação do Lago Mead, pedindo mais inspeções dos barcos recreativos, que trazem mexilhões em seus lastros e em seus poços de iscas. Ele distribuiu brochuras e falou amplamente sobre a ameaça. "Comecei a pesquisar a respeito e criei alguns programas, tentando atrair a atenção das pessoas. Algumas o fizeram, mas a maioria ignorou".

Ele chegou a criar estações de monitoração em docas em torno do lago, mas não encontrou exemplares do mexilhão. No entanto, em janeiro de 2007 Baldwin recebeu um telefonema de um trabalhador do serviço de manutenção da área, que informou ter avistado um mexilhão de aparência suspeita preso a um cabo de aço sob uma doca no lago Mead. Era um quagga. As investigações rapidamente encontraram colônias em todo o lago, em profundidades muito maiores do que as comuns para os zebras. "Estávamos monitorando o lago em busca de mexilhões zebra, e os quagga chegaram sem que percebêssemos".

No lago Mead, um reservatório estreito e profundo com centenas de quilômetros de comprimento criado pela represa Hoover, os quaggas parecem estar a meio caminho de assumir o controle. "Um ano depois de descoberto o primeiro exemplar, se tornou aparente que eles estavam presentes em todo o lago, e em certas áreas eram muito numerosos", disse Kent Turner, diretor de administração de recursos da área de recreação. Amostras obtidas no fundo do lago encontraram concentração de mexilhões da ordem de milhares por metro quadrado, segundo ele.

Como os zebra, os quagga procriam externamente, formando nuvens de velígeros, larvas autônomas que podem flutuar por até cinco semanas antes de aderir a qualquer superfície que lhes pareça atraente. Acompanhando as correntes, os velígeros do quagga flutuaram centenas de quilômetros rio abaixo. Mexilhões adultos foram encontrados bem ao sul, por exemplo na represa Imperial, que fica perto da fronteira entre Estados Unidos e México.

E eles não se detiveram lá. Na represa do lago Havasu, na fronteira entre Califórnia e Arizona, gigantescas estações de bombeamento retiram milhões de litros de água do rio a cada dia para abastecer cidades e fazendas. Atraídos ao aqueduto do rio Colorado e ao canal do Projeto Arizona Central, os velígeros se espalharam em direção leste até Phoenix e Tucson, e a oeste chegaram até San Diego. "Onde quer que o rio os carregue, eles foram", disse Alexia Retallack, porta-voz do Departamento de Caça e Pesca da Califórnia.

A infiltração no Colorado representa um grande desafio para o sistema de água da região ¿ que já está sofrendo desgaste devido à seca recorde. Las Vegas depende especialmente do rio, e obtém 90% de sua água potável no lago Mead. O Distrito Metropolitano de Água, que abastece 26 cidades do sul da Califórnia, utiliza mergulhadores para limpar regularmente os mexilhões que se acumulam nos dutos de entrada de suas bombas no lago Havasu.

Para matar as larvas dos mexilhões, 34 mil litros de cloro (conteúdo equivalente a dois caminhões-tanque) são misturados às águas do aqueduto do rio Colorado a cada dia. "O que queremos fazer é contê-los", disse Ric de Leon, microbiologista que dirige o combate ao quagga no distrito. "Até o momento, temos nos saído relativamente bem".

Funcionários estaduais da Califórnia começaram a conduzir inspeções agressivas dos barcos que chegam ao Estado, e usam até cães farejadores especialmente treinados para encontrar os mexilhões. "Temos os primeiros cães farejadores de quagga do planeta", disse Retallack.

Ladeado por represas, barragens, canais e aquedutos, o sistema hídrico do Colorado parece mais um gigantesco projeto de encanamento do que um rio selvagem, e isso oferece aos mexilhões grande oportunidade de causar estrago. David Pimentel, professor de ecologia na Universidade Cornell e especialista nos efeitos econômicos de espécies invasivas, disse que os custos de manutenção e controle "podem chegar aos bilhões, como aconteceu no leste".

Mais alarmantes, para alguns especialistas, são os potenciais efeitos ecológicos. Fahnenstiel classifica o crescimento explosivo dos mexilhões como a mais significativa perturbação ecológica na história moderna dos Grandes Lagos. "É um a imensa perturbação", ele disse. "E isso não deveria ser subestimado".

No lago Michigan, as populações de peixes despencaram devido ao consumo dos nutrientes aquáticos pelos quagga. "Os peixes estão sofrendo porque não sobra comida para eles", disse Tom Nalepa, biólogo pesquisador no Laboratório dos Grandes Lagos. "Toda a comida está sendo sugada pelos mexilhões. O que estamos presenciando é uma substituição dos peixes pelos mexilhões".

Ao filtrar a água, os quagga aumentam a claridade, permitindo a penetração de luz solar que gera florescimento de algas e crescimento explosivo de vegetação subaquática. Isso pode resultar em "zonas mortas" privadas de oxigênio, como visto recentemente no lago Erie. Ao acumular toxinas filtradas da água, os mexilhões também contribuíram para o botulismo. "Nos Grandes Lagos, o botulismo aviário disparou", disse Fahnenstiel. "Morreram muitas gavias, uma das espécies de ave mais amadas da região".

No rio Colorado, espécies locais de peixes são vistas como especialmente vulneráveis à competição dos mexilhões por alimentos, e o botulismo aviário que os mexilhões transmitem pode ameaçar as águias americanas que vivem em torno do lago Mead.

Os biólogos também alertam que os vetores da expansão do quagga, que chegou aos Grandes Lagos em navios cargueiros e ao rio Colorado em barcos recreativos, continuam abertos a exploração por outras espécies potencialmente destrutivas. Há cerca de 180 espécies externas com populações instaladas nos Grandes Lagos, e a cada ano aparecem novas. Recentemente, a septicemia hemorrágica viral, uma forma de doença viral de origem européia capaz de matar peixes de grande porte, se espalhou por três dos Grandes Lagos: o Huron, o Michigan e o Ontário.

"Todos os moradores da América do Norte precisam se preocupar com as novas espécies que estão chegando aos Grandes Lagos", disse Fahnenstiel. "Não existem mais sistemas geograficamente isolados. Estão todos interligados".

Tradução: Paulo Migliacci ME

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Isaac Brekken/The New York Times Ruínas cobertas de mexilões evidenciam colonização silenciosa do animal no rio Colorado Ruínas cobertas de mexilões evidenciam colonização silenciosa do animal no rio Colorado

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