Atualizada às 09h09
Alex Williams
» Metade da população prefere recicláveis
» Brasil: 1 em cada 4 separa lixo reciclável
» Países podem proibir sacos plásticos
» Fórum: opine sobre o excesso de informações ambientais
Ou não. Um amigo, que também é dedicado ao meio ambiente, recentemente começou a questionar o raciocínio de Burnham. "O argumento dele era que as embalagens de papel são recicláveis e leves, e usam menos energia e água em sua produção do que as pesadas garrafas de vidro, que precisam ser transportadas de volta a uma fábrica para que possam ser limpas e reutilizadas", ela diz. "E eu não faço idéia de qual das duas opções é melhor, e tampouco sei como descobrir".
Burnham, 35, recicla religiosamente, faz encomendas semanais de legumes e frutas a uma fazenda comunitária e transporta suas compras em uma sacola de lona. Mas admite que está sofrendo de uma sobrecarga de informação ambiental vinda de amigos, colunas de conselhos, veículos de mídia, e até de relatórios do governo. Boa parte dos conselhos são conflitantes.
"Dizer que você está confuso e um tanto cheio dessas mensagens contraditórias que existem por aí no sentido de viver com leveza em nosso planeta definitivamente não seria bem visto", ela escreveu em uma mensagem de e-mail. "Mas, que diabos, vou assumir: estou me sentindo um pouco cansada disso tudo". Em outras palavras, Burnham é vítima do "ruído verde", a estática causada por informações urgentes e ocasionalmente imprecisas ou contraditórias, repetidas em volume muito alto e por tempo demais.
Dois anos depois que An Inconvenient Truth, o documentário de Al Gore, ajudou a deflagrar uma nova maré de ativismo ecológico nos Estados Unidos, o ruído verde pulsa em nossa consciência coletiva vindo de todas as direções. Sites mostram Brad Pitt chegando a uma estréia de cinema em seu BMW movido a hidrogênio, e as livrarias oferecem pilhas de títulos como 50 Coisas Simples que Você Pode Fazer para Salvar a Terra; nas lojas, há xampu enriquecido com cânhamo à venda, e absorventes higiênicos fabricados com 100% de algodão orgânico.
Um consumidor consciencioso em termos ambientais não consegue evitar as dúvidas: será que lâmpadas fluorescentes compactas de baixo consumo são mesmo melhores que as lâmpadas incandescentes, ainda que contenham traços de mercúrio? Que salada é mais benéfica, em termos ambientais: aquela que utiliza verduras orgânicas transportadas de caminhão de sua origem a milhares de quilômetros ou aquela feita de alface produzida em escala industrial perto da cidade? Será que a energia nuclear deveria ser apoiada, como alternativa mais limpa à energia gerada pela queima de carvão?
Se até mesmo os ativistas bem-intencionados estão se sentindo confusos, o sujeito médio que dirige um utilitário esportivo deve estar completamente desligado. E alguns ambientalistas temem que o público comece a ignorar suas mensagens antes que mudanças significativas sejam realizadas.
Para o movimento ambientalista, a hora é de reavaliar mensagens e de adotar campanhas mais enxutas, antes que seja tarde demais. "Nós nos preocupamos com isso", disse Carl Pope, diretor executivo da organização ecológica Sierra Club. "Todos nós compreendemos que o ambiente da mídia atual é altamente movimentado, e que a sobrecarga de mensagens é uma das questões dominantes".
Um estudo do Shelton Group, uma empresa de publicidade e pesquisa de mercado sediada em Knoxville, Tennessee, cujo foco de trabalho são os produtos ambientais, demonstrou que os consumidores entrevistados em 2007 tinham entre 22% e 55% menos inclinação a comprar uma ampla gama de produtos ecológicos do que os consumidores entrevistados em 2006.
A desaceleração na economia afeta a tendência, mas a sobrecarga de informação também parece ser um fator importante, disse Suzanne Shelton, presidente da empresa. "O que temos visto em grupos de discussão é uma reação forte contra a ecologia", disse Shelton. Nos últimos seis meses, ela acrescentou, quando a empresa estuda publicidade com temas ambientais "vemos metade das pessoas na sala revirando os olhos: 'Oh, não, chega de mensagens ecológicas!'".
Jen Boulden, fundadora do site idealbite.com, que envia mensagens aos seus assinantes com dicas diárias sobre uma vida mais ecologicamente correta, diz que "cada conversação que venho mantendo, em nível profissional, é sobre o tema da fadiga ecológica, e a necessidade de que evitemos nos tornar irrelevantes".
Ao mesmo tempo, ela diz, os cidadãos mais conscientes em termos ecológicos a procuram para pedir: "me diga só o que preciso saber, me dê o gabarito das respostas".
A necessidade de simplificar a mensagem ecológica se tornou óbvia, ela diz, especialmente depois da discussão sobre as embalagens Nalgene, feitas de um plástico forte e reutilizável. Até a metade do ano passado, as garrafas, vendidas a entusiastas dos esportes, eram elogiadas como boa alternativa às garrafas de água descartáveis, que segundo os ambientalistas representam desperdício de petróleo, tanto em termos de produção quanto de transporte.
Mas alguns grupos ambientalistas e cientistas expressaram preocupação em que o plástico policarbonato, usado na fabricação de garrafas Nalgene, de algumas mamadeiras e de revestimentos para latas de estanho, possa gerar infiltração de bisfenol-a, um produto químico que causa perturbações endócrinas.
Os ambientalistas e os defensores da saúde dos consumidores debateram a questão - usar ou não produtos Nalgene -, e a discussão parecia realmente interminável. (Embora a empresa mencione estudos que indicam a segurança de seus produtos, em abril ela anunciou planos para retirar de produção as embalagens que contenham policarbonatos.)
A água mineral não é a única questão que as pessoas consideram como cada vez mais complexa. "Eu seria um membro muito mais produtivo da sociedade se não tivesse de me preocupar com coisas como lavar louça na pia ou usar a lavadora", diz Erik Michaels-Ober, 24, engenheiro de software em San Francisco. "Há inúmeras histórias conflitantes sobre isso".
Eddie Stern, 38, estrategista de mídia em Durango, Colorado, disse que ele recentemente "endoideceu" enquanto tentava decidir que carro comprar, devido à "sobrecarga de informação, dos veículos noticiosos, Internet, e dos "especialistas que a gente encontra pela rua". Cada informação nova que ele obtinha em suas pesquisas parecia contradizer a anterior.
Alguns ambientalistas defenderam um novo modelo híbrido, e outros disseram que comprar um carro usado com um motor comum significava economizar o imenso volume de energia envolvido na fabricação de um veículo novo. Outros ambientalistas apoiavam o biodiesel, porque ele representa, essencialmente, gasolina cultivada. Outros rebatiam dizendo que o biodiesel também é poluente.
Sten diz que por fim tomou sua decisão (depois de um cara ou coroa), e comprou um Ford Escape híbrido usado, o que ele considerava como o compromisso ideal entre todas as opiniões. Ou pelo menos ideal até que seu irmão, que trabalha no setor de energia solar, perguntasse: "E onde você vai enterrar a bateria?"
Quem é o culpado?
De certa forma, a conscientização mais firme do público quanto ao aquecimento global demonstra que as primeiras campanhas de informação pública obtiveram sucesso, disse Chip Giller, fundador do grist.org, um site de notícias e informações ambientais. Mas em companhia desse sucesso surgiu uma torrente de produtos supostamente ecológicos vindos dos fabricantes. E é a esses vendedores de ecologia, trombeteando alegações que nem sempre encontram confirmação prática, que Pope, do Sierra Club, atribui a culpa pela geração de boa parte do ruído verde.
Mas outros representantes do movimento ambientalista dizem que os ativistas e as organizações sem fins lucrativos também deveriam arcar com parte da responsabilidade, porque bombardeiam as pessoas com mensagens de maneira ininterrupta. "Os grupos que estão tentando convencer as pessoas a mudar seu comportamento as sufocam com informações", disse Diane Tompkins, fundadora da Curious, uma empresa de pesquisa de mercado sediada em San Francisco.
A empresa de Tompkins conduziu diversos grupos de discussão para investigar as barreiras psicológicas que dificultam às pessoas agir para salvar o meio ambiente. Os movimentos de ativismo ecológico "acreditam que, caso eles dêem às pessoas só mais uma razão para que elas ajam, elas certamente agirão", diz a especialista. "Mas o fato é que as pessoas não se deixam motivar porque estão recebendo ainda mais dados. O acúmulo pode simplesmente reforçar sua sensação de desorientação".
Passos simples
Em resposta a essa confusão, o Conselho de Defesa dos Recursos Naturais dos Estados Unidos no ano passado lançou a campanha Simple Steps, um esforço de orientação que divide os conselhos sobre como viver uma vida mais ecológica em três níveis, de acordo com o nível de interesse e de dedicação da audiência à causa.
As pessoas que recorrem ao site simplesteps.org podem selecionar o grau de profundidade da informação que desejam receber com base em uma escolha entre dedicar um minuto, uma manhã ou um mês à adoção de hábitos ecológicos, disse Phil Gutis, o diretor de comunicações da organização.
Os líderes do Greenpeace também decidiram ajudar a audiência a priorizar suas preocupações ambientais, disse Kate Smolski, coordenadora legislativa sênior do movimento. Assim, em lugar de pedir que as pessoas tentem manter o equilíbrio entre compromissos incompatíveis, entre os quais combater os resíduos industriais, a poluição causada pela queima de carvão, o desflorestamento e o risco para a fauna marinha de todo o mundo, a organização agora tenta unificar todas essas causas sob o guarda-chuva do combate às alterações no clima mundial.
Assim, agora, quando a organização promove uma campanha contra o uso da energia nuclear, ela a define como uma "falsa solução" para evitar o aquecimento global. Quando fala sobre o desflorestamento, a organização toma por foco a contribuição dessa prática para o acúmulo de gases responsáveis pelo efeito-estufa na atmosfera.
"Isso ajuda muito", disse Smolski, "a demonstrar que tudo está conectado". E também pode ajudar a ensinar paciência. O combate às alterações climáticas é tarefa para gerações, e jamais haverá um momento determinado em que a sociedade poderá declarar "missão cumprida", disse Paul Hawken, escritor e ambientalista. "Não existem momentos decisivos no meio ambiente. São processos seculares".
A perspectiva é assustadora, se levarmos em conta que, como Hawken mesmo diz, "até alguns membros do movimento vêm sentindo essa sensação de esgotamento".
Tradução: Paulo Migliacci ME
The New York Times
Erik Michaels-Ober lava a louça a mão, em vez de usar a máquina de lavar louça, em San Francisco
Busca
Busque outras notícias no Terra: