Atualizada às 11h00
Norimitsu Onishi
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Convocado pelo governo da cidade de Amagasaki, Minoru Nogiri, 45, em certa manhã recente se viu em uma fila para ter sua cintura medida pelas autoridades. Dada a ausência de barriga perceptível, a chance de que os funcionários do governo o classificassem como acima do peso, ou "metabo", o termo que se usa para designar essa situação no Japão hoje em dia, parecia baixa. Mas porque o novo limite estatal para cinturas masculinas é de 85 centímetros, ele se havia medido ansiosamente, em casa, alguns dias antes. "Estou no limite", afirmou Nogiri.
Sob uma lei nacional que entrou em vigor dois meses atrás, as empresas e os governos locais têm a obrigação de medir as cinturas dos japoneses com idade de entre 40 e 74 anos, como parte de seus exames anuais de saúde. Isso representa mais de 56 milhões de cinturas, ou cerca de 44% da população do país.
Aqueles que excederem os limites prescritos pelo governo - 85 centímetros para os homens e 90 centímetros para as mulheres, idênticos às normas estabelecidas para o Japão em 2005 pela Federação Internacional do Diabetes como norma fácil de identificação de riscos de saúde - e que estiverem sofrendo de doenças relacionadas ao excesso de peso receberão orientação dietética, caso não percam peso em prazo de três meses. Se não houver resultado, as pessoas serão encaminhadas a novos programas de reeducação depois de seis meses.
O Ministério da Saúde japonês argumenta que a campanha ajudará a manter sob controle a expansão de doenças como o diabetes e derrames. O ministério também diz que reduzir o excesso de peso ajudará a conter os custos em rápida expansão dos serviços de saúde, em uma sociedade que está envelhecendo. Esse é um dos mais sérios e mais delicados problemas políticos que as autoridades japonesas enfrentam no momento.
A maioria dos japoneses dispõe de cobertura de saúde pública ou de planos de saúde vinculados aos seus empregos. A ira quanto a um plano que forçaria as pessoas com mais de 75 anos a pagar pelos serviços de saúde que recebem recentemente causou a apresentação de uma moção de censura ao primeiro-ministro Yasuo Fukuda, a primeira vez que isso acontece no país desde a Segunda Guerra Mundial.
Mas os críticos da medida dizem que as normas governamentais ¿especialmente quanto às cinturas masculinas - são simplesmente severas demais, e que mais de metade dos homens serão classificados como acima do peso. O efeito, dizem, será encorajar o uso excessivo de medicamentos e, em última análise, elevar os custos de saúde no país.
Yoichi Oguchi, professor da Escola de Medicina da Universidade Tokai, perto de Tóquio, e especialista em saúde pública disse que "não existe qualquer necessidade" de que os japoneses percam peso. "Não acredito que a campanha terá qualquer efeito positivo. Se algo assim fosse adotado nos Estados Unidos, haveria benefícios reais, porque há muitos norte-americanos que pesam mais de 100 quilos", afirmou Ogushi. "Mas os japoneses são tão esbeltos que eles não podem arcar com o risco de perder peso".
Ogushi na verdade foi um pouco mais rigoroso com os norte-americanos do que estes merecem. Uma pesquisa do Centro Nacional de Estatísticas de Saúde dos Estados Unidos constatou que a cintura média entre os norte-americanos brancos era de 99 centímetros, 2,5 centímetros abaixo da norma estabelecida pela Federação Internacional do Diabetes. As mulheres norte-americanas não se saíram tão bem, com uma cintura média de 92,7 centímetros cerca de cinco centímetros acima da norma de 88 centímetros.
A diferença entre os padrões reflete as variações de altura e de tipo de corpo para os homens e mulheres japoneses. Os números comparáveis para os japoneses são escassos, mas um estudo de 1998 sobre uma amostra de trabalhadores de escritório constatou uma cintura média de 78 centímetros. Mas esse resultado modesto aparentemente não bastou para atenuar as preocupações dos burocratas da saúde do Japão.
Em Amagasaki, uma cidade no oeste do país, o governo municipal está trabalhando agressivamente para medir as cinturas da população, em uma campanha descrita como "checape especial". A cidade precisa medir as cinturas de pelo menos 65% de seus moradores com idade entre os 40 e os 74 anos que sejam beneficiários de planos públicos de saúde, um objetivo "extremamente difícil", reconheceu Midori Noguchi, do governo municipal.
Quando chegou a hora de sua medição, o florista Nogiri entrou em uma cabine onde tirou a camisa, expondo uma barriga lisa com apenas um traço de gordura nos flancos. Uma enfermeira envolveu o corpo dele com uma fita métrica, na altura do umbigo, e ele foi medido em 85,2 centímetros, pouco acima do limite. "Saí mal"¿, disse Nogiri, com uma expressão derrotada no rosto.
A campanha foi iniciada dois anos atrás, quando o Ministério da Saúde começou a bater os tambores quanto ao combate a uma condição médica de que poucos japoneses tinham ouvido falar ¿ a síndrome metabólica -, uma coleção de fatores que ajudam a elevar o risco de desenvolvimento de doenças vasculares e diabetes. Elas incluem a obesidade abdominal, a pressão sangüínea elevada, e níveis elevados de glicose e colesterol. Não demorou muito para que a condição, e seu nome apavorante, se tornassem uma espécie de codinome nacional para excesso de peso.
O prefeito de uma cidade em Mie, um governo regional próximo de Amagasaki, se envolveu a tal ponto na campanha de combate à "metabo" que ele e seis outros funcionários do governo formaram um grupo de perda de peso conhecido como "os sete samurais da metabo". A campanha foi encerrada abruptamente quando um dos membros, um homem de 47 anos que tinha cintura de 99 centímetros, morreu de ataque cardíaco durante uma corrida para perder peso.
Ainda assim, em uma academia de ginástica municipal em Amagasaki, dezenas de residentes ¿ poucos dos quais pareciam sofrer de excesso de peso - dançavam ao som da canção da cidade contra a metabo, que alerta contra o risco de que os botões das calças estourem e saiam voando. "Adeus, metabólica! Vamos fazer juntos os nossos exames! Vamos, vamos, vamos! Adeus metabólica, não espere até adoecer. Não, não, não!"
A palavra metabo tornou mais fácil para os provedores de planos de saúde convencer seus pacientes a perder peso, disse o Dr. Yoshikuni Sakamoto, um médico que trabalha para o sindicato dos funcionários da Matsushita, a empresa que fabrica os produtos da marca Panasonic. "Antes tínhamos de tratar desse tema usando a palavra obesidade, que definitivamente tinha uma imagem desfavorável", disse Sakamoto. "Mas metabo parece muito mais abrangente".
Antes mesmo que Tóquio promulgasse suas diretivas, a Matsushita estava concentrada no peso de seus funcionários, quando de seus exames médicos anuais. No ano passado, Akio Inoue, 30, um engenheiro de 1,70 metro que pesa 108 quilos, foi informado por um médico da empresa que teria de perder peso ou começar a se medicar contra a alta pressão sangüínea.
Depois de uma dieta, ele reduziu seu peso a 82 quilos, mas sua cintura continua mais de dois centímetros acima do limite estatal.
Com a nova lei a Matsushita terá de medir as cinturas não só de seus funcionários mas das famílias deles e dos trabalhadores aposentados. Como parte de seus esforços intensificados, a empresa começou a fornecer aos seus funcionários toalhas de "verificação de metabo" que servem também como fitas métricas.
"Ninguém quer ser apontado como metabo", disse Kimiko Shigeno, uma enfermeira da empresa, sobre a campanha. "Terá o mesmo efeito que as campanhas de combate ao fumo, que levaram os fumantes a ser vistos de maneira negativa".
Empresas como a Matsushita terão de medir as cinturas de pelo menos 80% de seus funcionários para cumprir suas metas, ou pagarão multas de até US$ 19 milhões. A empresa decidiu cortar a metabo pela raiz, começando com a medição das cinturas de todos os funcionários com mais de 30 anos, e patrocinando dias de educação sobre a síndrome para as famílias de seus trabalhadores.
Alguns especialistas afirmam que as normas do governo para todo tipo de indicador, de cinturas a pressão sangüínea, são severas a ponto de tornar impossível que sejam cumpridas ou superadas. Eles afirmam que o objetivo real do governo é transferir custos de saúde ao setor privado.
O Dr. Minoru Yamakado, um funcionário da Ningen Dock, uma associação de médicos japoneses que ministram exames clínicos, disse que endossava a campanha do governo e seu foco na medicina preventiva. Mas ele disse que a prioridade real do governo deveria ser reduzir o número de fumantes, que continua a ser mais alto no Japão do que em qualquer dos demais países avançados, em larga medida devido ao forte lobby do tabaco no país. "O fumo é também uma das causas da síndrome metabólica", disse Yamakado. "Assim, se você se preocupa com a metabo, impedir que as pessoas fumem deveria ser sua maior prioridade".
A despeito das dúvidas, porém, as autoridades japonesas estão seguindo em frente. Kizashi Ohama, um funcionário da prefeitura de Matsuyama, que também agiu agressivamente contra a metabo, disse que ele deixaria o debate quanto aos méritos da campanha aos especialistas e aos funcionários da Saúde, em Tóquio."Como administrador local, posso sentir que existem muitas inconsistências quanto ao projeto", disse. "Mas se minhas ordens são de implementá-lo, eu o farei agressivamente".
Na clínica de saúde pública de Matsuyama, Kinchiro Ichikawa, 62, disse que o limite de 85 centímetros para cinturas masculinas que o governo deseja impor é "severo". Ele tem 1,63 metro, pesa apenas 61 quilos e não conhece ninguém com excesso de peso. "O Japão não deveria se incomodar com isso", disse ele, antes de ter sua cintura medida.
Mas em uma rua comercial da cidade, Kenzo Nagata, 73, proprietário de uma loja de brinquedos, disse que ignorou a carta que o convocava para o exame médico especial. Sua cintura não é problema de ninguém a não ser ele mesmo, ainda que tenha dito que, com 83 centímetros, ele se sente confortável quanto ao limite. Ele afirmou que também vai ignorar a segunda convocação que a cidade pretende fazer aos recalcitrantes. "Não vou", ele disse. "Não creio que isso seja problema meu".
Tradução: Paulo Migliacci ME
The New York Times
Enfermeira mede a cintura de um homem em uma clínica de saúde pública em Matsuyama
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