Sabrina Tavernise
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O Uzbequistão, um país sem saída para o mar que no passado fez parte da União Soviética, representa uma das grandes áreas de desastre artificial da História. Por décadas, seus rios foram desviados para permitir o cultivo de algodão em terras áridas, o que fez com que o Mar de Aral, um grande lago salgado, perdesse mais de metade de sua área, em 40 anos.
Mas velhos hábitos são difíceis de abandonar, e 17 anos depois que a União Soviética desabou, o algodão continua a ser rei , e a destruição ambiental prossegue, sem trégua, o que reduz o rendimento das plantações.
O Uzbequistão é o segundo maior exportador de algodão do mundo, depois dos Estados Unidos, e um terço da sua receita em moedas fortes depende do produto, mas essa situação parece cada vez mais ameaçada pela corrupção, pelo mau planejamento e pela degradação das terras aráveis.
Hoje, muito menos dinheiro é gasto na manutenção das vastas redes de drenagem de água e de irrigação que cruzam o território do que costumava ser o caso na era do comunismo. As autoridades uzbeques investem em média US$ 12 por hectare em manutenção, aproximadamente R$ 19, ante os US$ 120 (cerca de R$ 193) por hectare da era soviética, de acordo com o Instituto Internacional de Administração da Água. Canos de drenagem entupidos elevam o nível do sal na terra, prejudicando as plantações e reduzindo ainda mais o rendimento.
Um relatório da ONU, em 2001, estimava que 46% das terras irrigadas do Uzbequistão sofreram danos devido à salinidade, naquele ano, ante 38% em 1982 e 42% em 1995.
"O sistema de distribuição está dilapidado, o sistema de drenagem está despencando", disse um especialista estrangeiro, que pediu que seu nome não fosse mencionado porque ele trabalha com funcionários do governo uzbeque. "O problema é sério".
Determinar de que maneira isso afetou a produção de algodão é uma questão difícil. O algodão e seu nível de produção se tornaram uma questão política tão disputada que não existem estatísticas nacionais facilmente disponíveis. Mas um padrão de declínio para o setor estava evidente em três regiões, de acordo com números locais obtidos pelo New York Times.
Em Karakalpakstan, a região que abriga o que resta do Mar de Aral, a área total de terra sob cultivo caiu em 14% desde 1991, de acordo com estatísticas locais. Na região de Bukhara, no sul, as terras cultivadas com algodão se reduziram em 15% nos últimos oito anos, e na região de Jizzax, no centro do país, 15% das terras aráveis são hoje salgadas demais para cultivo.
Em Manghit, uma pequena cidade perto de Khujayli, um dos primeiros sinais da presença excessiva de sol surgiu nos anos 80, quando começaram a desaparecer os cogumelos que cresciam nas margens do rio Amu Darya, relembra um agricultor local.
Terras que costumavam produzir 4,5 toneladas de algodão bruto por hectare, agora produzem apenas 2,5 toneladas e, em certas áreas, apenas 1,3 tonelada, disse o agricultor, que pediu que seu nome não fosse mencionado porque as autoridades uzbeques desaprovam que cidadãos do país falem com jornalistas estrangeiros.
"Quando você vê todo esse sal, logo se deixa tomar por pensamentos sombrios e escuros", ele afirmou, explicando que o sal é o que resta quando a água evapora devido à irrigação intensa. "Nada cresce em terras salgadas. É como estar em pé sobre uma sepultura".
Os problemas ambientais do Uzbequistão remontam aos anos 50, quando o líder soviético da era, Nikita Khrushchev, decidiu reforçar a industrialização da agricultura, desviando as águas dos rios para uma complexa rede de canais. A terra começou a lentamente mudar.
O agricultor de Khujayli ainda recorda de uma viagem de carro com seu pai, no inverno de 1954. Eles partiram da cidade de Muynoq, e tiveram de cruzar a superfície gelada do Mar de Aral, cujas águas chegavam à cidade. Agora, a costa do Mar de Aral fica a mais de 80 quilômetros de Muynoq. Nos anos 70, ás árvores de damascos de seu avô morreram. O sal corrói os sapatos, aqui, e embranquece os tijolos. "Nós violentamos a terra por muitos anos", ele diz. "Esse é o resultado".
Tradução: Paulo Migliacci ME
The New York Times
Segundo relatório da ONU, 46% das terras irrigadas do Uzbequistão sofreram danos devido à salinidade em 2001
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