John Tierney
Estados Unidos
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Você tem problemas para seguir uma dieta? Tenha paciência. Dentro de 10 anos, explicou Kurzweil, existirá um remédio que permitirá que você coma o que desejar sem ganhar peso.
Preocupado com os gases responsáveis pelo efeito estufa? Tenha fé. A energia solar pode parecer muito pouco econômica no momento, mas com o progresso exponencial que vem sendo conquistado na nano-engenharia, Kurzweil calcula que ela terá custo/benefício semelhante ao dos combustíveis fósseis dentro de cinco anos, e daqui a duas décadas toda a nossa energia provirá de fontes limpas.
Você está deprimido com a perspectiva da morte próxima? Bem, se você conseguir sobreviver por mais 15 anos, sua expectativa de vida continuará a crescer mais rápido do que o seu envelhecimento, a cada ano. E então, antes que a metade do século se aproxime, você poderá estar presente para testemunhar a Singularidade, a transição revolucionária sob a qual seres humanos e máquinas começarão a evoluir em direção da imortalidade, com software cada vez melhor.
Pelo menos é isso que calcula Kurzweil. O que ele prevê talvez seja bom demais para ser verdade, mas mesmo seus críticos reconhecem que ele não é um propagador de fantasias à maneira da ficção científica. Kurzweil é um futurista com um histórico notável e credibilidade suficiente para que a Academia Nacional de Engenharia norte-americana tenha publicado sua previsão rósea quanto à energia solar.
Ele faz suas previsões utilizando o que ele chama de Lei de Aceleração dos Retornos, um conceito que ele ilustrou no festival com uma história de seus próprios inventos para ajudar os cegos. Em 1976, quando ele foi o pioneiro no desenvolvimento de um aparelho que conseguia registrar páginas de livros e "lê-las" em voz alta, o dispositivo tinha o tamanho de uma máquina de lavar.
Duas décadas atrás, ele previu que "no começo do século 21" os cegos seriam capazes de ler qualquer coisa, em qualquer lugar, usando um aparelho portátil. Em 2002, ele precisou sua previsão, dizendo que isso aconteceria até 2008. Na noite de quinta-feira, no festival, ele exibiu um aparelho do tamanho de um celular e, quando apontou com ele para um panfleto sobre o festival de ciência, o texto foi lido em voz alta sem qualquer dificuldade, pela máquina.
A invenção que ele apresentou, diz Kurzweil, não era mais difícil de antecipar do que algumas das previsões que ele fez no final dos anos 80, como o crescimento explosivo da Internet nos anos 90, e que um computador se tornaria campeão mundial de xadrez até 1998. (Ele estava quase certo: a vitória do Deep Blue em duelo de xadrez contra um campeão humano aconteceu em 1997.)
"Certos aspectos da tecnologia seguem trajetórias notavelmente previsíveis", ele disse, e mostrou um gráfico sobre poder de computação que começa com as primeiras máquinas eletromecânicas, mais de um século atrás. Inicialmente, a potência das máquinas dobrava a cada três anos, e depois, a partir da metade do século, a duplicação começou a acontecer em intervalos de dois anos (o ritmo de avanço que inspirou a chamada Lei de Moore). Agora, a potência das máquinas dobra a cada ano.
Kurzweil dispõe de outros gráficos que mostram um século de crescimento exponencial no número de patentes concedidas, na difusão da telefonia, das verbas dedicadas à educação. Um gráfico de mudança tecnológica recua milhões de anos, e começa com as ferramentas de pedra, mostrando a aceleração ao longo do desenvolvimento da agricultura, da escrita, da Revolução Industrial e dos computadores (veja mais detalhes em inglês no http://www.nytimes.com/tierneylab.)
Essa serena confiança não é compartilhada por neurocientistas como o Dr. Vilayanur Ramachandran, que discutiu os cérebros do futuro com Kurzweil durante o festival. Talvez possa ser possível criar uma máquina de pensar que seja mais empática, afirmou Ramachandran, mas seria difícil reproduzir os circuitos cerebrais por engenharia reversa, porque eles evoluíram de maneira quase aleatória.
"Meu colega Francis Crick costumava dizer que Deus é hacker, não engenheiro", disse Ramachandran. "E ainda que se possa realizar engenharia reversa, não há como criar um hack reverso".
As previsões de Kurzweil são submetidas a intenso escrutínio na revista "IEEE Spectrum", de engenharia, que dedica sua atual edição à Singularidade. Alguns dos especialistas que escreveram para a edição atual endossam a crença de Kurzweil em que seria possível criar seres conscientes e inteligentes, mas a maioria dos observadores acredita que o processo demorará mais que algumas poucas décadas.
Ele está acostumado a essa espécie de pessimismo, e reconhece que o cérebro é muito complicado. Mas se especialistas em neurologia e inteligência artificial (ou energia solar e medicina) não aceitam essas previsões otimistas, ele afirma, é porque as curvas exponenciais de cresci mento são enganosamente modestas, em seus primeiros estágios.
"Os cientistas imaginam que continuarão trabalhando ao ritmo atual", ele me disse depois do discurso. "Eles fazem extrapolações lineares com base no passado. Quando foram precisos alguns anos para seqüenciar o 1% anual do genoma humano, eles se preocupavam com a possibilidade de que o projeto não fosse concluído, mas na verdade o ritmo de trabalho era o correto para uma curva exponencial. Caso você atinja 1% e continue dobrando seu crescimento a cada ano, chegará aos 100% em apenas sete anos".
Kurzweil confia tanto nessas curvas que apostou US$ 10 mil com Mitch Kapor, o criador do software Lotus, em que, até 2029, um computador conseguirá passar pelo Teste de Turing, e conduzir uma conversação com um ser humano que não perceberá que seu interlocutor é uma máquina.
Eu mesmo não confio em que esses gráficos se sustentem em campos que não a ciência da computação, de modo que hesitaria em apostar quanto a uma data específica. Mas se eu tivesse de escolher um lado na aposta quanto a 2029, eu me alinharia Kurzweil. Ele pode estar certo uma vez mais sobre a chegada de uma revolução em data anterior à esperada. E eu odiaria apostar contra a chance de estar presente, desta vez.
The New York Times