Atul J. Butte posa junto ao gráfico de sua pesquisa, que mostra doenças com similaridades em nível molecular |
Andrew Pollack
Estados Unidos
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Ao que parece, um conjunto semelhante de genes está ativo no caso dos meninos que sofrem de Duchenne e dos adultos que sofrem ataques cardíacos.
A pesquisa já está começando a mudar a nosologia, o ramo da medicina que classifica doenças. Doenças aparentemente dessemelhantes estão sendo agrupadas. Doenças que eram consideradas como singulares estão sendo decompostas em mais de uma. Da mesma forma como mapearam o genoma humano recentemente, os cientistas agora querem mapear as doenças, delineando todas as doenças conhecidas e os genes a elas associados.
"Ocupamos agora uma posição única na história da medicina, porque podemos definir as doenças humanas de maneira precisa, única e inequívoca", escreveram três cientistas em artigo publicado no ano passado pela revista Molecular Systems Biology. Essas pesquisas pretendem fazer mais do que simplesmente satisfazer o ímpeto intelectual de organizar e categorizar. Também prometem melhorar os tratamentos e a saúde pública em geral.
Os cientistas estão constatando que dois tumores surgidos na mesma parte do corpo e que parecem semelhantes ao microscópio de um patologista podem diferir muito em termos do que acontece no nível genético e protéico. Certos cânceres de mama já estão sendo tratados de maneira diferenciada de outros devido a marcadores genéticos como receptores de estrógeno e Her2, e também a padrões mais complicados de atividade genética.
"No futuro não muito distante, pensaremos sobre essas doenças com base nos percursos moleculares aberrantes que apresentam, e não com base na origem anatômica do tumor", disse o médico Todd Golub, diretor do programa de câncer do Instituto Broad, em Cambridge, Massachusetts.
A reclassificação também pode ajudar a descobrir medicamentos. "Existem 40 remédios que tratam de doenças do coração, mas nenhum para distrofia muscular", disse Butte. Caso as doenças se assemelhem em alguns de seus percursos moleculares, talvez os remédios contra ataques cardíacos possam ser testados para uso em pacientes de distrofia muscular.
Golub e seus colegas no instituto Broad desenvolveram um "mapa de conectividade" que estabelece perfis de medicamentos com base nos genes que eles ativam, como forma de encontrar novos usos para remédios existentes. A pesquisa também ajudará a melhorar a compreensão das causas das doenças e das funções de genes específicos. Por exemplo, foram descobertos recentemente dois genes que influenciam tanto o risco de diabetes quanto o de câncer de próstata.
Uma maneira consistente de classificar doenças também é essencial para acompanhar a saúde pública e detectar epidemias. A Organização Mundial de Saúde (OMS) promove revisões periódicas de sua Classificação Internacional de Doenças, que é usada, entre outras coisas, para o cômputo de causas de mortalidade em todo o mundo. A classificação também serve de base ao ICD-9, o código usado para cobrança de tratamentos médicos nos Estados Unidos.
A primeira classificação internacional, adotada na década de 1850, tinha apenas 140 categorias de doença, de acordo com o Dr. Christopher Chute, presidente de informática biomédica na Clínica Mayo. A décima edição, adotada em 1993, incluía 12 mil categorias, diz Chute, presidente do comitê encarregado de organizar a 11ª edição, que sairá em 2015.
Esse avanço numérico deriva em larga medida do conhecimento mais profundo e de novas técnicas de diagnóstico que permitem que as doenças sejam distinguidas umas das outras. Pela maior parte da história humana, as doenças foram classificadas e nomeadas com base em seus sintomas, que eram tudo que as pessoas podiam observar.
Linnaeus, cientista sueco do século 18 conhecido por ter proposto a divisão de seres vivos em gêneros e espécies, também desenvolveu uma taxonomia de doenças. Ele computou 11 classes - doenças dolorosas, doenças motoras, manchas e assim por diante -, subdivididas em ordens e espécies. Mas, porque os vírus ainda eram desconhecidos, ele categorizou a raiva como uma doença mental, por exemplo, segundo Chute.
No século 19, vivemos uma grande mudança. Os médicos começaram a compreender como observar o corpo por dentro, e as doenças começaram a ser classificadas por suas características anatômicas ou fisiológicas.
O estetoscópio permitiu que algo que os médicos até então viam como 17 condições diferentes - por exemplo tossir sangue ou falta de fôlego - fosse visto como na verdade uma única doença, a tuberculose.
"O advento do estetoscópio tornou possível unificar a tuberculose", disse o médico Jacalyn Duffin, professor de História da Medicina na Universidade Queens, em Ontário, Canadá. Hoje, o número de genes associados a doenças está se expandindo rapidamente devido aos estudos de associação genômica. Nesses estudos, chips genéticos são utilizados para observar as diferenças entre pessoas que tenham uma doença e pessoas que não a tenham.
Uma área que poderia se beneficiar da classificação genética é a psiquiatria. Devido à dificuldade de medir o comportamento cerebral, o diagnóstico psiquiátrico ainda se baseia essencialmente em sintomas.
Mas o médico Kenneth Kendler, professor de psiquiatria e genética humana na Universidade Estadual da Virgínia, disse que "é extremamente ingênuo supor que as doenças psiquiátricas possam ser reduzidas a categorias definidas por um gene. Cada gene tem no máximo um efeito modesto sobre uma doença".
E outros especialistas dizem que isso pode se aplicar também a outras doenças, e afirmam que a genética não será capaz de definir e distinguir doenças de forma inequívoca. "Não deveríamos esperar, nem obteremos, essa clareza decisiva", diz Fiona Miller, professora associada de política, gestão e avaliação de saúde na Universidade de Toronto.
Ainda assim, Butte considera que uma nosologia de base genética um dia fará com que as classificações atuais sejam vistas como tão bizarras quanto as de 100 anos atrás. Uma categoria na lista de causas de morte usada em 1909, por exemplo, era "visita de Deus". "Imaginem como futuro rirá de nós", ele disse. "Não daqui a 100 anos, mas mesmo daqui a 50 ou até 20 anos".
Tradução: Paulo Migliacci ME
The New York Times