Saúde

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Terça, 6 de maio de 2008, 09h08

Medicina lenta prega o conforto no final da vida

Edie Grieg, 85, caminha mais rápido do que pessoas com metade de sua idade e joga tênis com habilidade considerável. Mas quando o assunto é saúde, ela prefere a "medicina lenta", uma abordagem que encoraja o uso de tratamentos menos agressivos e menos dispendiosos nos anos finais de sua vida.

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Baseada em pesquisas da Escola Médica de Dartmouth, a medicina lenta encoraja os médicos a ir devagar ao estudar tratamentos que podem acarretar riscos elevados e oferecer recompensas limitadas para pacientes idosos, e educa pacientes e famílias sobre como reduzir as visitas a pronto socorros e as internações - cujo objetivo é combater doenças tratáveis, e não a erosão inevitável que a velhice causa.

A medicina lenta, cujo objetivo é confortar e não curar os pacientes, está disponível em número cada vez maior de casas de repouso, mas, para pacientes que vivem em casa um susto médico em geral envolve chamar uma ambulância, sem muitas outras opções.

No final da vida de seu marido, Gieg não teve de enfrentar esse tipo de escolha porque ela vive em Kendal, uma comunidade para idosos que a Escola Médica de Dartmouth mantém em Hanover e se tornou um centro de desenvolvimento dos métodos da medicina lenta. Na Kendal é possível ¿ e até comum - que os moradores decidam não aceitar internações, exames hospitalares, cirurgias, medicação ou dietas especiais.

O termo "medicina lenta" foi cunhado pelo Dr. Dennis McCullough, geriatra da Universidade de Dartmouth que fundou a comunidade de Kendal. Charles Gieg tinha 86 anos e sofria de uma doença cardíaca, um problema intestinal e dos primeiros sintomas de Mal de Alzheimer quando os médicos desconfiaram que ele talvez tivesse também um câncer de garganta.

Um especialista delineou o que ele teria de enfrentar: biópias, anestesia, cirurgia, radiação ou quimioterapia. Edie Gieg duvidava que ele tivesse resistência bastante para se recuperar. A preocupação dela era que os novos tratamentos o fizessem decair ainda mais rápido, gerando um período prolongado de dependência e de piora. Era isso que os Gieg temiam mais que a morte ¿ um ciclo que muita gente chama de "morte por terapia intensiva".

As pessoas mais velhas raramente discutem esse medo, e o mesmo se aplica aos profissionais médicos e às famílias dos pacientes, porque a etiqueta desencoraja o diálogo. Mas na Kendal, que oferece atendimento contínuo, de unidades residenciais independentes a uma enfermaria residencial, a morte e o processo da morte são parte central da conversa desde o começo.

Assim, era natural que Edie Gieg se mantivesse em contato com a enfermeira Joanne Sandberg-Cook durante as consultas de seu marido fora da cidade. "Creio que seja importante que nada seja feito de forma precipitada", escreveu Sandberg-Cook em mensagem de e-mail a Gieg. O médico que o casal havia escolhido, ela explicou "tende a ser um desses caras que querem resolver tudo já". Mas as circunstâncias dos Gieg requeriam tempo "para pensar sobre todas as variáveis".

Sandberg-Cook perguntou se Charley Gieg desejaria tratamento caso estivesse mesmo com câncer. Se não, porque fazer uma biópsia que poderia enfraquecer ainda mais a sua voz? Ou correr o risco que uma anestesia representa, especialmente o de acelerar a demência do paciente?

"Eram questões que eu também tinha em mente", diz Edie Gieg. Os Gieg fizeram sua escolha cuidadosamente, e decidiram que não haveria mais testes ou tratamento. Charley voltou à comunidade para esperar a morte. Decisões como essas não são tomadas de maneira leviana, e nunca sem debate, especialmente em uma sociedade que está envelhecendo.

Muita gente na faixa dos 80 e 90 anos ¿ e seus filhos nascidos como parte da geração baby boom (1946-1964) - querem fazer todo o possível para sobreviver, e médicos são pagos para realizar procedimentos, e não debater se devem ou não ser adotados. Os pacientes que enfrentam os mais altos custos ¿idosos com múltiplas doenças crônicas- são o único grupo que dispõem de cobertura médica completa sob o plano federal de saúde Medicare, o que leva a grandes dispêndios governamentais que, na opinião dos especialistas, será impossível sustentar à medida que a geração baby boom envelhece.

A maior parte do dinheiro é gasto em certos centros médicos acadêmicos que oferecem os testes e remédios mais avançados, e os especialistas mais renomados. De acordo com o Atlas da Saúde de Dartmouth, que compila uma lista de hospitais com base no custo e no volume de tratamentos de saúde oferecidos a pacientes idosos, o Centro Médico da Universidade de Nova York, em Manhattan, por exemplo, gasta US$ 105 mil com um paciente idoso que sofra múltiplas condições crônicas, em seus dois anos finais de vida, ante US$ 94 mil no Centro Médico da Universidade da Califórnia em Los Angeles. Em contraste, o principal hospital de ensino da Clínica Mayo, em Rochester, Minneapolis, gasta US$ 53.432 por paciente.

O Dr. Tom Rosenthal, diretor médico da Universidade da Califórnia em Los Angeles, diz que o tratamento agressivo de pacientes idosos em hospitais de cuidado intensivo pode ser "desumano" e que, quando um paciente e sua família recorrem a esse sistema, "é realmente difícil sair".

"A cultura do país e do setor é distorcida em favor de fazer tudo que possa ser feito em casos como esses", disse Rosenthal, acrescentando que o ritmo de trabalho em um hospital também desencoraja "conversas verdadeiramente francas".

Conversar esse tipo de conversa com alguma antecedência, como propõe a medicina lenta, "parece ser o método fundamentalmente mais correto de encarar esse tipo de situação".

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James Estrin/The New York Times Edie Gieg, 85 anos, optou, com o marido Charles, pela medicina lenta: não querem tratamentos no final da vida Edie Gieg, 85 anos, optou, com o marido Charles, pela medicina lenta: não querem tratamentos no final da vida

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