Atualizada às 11h36
John Noble Wilford
As pessoas de posses escapavam da cidade em direção ao campo. O jornal New York Evening Post descreveu: "As estradas, em todas as direções, estão repletas de carruagens lotadas, coches de aluguel, veículos privados e cavaleiros, todos apavorados, fugindo da cidade como, podemos supor, os habitantes de Pompéia fugiram da lava ardente que se derramava por sobre suas casas".
Um assistente do pintor Asher Durand descreveu a cena, perto do ponto focal da epidemia: "Negócio algum se faz por aqui a não ser o do Cólera, Médicos, Papa-Defuntos, Fabricantes de Caixões etc.", escreveu. "Nossa cidade, outrora tão movimentada, apresenta hoje um aspecto sombrio e desolado ¿ pode-se caminhar Broadway acima e abaixo e e mal avistar vivalma".
A epidemia causou 3.515 mortes, em uma população de 250 mil pessoas. (O equivalente atual, com base em oito milhões de habitantes, seria de 100 mil mortos.) Aquele momento tenebroso foi retratado em desenhos, mapas, listas de mortos e outros artefatos de época que agora integram uma exposição chamada "Plaga em Gotham! Cólera na Nova York do Século 19", em cartaz até 28 de junho na Sociedade Histórica de Nova York.
O surto, na forma retratada pela exposição e por outros documentos, colocou em destaque as vulnerabilidades da vida em uma cidade superpovoada, durante uma era de saneamento deplorável e antes que a ciência médica houvesse reconhecido o papel dos germes no desenvolvimento de doenças. As cidades cresciam mais em termos de população do que da compreensão daquilo que seria necessário para torná-las salubres ¿um problema urbano provavelmente tão antigo quanto os sumérios da Mesopotâmia.
A resposta inicial à epidemia, de acordo com Kenneth Jackson, professor de História na Universidade Colúmbia, expôs mais que nunca as divisões de raça, classe e religião na cidade. A doença atingiu com mais violência os bairros mais pobres, especialmente o cortiço conhecido como Five Points, onde negros e imigrantes irlandeses católicos viviam em meio ao mau cheiro e à imundície.
"Outros moradores de Nova York encaravam as vítimas com desdém", disse Jackson, editor da Encyclopedia of New York City. "Se você contraísse cólera, a culpa era sua". Ao contrário da maioria dos moradores de classe mais alta, John Pintard, respeitado líder cívico que foi um dos fundadores da sociedade histórica, decidiu permanecer na cidade. As cartas dele a uma de suas filhas são parte da exposição.
A epidemia, ele escreveu, ostentando atitude semelhante à de seus pares, "se restringe quase exclusivamente às classes mais baixas, as pessoas destemperadas, dissolutas e imundas que vivem amontoadas como suínos em suas habitações poluídas".
Em outra carta, ele pronuncia julgamento ainda mais severo: "As pessoas adoentadas devem ser curadas ou morrer, e por serem em geral membros da escória, quanto mais rápido (seu) fim, mais cedo a doença se irá".
O Dr. David Ho, cientista médico da Universidade Rockefeller, aponta as semelhanças entre as opiniões relativas ao cólera e a reação inicial à mais recente epidemia a apanhar a ciência de surpresa, a da aids. Quando os primeiros casos de aids foram reportados, em 1981, as vítimas eram quase todas homens, brancos e homossexuais. Eram tratados como párias.
"Foi uma retomada da experiência do cólera", diz Ho, presidente-executivo e fundador do Centro Aaron Diamond de Pesquisa da Aids. "A causa da doença era desconhecida, e ela afetava um subgrupo populacional específico. Era fácil imputar a culpa pela doença ao estilo de vida das vítimas".
A ameaça do cólera terminou por levar as cidades a começarem a limpeza de suas áreas deterioradas. Isso não aconteceu em tempo de beneficiar as vítimas da epidemia de 1832 em Nova York, ou mesmo as da epidemia seguinte, em 1849. Àquela altura, a população da cidade havia dobrado, para 500 mil pessoas, e o cólera matou 5.071 delas.
Em 1832, a cidade havia se estendido em direção ao norte até a altura do que hoje é a rua 14. As pessoas que viviam nos bairros mais ao sul terminavam forçadas a se mudar pelo influxo de imigrantes. Algumas delas, à procura de um refúgio contra a malária e a febre amarela, criaram uma comunidade em torno de uma aldeia chamada Greenwich.
Ao caminhar por Greenwich Village hoje, muita gente repara nas casinhas de tijolos portando placas com datas imediatamente posteriores a 1832. Talvez não tenha sido por coincidência que o carroceiro John Blauvelt, que trabalhava nas docas da cidade, tenha construído a sua casa na altura da rua 10 (então rua Amos) no ano posterior à epidemia de cólera.
Mas a despeito das epidemias de 1832 e 1849, muita gente continuava a acorrer a Nova York e outras cidades superpovoadas. No entanto, o primeiro surto serviu para confirmar o apoio à construção do sistema de aquedutos de Croton, a fim de conduzir água limpa do interior do Estado para a cidade.
O projeto foi completado em 1842, e isso pôs fim aos poços de água privados e públicos, muitas vezes poluídos por excrementos humanos e animais. Em 1849, o governo municipal proibiu a presença de corpos nas áreas mais construídas da cidade. Esforço semelhante, poucos anos antes, havia criado tumulto entre os moradores, mas depois da praga a cidade, assustada com a epidemia, cedeu.
Por fim, depois de uma epidemia menor em 1866, e com base em avanços na medicina, foi criado o Conselho Metropolitano de Saúde em 1866, que deu a médicos o poder de inspecionar e limpar a cidade.
As cidades enfim haviam aprendido que epidemias nascem da urbanização, e que cabe a seus governos impedi-las e controlá-las. Ou pelo menos deveriam ter aprendido.
Tradução: Paulo Migliacci ME
The New York Times
Região Five Points em 1827. Cinco anos depois, a epidemia da doença chegou ao seu ponto máximo
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