Relação entre irmãos mistura amor e ódio, diz estudo

22 de março de 2008 • 14h40 • atualizado às 15h11
Estudos tentam decifrar a complexidade da relação entre irmãos
Estudos tentam decifrar a complexidade da relação entre irmãos
22 de março de 2008
The New York Times

Tara Parker-Pope

Estados Unidos


O mundo editorial ficou chocado ao descobrir que Love and Consequences, um suposto livro de memórias sobre a vida em uma gangue, era falso. Mas ainda mais notável foi a maneira pela qual a trapaça veio à tona. A autora, Margaret Seltzer, foi denunciada pela irmã. O caso e a reação da sociedade aponta o interesse em relação ao relacionamento entre irmãs, um misto de amor e ódio.

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Não se sabe ao certo porque Cyndi Hoffman, irmã mais velha de Seltzer, decidiu denunciar a fraude (nenhuma das duas respondeu a tentativas de contato). Mas o incidente ilumina as conflituosas expectativas da sociedade quanto ao relacionamento entre irmãs. Mesmo que tenham criticado Seltzer por sua fraude, alguns blogs expressaram ainda mais raiva de Hoffman, definindo-a como "dedo-duro" e especulando que ela talvez sentisse inveja do sucesso da irmã.

"As pessoas se sentiram quase tão fascinadas por a denúncia ter vindo da irmã quanto pelo resto da história", disse Marcia Millman, professora de sociologia da Universidade da Califórnia em Santa Cruz e autora de um livro sobre o relacionamento entre irmãs. "Temos fortes expectativas de lealdade, da parte de uma irmã", ela acrescentou. "Mas, em companhia da imagem idealizada do relacionamento fraterno, a de que elas devem sempre estar próximas, existe um estereótipo de que irmãs são altamente competitivas. São os dois extremos".

A literatura psicológica está repleta de estudos sobre a complexidade dos relacionamentos entre irmãos, que tipicamente são os mais longos na vida de uma pessoa. E embora boa parte das pesquisas girem em torno de irmãos em termos gerais, o relacionamento entre irmãs recebe muita atenção porque dados de pesquisas sugerem que elas tendem a manter mais contato, quando adultas, do que outros pares de irmãos.

Embora isso signifique maior proximidade entre as irmãs, especialmente à medida que envelhecem, também quer dizer mais oportunidade de conflito e rivalidade. "Uma irmã saberá exatamente o que dizer para animar sua irmã, e também para enchê-la de dúvidas", disse Terri Apter, psicóloga da Universidade de Cambridge e estudiosa do relacionamento entre irmãs.

Os pais gostam de manter a esperança de que seus filhos sempre manterão um relacionamento estreito, mesmo depois de adultos. Mas embora escolhamos nossos amigos e possamos confiar em nossos pais, os irmãos tendem a permanecer em nossas vidas nem por escolha e nem por necessidade. Em lugar disso, eles representam uma fonte de competição pela atenção de nossos pais.

"Há filhos que se sentem forçados a suportar os irmãos", disse Judy Dunn, professora de psicologia do desenvolvimento do King's College, de Londres, e uma das mais renomadas especialistas no relacionamento entre irmãos. "Trata-se de um relacionamento completamente desinibido. Se você se irrita com um irmão, puxa logo o cabelo dele ou diz exatamente aquilo que sabe que servirá para irritá-lo mais".

O papel dos pais
Muitos pais presumem que os filhos virão a superar suas divergências. Mas pesquisas demonstram que o comportamento infantil entre irmãos, bom ou mau, persiste na vida adulta. "Sabemos que muitas provas indicam continuidade", disse Dunn. "As duplas de irmãos que se dão muito bem na infância continuam a ser bastante positivas mais tarde na vida".

Brigar com irmãos é parte normal da infância, e as pesquisas sugerem que crianças pequenas se envolvem nesse tipo de conflito cerca de cinco vezes ao dia, diz Apter. Nas famílias, como na natureza, as batalhas entre irmãos podem ter propósito útil, o de atrair a atenção paterna a ambas as crianças.

No entanto, alguns pais sabotam sem saber o relacionamento entre seus filhos ao atribuir responsabilidade excessiva à criança mais velha. Os filhos mais velhos muitas vezes são forçados a brincar com os mais novos e a cuidar deles, o que cria ressentimento. E alguns pais cometem o erro de tratar os filhos mais velhos como se fossem confidentes, o que perturba o relacionamento entre as crianças.

"Isso representa um fardo para o filho mais velho - transformá-lo em confidente", disse Millman. "Equivale na prática a separar uma criança de suas companheiras". Mas um dos maiores erros cometidos pelos pais é esperar que as crianças sempre resolvam seus conflitos sem intervenção.

"Quando perguntamos aos pais quais são as melhores maneiras de ajudar crianças a administrarem seus conflitos, eles dão as respostas certas: conversar com as crianças, todos unidos; fazer com que cada uma conte seu lado da história; ajudá-las a encontrar solução", conta Laurie Kramer, professora de estudos aplicados da família na Universidade de Illinois, em Urbana-Champaign. "Mas quando você observa o que os pais realmente fazem na prática - e nós o fizemos equipando crianças com microfones sem fio -, percebe que a estratégia paterna mais comum em caso de conflitos entre os filhos é a inação".

Sistema tenta reduzir conflitos
Em estudo que acompanha pares de irmãos do nascimento ao segundo grau, Kramer constatou que a inserção social de uma criança em um grupo de amigos antes que ela venha a ter um irmão pode determinar a criação de um relacionamento mais construtivo.

Com base nessa pesquisa, Kramer desenvolveu um sistema de intervenção cujo objetivo é reduzir os conflitos entre irmãos na faixa etária dos quatro aos oito anos. As crianças que passam pelo programa brincam juntas com menos problemas e se envolvem em interações mais positivas, diz ela.

Em um dos exercícios, os irmãos em conflito recebem cada qual um par de óculos de brinquedo. "Nós os ensinamos primeiro a ver as coisas de sua maneira e depois à maneira do outro", diz Kramer. "Trata-se de um recurso visual que permite transmitir uma idéia abstrata".

"É importante não dizer às crianças que resolvam suas disputas sozinhas¿, afirma Kramer. "Elas precisam estar capacitadas a isso".

Tradução: Paulo Migliacci ME

The New York Times
 
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