Animais em zôo têm nutricionistas e dieta especial

18 de março de 2008 • 14h43 • atualizado às 16h16
Funcionária alimenta leão-marinho surdo Foto: AP
Funcionária alimenta leão-marinho surdo
18 de março de 2008
Foto: AP

Lindsey Tanner

Estados Unidos


Um gorila aos cuidados dos Vigilantes do Peso? Um urso polar tomando gelatina sem açúcar? Girafas degustando biscoitinhos de alfafa? Os dias em que era permitido aos visitantes alimentar os animais até mesmo com marshmallow são coisa do passado na maior parte dos zoológicos dos Estados Unidos, e a nova era envolve atenção muito mais severa à dieta e à nutrição, acompanhando o apego humano à boa forma física.

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Graças ao crescente volume de pesquisas conduzidas sobre as necessidades alimentares de animais selvagens, as equipes dos zoológicos modernos estão tentando novos truques de alimentação para manter seus leões, tigres e ursos saudáveis e contentes. Evitar a obesidade é parte do programa.

Como os seres humanos, muitos animais "são bem comilões. Eles gostam dos alimentos com alto teor de açúcar e gorduras, e não se movem tanto, no zoológico, quanto foram geneticamente programados para fazer", disse Jennifer Watts, nutricionista da equipe do Brookfield Zoo, localizado em um subúrbio de Chicago.

Um fator que complica ainda mais o desafio é que os alimentos são usados para fins de treinamento e para manter os animais estimulados em termos psicológicos. "Enriquecimento" excessivo pode resultar em gordurinhas localizadas, mesmo para ursos e gorilas.

Por isso, Watts começou a desenvolver um programa à maneira do utilizado pela organização Vigilantes do Peso, adaptado aos animais. A idéia é designar pontos aos alimentos, e permitir que os animais recebam um máximo de X pontos adicionais por semana.

Por exemplo, os ursos e gorilas adoram melaço. Os tratadores muitas vezes espalham melaço por diferentes pontos de seus abrigos no zoológico, para manter os animais em movimento. Sob o plano de Watts, uma xícara de melaço valeria um ponto adicional, e barras de granola (uma das guloseimas prediletas dos ursos) valeriam meio ponto por unidade.

"Estamos tentando controlar a ingestão de calorias pelos animais. Nós somos muito vigilantes quanto à manutenção do peso dos animais, porque, como para os seres humanos, excesso de peso pode gerar problemas de saúde", disse Watts.

Os tratadores de animais no zoológico de Indianápolis estão tentando uma abordagem diferente. Em lugar de oferecer doces, que causem engorda, eles preferem oferecer gelatina sem açúcar aos ursos polares da instituição, e escondem copinhos contendo gelatina em pontos distintos da área ocupada pelos animais. "O gosto é bom, mas a comida não tem calorias", disse Jason Williams, nutricionista do zoológico de Indianápolis.

Há outras guloseimas saborosas, entre as quais bolachas com baixo teor de calorias e biscoitos de alfafa especialmente preparados, para as girafas de alguns zoológicos, diz Chris Hanley, nutricionista do zoológico de Toledo, no Ohio. Na instituição para a qual ele trabalha, existe um dia de "banquete" anual, no qual os visitantes ficam autorizados a alimentar os animais com legumes e outras guloseimas saudáveis.

Muitos zoológicos ajudam os animais a evitar hábitos alimentares dignos de um ser humano viciado em televisão escondendo porções de comida em pontos diversos de seus abrigos, e os encorajando a circular mais em busca de comida, como costumavam fazer no mundo natural.

No zoológico de Toledo, os leões e tigres recebem até carcaças inteiras de bezerros, e os lobos são alimentados com os restos de cervos mortos por atropelamento nas estradas estaduais. A idéia primordial é oferecer um método mais natural de comer, livre de aditivos, e que requeira um pouco mais de energia do que simplesmente esvaziar um recipiente.

Alguns zoológicos tentaram espalhar o aroma de animais que os animais costumam caçar, pelos seus abrigos, a fim de convencê-los a se movimentar mais. No zoológico de St. Louis, a técnica inclui o uso de sacos de juta repletos de fezes de cabras, arrastados pelo habitat dos leões. "Não é comida, mas uma espécie de fragrância associada à comida", disse a nutricionista da instituição, Ellen Dierenfeld.

Os nutricionistas apareceram inicialmente nos zoológicos nos anos 70 e 80. Agora, cerca de 20 dos 216 zoológicos e aquários licenciados pelo governo federal dos Estados Unidos dispõem de nutricionistas em tempo integral, e muitos outros empregam nutricionistas como consultores.

Antes que a nutrição em zoológicos ganhasse contornos mais científicos, os animais simplesmente recebiam alimentos semelhantes aos que seres humanos usam para alimentar animais de fazenda ou de estimação. Isso muitas vezes resultava em subnutrição e até mesmo em debilitação óssea e fraturas.

No zoológico de Brookfield, Cookie, a cacatua, é um animal de 74 anos de idade, sempre resmungão, que vive em cativeiro desde muito antes que as necessidades dietéticas de aves exóticas fossem compreendidas devidamente. Cookie gostava de comer sementes, que têm elevado teor de gordura e óleo mas não oferecem o cálcio e fósforo necessários a manter a firmeza dos ossos. "Por cerca de 40 anos, ela só comia sementes", conta a nutricionista, até que o zoológico contratasse um nutricionista.

O resultado foi osteoporose, uma doença que debilita os ossos e aflige também milhões de seres humanos. Agora, os minerais que estavam ausentes são acrescidos à água do pássaro, o que impede que seus ossos continuem a enfraquecer.

"Um dos desafios do trabalho como nutricionista em um zoológico é que não se pode reproduzir a dieta natural de um animal", disse Watts. "Não podemos ir à América do Sul colher os figos ou folhas ou insetos que o animal comeria lá". Em lugar disso, os nutricionistas dependem de pesquisadores que "obtêm amostras do que os animais comem, que espécies eles caça, e nos informam, de modo que possamos analisar as dietas de cada espécie", ela diz. "O melhor que podemos fazer, aqui, é imitar os nutrientes".

Mas, ao contrário da nutrição humana, os nutricionistas de zoológicos precisam tratar das necessidades de múltiplos animais. "Carnívoros, herbívoros, ruminantes... néctar, frutas, sangue, peixe", disse Watts. "Qualquer espécie de estratégia de alimentação está representada aqui neste zoológico, e cada um deles tem requerimentos e necessidades diferentes que têm de ser atendidos".

Tradução: Paulo Migliacci ME

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