Antianêmicos poderiam estimular crescimento de tumores

13 de março de 2008 • 08h24 • atualizado às 08h32

Andrew Pollack

Estados Unidos


As autoridades federais de saúde dos Estados Unidos estão planejando nova reunião nesta quinta-feira para estudar a segurança de remédios contra a anemia que estão em uso generalizado, mas Athanasius Anagnostou vem resistindo à tentação do "eu não disse?" Em 1990, Anagnostou publicou alguns dos primeiros indícios de que o remédio contra a anemia que a Amgen acabava de lançar, o Epogen, poderia fomentar o crescimento de tumores. Pouca gente o levou em conta.

"Muitas pessoas acreditavam que o trabalho que conduzi não pudesse ser reproduzido para comprovação", lembra Anagnostou, que na época era especialista em doenças do sangue na Universidade Brown. Porque não conseguiu obter verbas federais para conduzir novos estudos, ele afirma que terminou por transferir suas atenções a outros temas.

Agora as pessoas estão prestando mais atenção. Oito testes clínicos sugeriram que o Epogen e remédios contra a anemia assemelhados, amplamente usados no tratamento da anemia causada pela quimioterapia de combate ao câncer, podem agravar os tumores ou apressar a morte dos pacientes de câncer.

Nesta quinta-feira, um comitê consultivo da Food and Drug Administration (FDA, agência federal norte-americana que regulamenta alimentos e remédios) estudará a adoção de novas restrições ao uso desses medicamentos - o Epogen e o Aranesp, da Amgen; e o Procrit, da Johnson & Johnson.

Entre as opções que serão debatidas, de acordo com um documento preparatório que a agência postou em site na última terça-feira, estaria a proibição do uso desses remédios para pacientes com certos tipos de tumores ou pacientes que ainda têm a esperança de curar o câncer; outra possibilidade seria proibir os medicamentos para todos os pacientes de câncer.

Mas uma das grandes questões irresolvidas é: se os remédios contra a anemia realmente promovem o crescimento de tumores, como disse um consultor da FDA em reunião do ano passado, qual é o mecanismo envolvido? Qual é o efeito dos medicamentos sobre os tumores, afinal? Todos esses remédios são forma sintéticas de um hormônio humano conhecido como eritropoetina, ou epo, que estimula a produção de glóbulos vermelhos.

O trabalho de Anagnostou apontava para uma possível explicação. As experiências dele sugeriam que a epo poderia estimular o crescimento de vasos sangüíneos capazes de alimentar tumores.

Outra possível explicação seria um estímulo direto da epo ao crescimento dos tumores. Ou uma possível proteção que ela conferiria aos tumores contra a destruição por quimioterapia.

Há um lento acúmulo de indícios que podem sustentar essas hipóteses, mas eles estão longe de conclusivos. Os estudos apresentam deficiências e dados contraditórios. Os estudos com animais, por exemplo, em geral não demonstram que a epo agrava o câncer.

"A sensação é de que existe fumaça, sim, mas não sabemos se existe fogo", disse David Gewirtz, professor de farmacologia e toxicologia da Universidade Estadual da Virgínia. Em seu estudo, Gewirtz constatou que a epo não estimulava o crescimento de células de câncer de mama, em tubo de ensaio.

Quando o Instituto Nacional do Câncer promoveu uma oficina, em dezembro, para discutir se a epo estimulava o câncer, não surgiu consenso algum, a não ser no sentido de que eram necessários novos estudos. O representante da Amgen no evento, C. Glenn Begley, questionou vigorosamente as constatações quanto a um possível estímulo a tumores, de acordo com um sumário do evento divulgado pelo instituto.

A Amgen afirma que não existem provas convincentes de que a epo tenha qualquer efeito sobre o corpo a não ser o de estimular a produção de glóbulos vermelhos. A empresa acredita que o número adicional de mortes entre usuários da epo constatado em testes clínicos possa derivar de coágulos sangüíneos. Os testes clínicos em questão todos empregaram remédios contra a anemia a fim de elevar o nível de glóbulos vermelhos dos pacientes envolvidos de maneira muito mais forte do que seria o caso sob o uso estabelecido dos medicamentos. E, em nível tão elevado de produção de glóbulos vermelhos, coágulos são um efeito colateral conhecido.

"Não existe verdadeira necessidade de oferecer outra explicação", disse Roy Baynes, vice-presidente da Amgen, em entrevista. "Caso os coágulos sejam culpados, a implicação é que o uso dos medicamentos seria seguro nos níveis mais modestos que suas bulas recomendam", afirmou.

Mas se, como argumentam alguns cientistas, a epo estimular o crescimento de tumores de forma direta, até mesmo doses moderadas dos medicamentos poderiam representar risco para os pacientes de câncer.

Diversos cientistas reportaram que certos tipos de células encontradas em tumores dispõem de receptores capazes de detectar a epo e reagir a ela. E reportaram igualmente que a epo estimulou o crescimento de células de tumores em laboratório. Existem até informações de que alguns tumores produzem epo por conta própria, o que implicaria que estejam estimulando seu próprio crescimento ou se protegendo de ameaças.

A Amgen alega que as técnicas usadas para detectar os receptores na verdade estão localizando outras coisas, o que gera falsas leituras.

O estudo de Anagnostou, em 1990, foi um dos primeiros a sugerir que a epo poderia exercer papel diferente. Ele queria descobrir por que o Epogen causava alta da pressão sangüínea, para alguns pacientes. Ele expôs células endoteliais à epo, em tubos de ensaio, e constatou que elas estavam se proliferando. Seu estudo apontava que isso poderia estimular a formação de vasos sangüíneos capazes de alimentar tumores.

Anagnostou, que está semi-aposentado, diz que questões de segurança quanto ao uso da epo foram ignoradas. "As empresas nos garantiram que o uso era completamente seguro, porque os medicamentos afetavam apenas a produção de glóbulos vermelhos", disse.

The New York Times
 
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