Nos últimos anos, amadureceu uma série de estudos realizados por médicos ingleses, dinamarqueses, alemães, norte-americanos e brasileiros relacionando causas externas, de ordem social ou ambiental ao afloramento da esquizofrenia, distúrbio mental até agora associado apenas à genética ou a anomalias no cérebro. A urbanização, movimentos migratórios, a discriminação racial ou traumas como abusos sexuais na infância são vistos hoje como fatores capazes de influenciar o surgimento dessa desordem mental caracterizada pelo progressivo distanciamento da realidade. O que em geral desponta como uma irritabilidade contínua, sem razão aparente, deságua lentamente no isolamento social, no desinteresse pela aparência, no pensamento incoerente e nas falas desordenadas. Nos casos extremos se manifesta por meio das falsas convicções, a exemplo dos delírios de perseguição, ou das falsas percepções, as alucinações, quando não segue para o extremo oposto, o mutismo e a imobilidade quase total,a chamada catatonia.
Até mesmo uma simples infecção pode acionar os mecanismos biológicos que levam à esquizofrenia, problema que atinge cerca de 25 milhões de pessoas no mundo e, só no Brasil, em torno de 1 milhão. Nos anos 70, quando era ainda estudante de medicina, Wagner Farid Gattaz ficou impressionado ao ler os estudos que relacionavam o aumento de casos de esquizofrenia em crianças cujas mães foram atingidas pelo vírus da gripe durante uma epidemia ocorrida na Europa em 1957.
Alguns anos depois, como estagiário num hospital pediátrico de São Paulo, ele examinou crianças que chegavam com vômitos e fortes dores de cabeça, atingidas pela meningite durante a epidemia que surgiu no Estado de São Paulo nos anos 70. Causada normalmente por bactérias, a meningite é uma inflamação das membranas chamadas meninges, que cobrem o cérebro e a medula espinhal, e pode levar à morte em poucas horas.
"Passei 30 anos me perguntando quais poderiam ser as conseqüências da meningite naquelas crianças que sobreviveram depois que se tornassem adultas", diz Gattaz. Foi há poucos anos, como pesquisador do Instituto de Psiquiatria da Universidade de São Paulo (USP), que ele encontrou a resposta. Com seu aluno de pós-graduação André Abrahão, Gattaz avaliou o estadode saúde mental de 173 pessoas (77 homens e 96 mulheres) com idade média de 30 anos que tiveram meningite entre o nascimento e os 4 anos de idade. Comparou com o de irmãos que não passaram pela infecção e constatou que a ocorrência de meningite na primeira infância aumenta em cinco vezes o risco de surgimento da esquizofrenia na idade adulta.
Seu estudo, que está sendo publicado no
European Archives of Psychiatry and Clinical Neuroscience, reforça a hipótese de que fatores infecciosos podem interagir com o organismo de cada indivíduo, de modo distinto, e aumentar o risco para a doença. "Nossa tarefa, agora, é desvendar como essa interação ocorre", comenta. "Conhecendo os fatores de risco biológicos e ambientais, aumentaremos a chance de detectar a doença mais precocemente e assim iniciar o seu tratamento mais cedo." Hoje, a esquizofrenia é tratada por meio de medicamentos antipsicóticos, associados a estratégias de reabilitação e reintegração social e profissional.
Cidades
A delimitação de fatores de risco ambientais da esquizofrenia, debatidos num encontro que reuniu os principais especialistas mundiais dessa área em abril de 2003 no Guarujá, litoral paulista, amplia o olhar sobre um problema mental que tende a ser definido unicamente com base nas observações clínicas dos pacientes. "É preocupante notar que a urbanização e a fragmentação social estão estimulando o avanço rápido da esquizofrenia", comenta o psiquiatra Glynn Harrison, da Universidade de Bristol, Inglaterra, em um estudo apresentado no congresso do Guarujá. "Para os médicos de todo o mundo", diz ele, "o desafio é abrir a caixa preta da cultura e encontrar novas formas de lidar com esse problema."