Animais marinhos "ensinam" camuflagem a cientista

19 de fevereiro de 2008 • 12h39 • atualizado às 14h55
Seqüência de imagens mostra o processo de camuflagem de um polvo Foto: The New York Times
Seqüência de imagens mostra o processo de camuflagem de um polvo
19 de fevereiro de 2008
Foto: The New York Times

Carl Zimmer

Estados Unidos


Os sibas (espécie de molusco marinho) espalhados pelo laboratório de Roger Hanlon pareciam em ótima forma. Suas peles exibiam novas cores e padrões em ritmo mais rápido que o dos painéis eletrônicos de publicidade em Times Square.

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Hanlon inspecionava os animais, semelhantes a lulas, caminhando entre os tanques rasos que os abrigam, e de vez quando interrompia a caminhada para perguntar: "Opa, você viu aquele lá?".

Um dos sibas havia apresentado duas manchas nas costas que tomaram o formato de um par de olhos, estratégia que esses animais utilizam para iludir os predadores. Os falsos olhos se mantiveram estáveis por alguns segundos, e depois desapareceram.

Quando Hanlon colocou o dedo em outro dos tanques, três dos sibas, de porte semelhante ao de um esquilo, adquiriram um tom de chocolate, e um quarto exibia listras brancas onduladas em suas costas e tentáculos. "Olhe o padrão naquele bicho", ele disse, sorrindo, enquanto os sibas se esforçavam por capturar seu dedo.

Nos demais tanques, os sibas apresentavam padrões mais sutis mas igualmente sofisticados. Hanlon ocasionalmente coloca tabuleiros de damas, com quadrados brancos e pretos, dentro dos tanques. A reação dos sibas é formar blocos brancos com beiradas surpreendentemente agudas.

"Por mais horroroso que seja o fundo que forneçamos a eles", diz o pesquisador, 'os sibas sempre tentam se camuflar". Os sibas e animais aparentados, como os polvos e lulas, são os campeões mundiais da camuflagem. Mas Hanlon e seus colegas compreendem apenas em linhas gerais a maneira pela qual esses animais, conhecidos coletivamente como cefalópodes, se disfarçam com tamanha competência.

Hanlon é um dos diretores científicos do Laboratório de Biologia Marinha de Woods Hole, e passou boa parte das três últimas décadas estudando os sibas em seu laboratório e em milhares de mergulhos oceânicos. Ele disse acreditar que enfim tinha desenvolvido uma teoria sobre a maneira pela qual eles conseguem executar sua magia.

Na verdade, diz ele, a explicação poderia se aplicar a todos os padrões de camuflagem adotados por animais como os gafanhotos verdes e os pandas. Apesar de todas as variedades que o mundo da camuflagem apresenta, parece haver um número limitado de maneiras de enganar os olhos.

A carreira científica era uma conclusão inevitável, para Hanlon. Aos 18 anos, ele realizou seu primeiro mergulho, no Panamá, onde avistou um polvo escondido em um recife de coral. Mais tarde, servindo como tenente do exército por dois anos, ele se matriculou no curso de pós-graduação da Universidade de Miami, onde começou a estudar a camuflagem dos cefalópodes.

O cientista passou boa parte de sua carreira embaixo da água, mergulhando nas regiões costeiras rochosas e entre os recifes de coral de lugares como o Caribe, a África do Sul e a Austrália.

Usualmente, Hanlon e seus colegas acompanham um único cefalópode, filmando-o por horas enquanto muda os padrões de sua pele. Em alguns mergulhos, ele emprega um espectrômetro que permite obter medições precisas da luz na água e do reflexo do animal.

O tédio desse trabalho é interrompido ocasionalmente por momentos de magia óptica espantosa. Os cefalópodes não só reproduzem as cores do piso do oceano ou dos recifes de coral como ocasionalmente recolhem e achatam seus tentáculos e os movimentam como se fossem algas marinhas.

Hanlon também já testemunhou polvos na execução do que ele chama de Truque da Pedra em Movimento. Eles assumem a forma e coloração de uma pedra e se movimentam abertamente pelo piso do oceano. Mas não se movimentam mais rápido que a luz refratada que os cerca, e por isso parecem sempre imóveis.

As imagens surpreendentes que o pesquisador registrou já foram exibidas em muitos documentários. Um segmento pirateado está disponível no YouTube, e atraiu centenas de milhares de visitas.

Hanlon está se aproximando de um coral que parece completamente normal, em um mergulho na ilha Grand Cayman. Quando ele está a centímetros de distância, metade do coral subitamente se torna branca e lisa. Um olho se abre, e um polvo que estava agarrado ao coral foge em disparada.

A despeito de milhares de mergulhos, Hanlon ainda se considera novato no que tange a identificar os cefalópodes camuflados. Certa vez, depois de seguir um polvo durante uma hora e meia, ele olhou para o outro lado por um instante, enquanto trocava de câmera. Quando voltou a olhar na direção do polvo, o animal havia desaparecido.

Ele e seus colegas nadaram pelo local durante 20 minutos, antes de perceber que o polvo estava exatamente onde o tinham perdido de vista. "Fiquei realmente zangado", conta Hanlon. "Eles ainda continuam a me enganar, ainda que eu saiba o que estou procurando".

Tradução: Paulo Migliacci ME

The New York Times
 
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