Tara Parker-Pope
Estados Unidos
O estudo, cujos resultados foram divulgados na quarta, demonstra que um programa intensivo de redução do nível de açúcar no sangue pode na verdade elevar o risco de morte. As constatações são tão surpreendentes que o estudo foi suspenso antes do previsto, e elas parecem contrariar a opinião dominante, de que os pacientes de diabete têm de fazer tudo que podem para reduzir ao nível normal o teor de açúcar em seu sangue.
Mas os métodos utilizados no estudo, conhecido como Ação de Controle do Risco Cardiovascular no Diabete (Accord), apresentam pouca semelhança com as técnicas que a maioria dos médicos e pacientes utilizam para administrar o nível de açúcar no sangue. E os pacientes médios do estudo estavam bem mais adoentados do que muitas das pessoas que sofrem de diabete.
"A intensidade daquilo que fizemos não pode ser encontrada em parte alguma do planeta", disse o médico John Buse, vice-presidente do comitê de orientação do estudo e presidente de medicina e ciência na Associação Norte-Americana de Diabete. "Os métodos iam bem além daquilo que é comum na prática clínica". Buse classificou o regime de redução do nível de açúcar no sangue empregado no estudo como "um programa brutal".
Ainda assim, é provável que os médicos reconsiderem sua ênfase em redução do teor de açúcar no sangue a qualquer custo, porque está se tornando cada vez mais claro que outros fatores influenciam o estado geral de saúde dos pacientes diabéticos.
O New England Journal of Medicine publicou esta semana um estudo que demonstrava que um método triplo de administração do teor de açúcar, pressão sangüínea e colesterol - combinado a doses moderadas de aspirina- prolongava a vida dos pacientes de diabete. Os pacientes que se saíram melhor nesse estudo normalmente não atingiam os teores elevados de açúcar no sangue característicos dos pacientes envolvidos no estudo Accord. Em lugar disso, seu nível de açúcar no sangue era apenas ligeiramente superior ao normal.
No estudo Accord, o grupo de pacientes designado aleatoriamente para reduzir seu nível de açúcar no sangue a números quase normais registrou 54 mortes e mais do que o grupo cujos níveis de açúcar no sangue foram controlados com menos rigidez. Os pacientes participaram do estudo por em média quatro anos, depois do que os pesquisadores suspenderam o regime intensivo de controle e adotaram um sistema menos rigoroso.
"Quando estudamos a mortalidade de pacientes de diabete tipo 2, não é apenas o nível de açúcar no sangue que faz diferença", disse o Dr. Joel Zonszein, diretor do Centro Clínico de Diabete, parte do Hospital Montefiore, no Bronx, Nova York. "O que o estudo demonstra é que apenas reduzir o nível de açúcar no sangue não protege o paciente contra uma morte prematura. O nível de açúcar no sangue é importante, mas a pressão sangüínea e o colesterol também são".
Os pacientes que acabam de receber um diagnóstico de diabete continuam a ter muito a ganhar, aparentemente, da manutenção de seu nível de açúcar no sangue o mais próximo possível do normal, por meio de alimentação saudável e exercícios. Mas os pacientes que sofreram ataques cardíacos e apresentam outros fatores de risco não devem se sentir culpados caso não consigam reduzir seu nível de açúcar no sangue ao normal, disse Buse.
"A coisa mais importante é controlar sua pressão sangüínea, seu colesterol, e trabalhar razoavelmente com o diabete, mas sem exageros", ele afirmou. "Estamos abandonando o conceito de que sempre temos de pressionar ao máximo por reduções no nível de açúcar no sangue".
Hoje em dia, muitos dos pacientes de diabete usam dois ou três remédios diferentes a fim de administrar seu nível de açúcar no sangue. No estudo Accord, muitos pacientes usam múltiplos medicamentos e injeções de insulina, aderem a dietas severas e consultam regulamente médicos e conselheiros que acompanham seus tratamentos. Não existe uma combinação padronizada de medicamentos para combater o problema; os médicos empregam as combinações que pareçam funcionar melhor para cada um dos pacientes.
Os pesquisadores ainda precisam examinar os dados referentes aos pacientes que participaram do teste e morreram para determinar se eles apresentam algum padrão que possa ajudar a explicar por que os pacientes incluídos no grupo de tratamento mais intensivo apresentaram resultados piores. Pode ser que essas pessoas simplesmente estivessem mais doentes que as demais, no momento em que foram admitidas no estudo. Também é possível que o resultado tenha sido influenciado pelo número de medicamentos que elas usam ou pelo ritmo de queda de seu nível de açúcar no sangue.
Buse disse que uma questão pouco discutida era se o simples estresse do programa de tratamento em si podia ser um fator. Ele apontou que o programa exigia grande esforço dos pacientes, e ainda assim lhes era extremamente difícil reduzir o nível de açúcar no sangue aos níveis que lhes haviam sido prescritos. Muitos pacientes de diabete se sentem estressados quando não conseguem atingir os objetivos de redução do nível de açúcar no sangue definidos por seus médicos.
"Em determinado nível, é preciso imaginar se alguns dos pacientes simplesmente não foram pressionados demais por tudo isso, em termos psicológicos", disse Buse. "Será que o estresse de tentar com tanto afinco e não conseguir os resultados esperados afetou a situação deles?"
The New York Times